“ORAR, CALAR, SOFRER”

Serva de Deus Irmã  Maria Cristina de Jesus Sacramentado, O.C.D.

( 1890- 1980)

Apresentamos com breves pinceladas alguns traços de sua vida, só um pouco, porque o mais belo de sua alma privilegiada fica oculto aos nossos olhos, no entanto, algo podemos vislumbrar em seus escritos que trasbordam da torrente de seu coração. E, se é verdade que, a face é reflexo da alma, a face da Irmã Cristina alegre e acolhedora, é transparência de sua alma vivendo para Deus.

A Alegria de Cristina ficou gravada no seu sorriso que através das estampas segue exercendo uma atração surpreendente em muitos corações necessitados de paz, consolo e esperança porque é “O sorriso interminável de Deus” (P. José Vicente Rodríguez) e a Ele conduz sempre.

Te convidamos a se aproximar dela com plena confiança, seguro de que te acolherá e intercederá por todas tuas necessidades e intenções.

 SEVILHA

Maria Cristina de los Reyes Olivera nasceu em 07 de julho de 1890, no nº.5 da rua sevilhana de Clavellinas. Ali viviam seus pais, José de los Reyes e Elisa Olivera, desde o seu casamento no ano de 1888. Tinha ele então 26 anos e ela 22. Seu pai, seguindo a tradição familiar, tinha aprendido o ofício de carpinteiro e marceneiro, trabalho muito vigoroso nestes anos. Foi batizada no dia 28 do mesmo mês na Igreja de S. João Batista “de la Palma”.

Maria Cristina era sevilhana e andaluza de ponto a ponta. “Esta sevilhania foi feliz augúrio do gênio alegre de Cristina; pois a despeito de uma existência coalhada de desgraças, penas, dores, incompreensões e dores “a seco”, conservou inalterável seu bom caráter, seu temperamento jovial, seu bom humor, seu bem fazer e seu lindo dizer”. (P. Ismael. Vida y recuerdos. pág. 11).

Sua família se mudou muito cedo para Huelva; quando Maria Cristina contava três ou quatro anos.

HUELVA

Primeiros Anos.

Felizes foram os primeiros anos da infância de Cristina. Sua família gozava de bem-estar e boa posição social. Era uma menina alegre e travessa.

Ainda muito pequena, descobriu que existia um SER SUPREMO a que adorava e contemplava em silêncio. Com frequência e enquanto todos pensavam que brincava, se afastava a um dos cantos da oficina de carpintaria de seu pai, para poder compenetrar-se nesse SER SUPREMO que tanto a atraia.

Teve dois irmãos: Rafael (1894) e José (1901) que morreram poucos meses depois de nascer.

À partir da morte de sua mãe, “Páginas que só se lerão no céu” começam na vida de Cristina.

Em 15 de março de 1902, Maria Cristina perde sua mãe. Já não voltou a encontrar o calor do carinho de uma mãe.

Seu pai se casa com Maria Dolores Olivera, tia de Cristina.

De seu novo matrimônio nasceram quatro filhos: José (1904), Rafael (1906), Emilio (1907), que morreu aos 9 meses, e Maria Salud (1913). Maria Cristina os amou como loucura e ajudou a sua madrasta na sua educação.

Poucos anos depois, seu pai adoece de tuberculose. Pouco a pouco decai o negócio de entalho e marcenaria familiar. A situação econômica mudou radicalmente. Toda a família sofreu, desde então, as consequências da pobreza.

Aqui começou para a jovem Cristina, um duro e prolongado “calvário”. Seus irmãos eram ainda muito pequenos; careciam do mais elementar para viver. Partia sua alma ao ver que não tinham meios para atender a seu pai, tão enfermo, e a seus irmãozinhos que necessitavam alimentar-se para crescer e brincar como todas as crianças.

Ela se encarregou a situação precária de sua família, aceitou-a com dor e se pôs a trabalhar. A seu pai, tentava ajudar, pedindo e recolhendo quanto lhe davam.

