A Eucaristia na vida e nos escritos da Irmã Maria da Trindade

Segundo parte da intervenção do Padre G. Claudio Bottini ofm, para a apresentação da décima edição do “Colloquio interiore” da Irmã Maria da Trindade, ocorrida em Milão, no Mosteiro Santa Clara,  em 09 de dezembro de 2015.

 

A própria Irmã Maria conta como foi atraída pela Eucaristia quando um dia entrou por acaso na Igreja de Santa Maria delle Grazie em Milão, durante a benção eucarística: “Eu não entendi nada – diz – mas era como que atraída” (Colloquio p. 60). Por mais de um ano continua a freqüentar as igrejas, atraída unicamente pela misteriosa presença eucarística. É sempre ela quem conta: “Esta religião (o catolicismo) não me dizia nada – mas alguma coisa nas igrejas me atraía irresistivelmente” (p. 60). Neste mesmo tempo, fica muito tocada por um pensamento que lhe disse Verena Pfenninger, sua amiga que havia se tornado católica: “Ele é tão grande, se faz pequeníssimo para vir a nós, escondido sob as espécies do pão; para ajudar-nos… Se tu soubesses… “(p. 61).

Este pensamento faz nascer nela um “intenso desejo – são palavras suas – de receber o Senhor Jesus, nenhum desejo de fazer-me católica. Mas agora há sobre altar e na Missa alguma coisa que eu compreendo” (p. 61).

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Igreja do Mosteiro de Santa Clara de Jerusalém, como a conheceu Irmã Maria da Trindade.

Este misterioso fascínio da Eucaristia a conquista para sempre. Também a chegada ao Mosteiro de Santa Clara em Jerusalém foi marcada pela Eucaristia que ela encontrou exposta em 24 de junho de 1938.

Nos seus escritos, se fala com freqüência da Eucaristia sob vários aspectos. Jesus presente na Eucaristia fala à Irmã Maria como um mestre que a educa sobre os caminhos da perfeita adesão à vontade de Deus. Em um pensamento sugerido pela voz divina se lê: “Quando estás diante do Santíssimo Sacramento exposto, como podes pensar em qualquer coisa além de mim? Escondo a minha divindade, escondo a minha glória, escondo o meu poder: a sua visão vos esmagaria. E sou mais honrado e feliz ao ver que não obstante tudo, credes em mim, sois felizes da minha glória, confiais no meu poder” (n. 298). Em outro pensamento ainda mais profundo, ela anota: “Não se vê nada: uma fina hóstia, um círculo branco no centro do ostensório… E, no entanto, estou lá, sim, eu, Jesus, com a minha divindade. Me aniquilei para que possais vos aproximar de mim, para que a minha divindade penetre em vós e vos transforme sem o vosso conhecimento. Sou eu que ajo… Não peço senão vosso consentimento… Estou lá em um silêncio perfeito, em uma paciência perfeita. É sem palavras que atraio as almas. A minha voz é tão delicada dentro delas, porque uma alma é frágil. Filha minha, a tua voz, se buscas falar de mim, poderia cobrir a minha… Vale mais o silêncio respeitoso que permite escutar-me” (n. 305).

O pensamento do abaixamento extremo da Jesus Cristo na Eucaristia volta continuamente: “Vê como a minha Presença é leve, pouco pesada, tão delicada quanto fiel… Me reduzi quase a nada, para estar entre vós sem ser-vos pesado… Sem pena alguma, vós podeis absorver-me e eu ajo em vós, tão escondido, que parece que sois vós a agir… Está lá a verdadeira ação, aquela que permanece. Poucos a compreendem; prefere-se os feitos chamativos com seus resultados imediatos. Escolhe”. (n. 311).

Em todos emerge e toca o tema da “vida eucarística” de Jesus que a voz divina a impulsiona a contemplar e imitar. Em um texto se lê: “Tu crês, filha minha, que na Santa Hóstia onde parece que eu não faça nada, eu ajo? Ajo com a minha imolação à vontade do Pai, ajo imperceptivelmente, mas eficazmente sobre as almas!… Muitas almas que são minhas uno minha ação à delas do mesmo modo; não se vê nada, e é a ação mais poderosa. Queres seguir-me até lá?” (n. 322).

A vida eucarística de Jesus é chamada: apostolado, silêncio, imolação, irradiação do triunfo da vida do Espírito, missão, obediência e docilidade, ação, reparação, oferta, imolação (nn. 363, 370, 407, 421, 523, 638, 662, 665, 670).

A imitação da vida eucarística de Jesus inspirou a Irmã Maria a fazer o voto de vítima que a levou em brevíssimo tempo a consumar-se no amor como uma eucaristia vivente. Um dia, a voz divina lhe diz: “A alegria não está inscrita na Santa Eucaristia: essa traz a imagem do Crucifixo. Mas quando me recebeis, não sentis minha alegria? Eu vo-la comunico e vo-la dou. Eu sou a verdadeira vítima. Segui-me ao Calvário e até a Eucaristia” (n. 638). E apenas alguns dias antes de morrer, a mesma voz lhe repete: “Aquilo que te peço, aquilo que espero de ti, é que tu ajas sem irritar-te e sem falar, mas conforme a minha maneira, imitando a minha vida eucarística. Isto é o voto de vítima que te pedi”. (n. 665).

Von Balthasar liga a sua espiritualidade eucarística o voto de vítima emitido por Irmã Maria da Trindade. O “estado” eucarístico de Jesus é uma existência expiadora. O Senhor é presente na Eucaristia como “puro dom ao Pai e aos homens” (p. 8). Esta compreensão singular do mistério inspirou Irmã Maria a oferecer-se vítima. Creio que por isso Irmã Maria da Trindade, como tantos santos e santas da Igreja, mereça  ser recordada com um traço de originalidade entre os “grandes intérpretes da verdadeira piedade eucarística” (João Paulo II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia 62).

(Publicado no Piccolo Seme, Newsletter degli Amici di Suor Maria della Trinità, número 2, Junho 2016.)


Tradução: José Eduardo Câmara de Barros Carneiro