Santa Joana Francisca de Chantal

(1572-1641)

Joana Fremyot

Nascida em Dijon em 23 de janeiro de 1572, Joana Francisca tinha apenas dezoito meses quando a Senhora Frémyot é chamada por Deus, quando do nascimento de André. Profundamente católico,  o Senhor Frémyot é Conselheiro da Câmara de contas e depois Presidente do Parlamento de Dijon. Ele vela atentamente sobre seus três filhos, e faz dar-lhes uma boa educação. A pequena Joana mostra uma inteligência viva e bom humor, uma vontade firme e uma fé profunda. Temendo a guerra civil, o Senhor Frémyot a envia em 1587 a Poitou, junto a sua irmã Margarida. Cinco anos mais tarde, chama-a para perto dele, porque alimenta o projeto de casá-la.

A dama perfeita

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Joana Francisca, jovem Baronesa de Chantal

Joana esposa Cristóvão de Rabutin, barão de Chantal, de 27 anos de idade, em 28 de dezembro de 1592. Ela é chamada a “Dama perfeita” primeiramente por seu senso prático que ela revela ao sanear os negócios do domínio endividado que lhes é confiado, mas sobretudo pelo fervor de sua fé, a jovem dama é muito atenta em edificar, evangelizar, se necessário, àqueles que freqüentam Bourbilly.

Cristóvão e Joana, profundamente unidos, tiveram seis filhos, dos quais dois morrem em tenra idade. Desde então, ela amava os pobres que o sabiam e vinham à entrada do castelo onde eram servidos cada dia pela Baronesa. Durante um período de fome, cuidados e provisões de pão foram fornecidos em abundancia aos infelizes. Testemunhas afirmaram que ocorreram misteriosas multiplicações de trigo e depois de farinha.

Apaixonadamente enamorada de seu marido, Joana é despedaçada pela dor quando ele morre em 1601, após um acidente de caça.

 A boa dama

Em 1602, seu sogro, irascível e autoritário, ordena-lhe morar com ele em Monthelon, senão deserdará seus filhos. Por eles, ela aceita com humildade e paciência este purgatório que durará sete anos. O Barão Guido de Chantal havia confiado a casa à uma serva com quem ele teve vários filhos. Ela indispõe o ancião contra Joana, e esta não pode fazer nada sem permissão. Como lhe é duro ver dissipar os bens de seus próprios filhos!

Joana vive uma vida espiritual intensa onde conhece uma profunda intimidade com Deus, mas em uma obscuridade atravessada de dúvidas; prova da fé que durará quase até seus últimos dias. Superando seus sofrimentos interiores, ela consagra o melhor de seu tempo a cuidar dos pobres e assistir aos agonizantes. Entre tantos outros, um fato releva sua heróica caridade: um camponês encontrou um pobre leproso, e leva-o para a “a Boa dama” que cuida dele até sua morte.

São Francisco de Sales

Na Quaresma de 1604, o Presidente Frémyot, que ignora todos os sofrimentos de sua filha, convida-a para ir a Dijon a fim de poder seguir a pregação do Bispo de Genebra. Em 05 de março, desde que ela o vê, Joana o reconhece: é ele, o guia que lhe fora prometido em uma visão. Francisco de Sales também a reconhece, enquanto ele preparava suas pregações de Quaresma, ele teve uma visão de uma Ordem que ele fundaria, e daquela que nela colaborará.

Mas a família de Joana, ignorando o voto de castidade que ela fez, pressiona-a a aceitar se casar novamente pelo futuro de seus filhos. Para fortificar sua resolução, Joana grava em seu peito, com um ferro em brasa, o Santo Nome de Jesus.

Outros encontros acontecerão com Francisco de Sales durante os seis anos em que vai tomando forma, pouco a pouco, o projeto de fundação da Visitação. E os filhos da Senhora de Chantal? Celso Benigno, o mais velho, se prepara perto de seu avô desde a Corte da França. Maria Amada casa-se em 13 de outubro de 1609 com Bernardo, irmão mais novo de Francisco de Sales. Francisca e Carlota seguirão sua Mãe a Annecy e serão as primeiras pensionárias da Visitação. Mas a pequena Carlota morre em janeiro de 1610. A Baronesa de Chantal fez uma comovente despedida de seu filho e seu pai, depois abandona Dijon em 29 de março de 1610, pranteada por todos os pobres da vizinhança.  Pouco depois de sua chegada a Annecy, em cartório, ela se despoja de todos seus bens em favor de seus filhos.