Cuidou de seus irmãozinhos como se fossem seus filhos. Usava de sua criatividade para que nada lhes faltasse. Como tinha muita habilidade para os trabalhos manuais, lhes fazia mil coisas de papel fino com recortes que lhe davam nas lojas, cata-ventos com papeis coloridos, e com suas longas varas, brincavam e corriam felizes. Com uma caixa grande de chapéus, lhes preparou uma praça de touros. Assim “suas crianças” se alegravam e não se entristeciam por não ter o que tinham as outras crianças de sua idade. Ainda que o sabão fosse escasso, procurava que estivessem sempre limpos. Sendo já monja Carmelita Descalça, ao recordar essa situação familiar, lhe caiam as lágrimas de dor.

Na Pousada Ávalo.

A morte de seu pai, em 13 de setembro de 1913, marcará uma nova etapa em sua vida. Maria Cristina entra como empregada na Pousada Ávalo de Huelva, e com o tempo se encarregará do serviço. Ali permanecerá uns oito anos, até sua entrada no Carmelo.

Anos muito ricos em graças do Senhor. Sua vida de oração se foi fazendo mais intensa. Cristina experimenta em si algumas graças místicas, às vezes em público.

Começa a difundir-se em Huelva sua fama de santidade.

 “Sou muito pobrezinha.

Não sei como o Senhor se fixou nesta pobre criatura: um micróbio.

Mas, o amor de Deus me enlouquece.

Me perco nessa imensidade Divina”.

 OGÍJARES

No Carmelo de Ogíjares (Granada)

No Mosteiro da Sagrada Família de Ogíjares (Granada) de Carmelitas Descalças, entrou Maria Cristina em 24 de janeiro de 1921. Os dotes que levou consigo, como ela dizia: Pobre, rude e enferma. No entanto, sua comunidade a recebeu com os braços abertos, sabiam que Deus punha em suas mãos uma alma grande.

 

“Eu sou toda de Jesus, Ele é todo meu viver”.

No dia da Assunção da Virgem, 15 de agosto de 1921, Maria Cristina, cheia de gozo, tomou o hábito, adotando o nome religioso de Maria Cristina de Jesus Sacramentado. Professou no dia 20 de agosto do ano seguinte. Neste grande dia, escrevia: “Eu sou tua esposa, ó meu Bem, quem mais feliz que eu?

No dia 21 de agosto de 192, fez sua profissão solene.

“E com Ele, fixa na Cruz: orar, calar e sofrer”.

Logo, a fama de sua santidade, de suas visões e milagres chegou a essas terras granadinas e com ela… a dolorosa provação da contradição.

Foram muitos os dons extraordinários que Deus lhe deu. Esses, lhe ocasionaram uma multidão de sofrimentos: desprezos, incompreensões, perseguições… também na sua Comunidade, entre suas irmãs. Neste tempo, ademais, como em toda sua vida, padeceu inumeráveis enfermidades.

Sempre respondeu Cristina com total entrega ao Senhor. Apesar de que sentia horror ao sofrimento, a dor física e moral, ela soube reconhecer em tudo a “mão de Deus” que “nos convida a amor por amor”.

Confiava na misericórdia de Deus que nunca nega sua força a quem a pede e necessita. As graças extraordinárias de sua oração, o imenso amor de Deus que experimentava, eram a fonte de sua extraordinária fortaleza no padecer, de seu amor ao sofrimento que a identifica e une a seu esposo Jesus Cristo.

Essa foi, sem dúvida, a atitude constante da Irmã Cristina, enquanto permaneceu em nossa terra: dizer “SIM” a Deus, com todas as consequências, com toda a força de seu amor,  e nas circunstâncias muitas vezes dolorosas e nada fáceis.

Essa foi sua “sabedoria”: saber interpretar e assumir todos os acontecimentos de sua vida – gozosos ou dolorosos – a partir do desígnio de amor de Deus, que SEMPRE QUER O BEM DE SEUS FILHOS, ainda que para nós, muitas vezes, nos pareça o contrário.

Este “SIM” é a REPOSTA DE FÉ, DE AMOR E DE ESPERANÇA, de todo aquele que quer fazer de sua vida “MORADA DE DEUS”, “PRESENÇA DE DEUS”, testemunho vivo do Deus Amor no meio do mundo.

“Eis-me aqui, ó Deus, para fazer tua vontade”.

“Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra…”

 

SAN FERNANDO

No Carmelo de San Fernando

Uma fundação providencial. 15 de outubro de 1946. “Do sopé da Serra Nevada às margens do Atlântico”.

Dada a tensa situação que se havia criado no seio da comunidade, se pensou em uma solução que resolveria o problema para o bem da paz conventual; era necessário salvar para a Ordem a vocação da Irmã Cristina; este novo Carmelo era uma solução providencial; nele ela viveu os últimos 34 anos de sua vida. Por suas irmãs de la Granja guardou Cristina o maior apreço e gratidão e indelével carinho de seu coração.

Aquela manhã, que amanhecer! O dia de Nossa Santa Mãe Teresa de Jesus! 15 de outubro de 1946! Que despertar! Via-se vir o amanhecer. Estou louca de contente, já chegou o dia tão desejado de estar dentro de nosso Convento, de nossa clausura. Se visses que alegre é, que bonito e que bonitos jardins têm. Como se expande a alma, nessa solidão destas salinas. Como eu poderei explicá-lo a vós, quando a alma está já em seu centro, já gozando do estrato do que o mundo chama cruz, que para nós é delícia e nosso refrigério, onde estamos sacrificando-nos e pedindo pelo mundo inteiro, para fazer que amem e conheçam mais a Deus Nosso Senhor, a seu Criador e a seu Redentor”.

Muitas haviam sido as dificuldades para encontrar a casa e estabelecer a Fundação, por isso sua alegria era imensa. Ia para realizar o que tanto desejava: poder viver escondida, desconhecida. Quis que a chamassem Irmã Maria, para que não a reconhecessem.

A compra da casa para a fundação foi doação de Dona Dolores Herrera, mãe da Madre Trindade de São João da Cruz (priora do novo Mosteiro), com a herança que correspondia a sua filha. Seu propósito era ademais encarregar-se de todos os gastos iniciais; prover a Sacristia e as demais estâncias do Convento do mobiliário e dos equipamentos de que a comunidade achasse necessário. Mas Dona Dolores morreu inesperadamente, eram os anos do pós-guerra espanhol no que o pão estava racionado e muito escasso os alimentos básicos. A economia da nova comunidade era verdadeiramente precária. Começaram a vida com a única riqueza da misericórdia do Senhor.

A “Mendiga de Jesus”

A priora, com grande confiança e carinho, lhe encomendou desde o princípio “fazer o que estiver em suas mãos para levar adiante a comunidade”. Lhe deram liberdade de ação para desenvolver-se como se fosse a própria priora, pois em seu nome e por seu mandato começava a agir. Quando os moradores a foram conhecendo, ajudaram com verdadeiro desinteresse, logo se foi descobrindo a verdade personalidade da “Irmã Maria”.  Vinha lhe encomendar suas necessidades. Pelo carinho, admiração e agradecimento que lhe tinham ajudavam a comunidade. Grandes benfeitores do Mosteiro de Ogíjares o serão desse novo pombal precisamente por amor a ela. Pedia com tal graça que se transbordavam em generosidade. Sabiam que não pedia para si, reconheciam as bênçãos e favores que sua oração humilde e simples alcançava do Senhor.

Lhe custava mendigar, “a isso não se acostuma”, dizia. “Eu sigo com meu cargo, o dos apurinhos….” O agradecimento de Cristina a seus benfeitores não tinha limites: “Deus lhe pague, Deus lhe pague, Deus lhe pague; com que pagar tanto! Agradecidíssima, agradecidíssima, agradecidíssima; milhões de Deus lhe pague”, eram algumas de suas expressões.

Toda sua vida foi, como ela mesmo se dizia, “O Cireneu das prioras“, “A mendiga de Jesus”, “madre oculta”. Dirigia ademais as obras dos muitos ajustes que necessitava a casa e estava encarregada dos trabalhadores que entravam na clausura. Sem protagonismo, na sua humildade e rudeza, com seu grande amor e entrega foi levando adiante a comunidade.

Que dedo eu corto que não dói?

hermana-cristina-xiA Irmã Cristina provou no seu corpo todo tipo de dor. Sua grande atividade contrasta com suas enfermidades frequentes e às vezes misteriosas. Sabia por experiência o que era a dor, isso a fez muito sensível a sofrimento dos demais. De todos se compadecia.

Com muita frequência, comovida, pedia ao Senhor que passasse para ela as enfermidades e dores, e sua oração era escutada. Se oferecia assim para sofrer, para aliviar aos demais, não só de um modo espiritual senão também físico.

Compelida desde seu interior, às vezes, a chamavam, ou via os perigos e necessidades desde dentro, sem que recebesse nenhuma notícia externa.

Às vezes passava parte da noite em oração pedindo ao Senhor misericórdia, outras vezes, o dom da bilocação a levava ao lado de algum enfermo, no hospital. Sabemos dos testemunhos de soldados feridos no front de guerra aos que ela socorreu.

Muitos foram os dons extraordinários que a Irmã Cristina recebeu toda sua vida: visões, revelações, êxtases, bilocação...  ela não dava importância, sabia bem seu próprio nada, um “micróbio”, só desejava amar a Deus e seus irmãos com um amor humilde e forte, unida a cruz do Senhor.

Com frequência vinham ao locutório em busca de luz e consolo, para lhe pedir conselho e oração, nela descarregavam todas suas angústias, e saíam cheios de consolo, admirados ao se sentirem adivinhados em seus mais ocultos pensamentos, de seus simples e acertados conselhos. Às vezes, sabia de antemão o que ia acontecer ou o que havia acontecido como se tivesse estado presente e sem que ninguém lhe tivesse contado. Foram muitos os milagres e curas que alcançou em sua vida, ainda que ela sempre dizia que havia sido o “Médico Divino”, ou a Virgem, “Nossa Mãe do Céu, nossa Rainha”.

sua vida entregue foi fonte de benção para todos, sua oração constante, ”como essa garoa que vai molhando e cala, e não se dão conta”.

Era muito alegre e simpática, com grande sentido de humor. No ano de 1965 ficou cega, mas não por isso perdeu a alegria. Conseguia nos fazer esquecer que não podia nos ver.

Em 24 de março de 1980, muito desgastada sua natureza por tantas enfermidades, com toda paz e lucidez, beijando o crucifixo com fervor e implorando a ajuda de nossa Mãe a Virgem, entregou sua alma ao Senhor.

Do Céu segue velando por todos como “madre oculta”.


* Este breve perfil está extraído das duas biografias da Serva de Deus publicadas:

 La sonrisa interminable de Dios. José Vicente Rodríguez, , Madrid, EDE, 2004

Vida y Recuerdos de la Hermana Cristina. Ismael Bengoechea, San Fernando, 1996.


SERVA DE DEUS IRMÃ MARIA CRISTINA DE JESUS SACRAMENTADO

ORAÇÃO

(para uso privado)

Santíssima Trindade, que outorgaste à Irmã Cristina um coração compassivo diante das necessidades do próximo e uma fé inquebrantável na eficácia da oração e do sacrifício; pelo amor e fidelidade com que te serviu nesta vida, concede-me a graça que agora te peço e sua pronta glorificação na Igreja, se for para sua maior glória. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.

Fonte : http://www.hermanacristina.es/