 MADRE DE CHANTAL

A Fundação

S. Francisco de Sales dá a S. Joana de Chantal as Constituições

Domingo, 06 de junho de 1610, inaugura-se uma nova forma de vida religiosa. Nesta festa da Santíssima Trindade, Francisco de Sales dá a Madre de Chantal um compêndio das Constituições: “Segui este caminho, minha caríssima filha, e fazei segui-lo por todas aquelas que o céu destinou a seguir suas pegadas”. Com ela, Maria Jacqueline Favre, Joana Carlota de Bréchard e uma Irmã externa: Ana Jaqueline Coste, começam uma aventura espiritual.

A casa “de la Galerie”, nos subúrbios da cidade, foi o lugar de nascimento desta nova Congregação. O nome escolhido pelo Fundador: a Visitação de Nossa Senhora, mas a vizinhança se habitua a chamar o mosteiro “Santa Maria”; este formará o nome da Visitação de Santa Maria. São Francisco de Sales encontrava na contemplação deste mistério “mil particularidades que lhe deram uma luz especial sobre o espírito do Instituto”: contemplação e humildade, louvor de Deus e serviço do próximo, disponibilidade ao Espírito Santo e ardor missionário, simplicidade e alegria no Senhor. O Fundador já imprime nas suas primeiras filhas sua devoção ao Coração de Jesus.

O próprio Fundador inicia as Irmãs na sua nova vida, as notas destas conversas formam o livro dos “Entretenimentos”.  No fim de um fervente noviciado, em 06 de junho de 1611, as duas primeiras Irmãs com Madre Joana de Chantal pronunciam sua oblação e o Fundador entrega a cada uma a Cruz de prata. As visitas aos enfermos são iniciadas em 01 de janeiro de 1612. Elas são bastante limitadas: as Irmãs “se empregam, por turnos, duas juntas, e não mais que duas horas por dia”.  A Irmã Maria Jacqueline Favre que admira seu devotamento, Joana responde: “Sempre acreditei que na pessoa destes pobres limpo as chagas de Jesus Cristo

A Mística

Durante este mesmo ano de 1612, em um êxtase, Deus mostra a Madre de Chatal o gozo que ele tem nas almas puras, e lhe inspira o desejo de se consagrar por voto a fazer sempre o que lhe parecer mais perfeito.

Alguns anos mais tarde, Francisco de Sales compreende, nos caminhos do Espírito Santo, que chegara o momento para Joana de fazer um último passo para o despojamento total, o puro amor”. A promessa que ele lhe fizera a nove anos deve encontrar seu cumprimento: “Um dia, vós abandonareis todas as coisas, virás a mim, e eu vos colocarei em um total despojamento e desnudez de tudo por Deus”.

 

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Brasão da Ordem da Visitação

No Pentecostes de 1616, ele a convida a se deixar guiar somente por Deus, sem mais se apoiar sobre o conforto da amizade deles. “Nosso Senhor vos ama, minha Madre, ele vos quer toda sua. Não tenhais mais outro braço para vos carregar que o seu, não pare vosso espírito senão semente nele, tenhais vossa vontade unida à sua em tudo que comprazer fazer de vós, por vós e para vós”. E ela, responde: “Bendito seja Aquele que me despoja! Que fácil é abandonar o que está em torno a nós, mas abandonar sua pele, sua carne, seus ossos, e penetrar no íntimo da medula, que é, parece-me, o que nós fizemos, é coisa grande, difícil e impossível, senão para a graça de Deus”.

 

Em uma de suas cartas, Francisco compara o estado de abandono interior de Joana àquela de um músico que se tornou surdo e que continua a tocar para seu príncipe: “Ó que bem-aventurado é o coração que ama Deus, sem nenhum outro gozo que aquele que tem de agradar a Deus”. Este estado de “puro amor” alcançado por Joana é aquele a que Francisco convida todos seus Teótimos, os leitores de seu Tratado do Amor de Deus que aparece nas livrarias neste ano de 1616.

Duas vezes mãe

A infatigável solicitude de Joana por sua comunidade que cresce rapidamente não a faz esquecer sua ternura por seus filhos. A morte de seu pai em 1611, depois aquela de seu sogro em 1613, a obrigam a retornar a Borgonha a fim de colocar em ordem os negócios de família, ela revê em Monthelon a serva-amante e se mostra de uma grande generosidade para com ela e seus filhos.

Em maio de 1617, a morte veio ferir a casa de Maria Amada, Bernardo sucumbe em Turim a uma epidemia, imediatamente a jovem viúva, que espera seu primeiro filho, faz voto de castidade. Ela se refugia no mosteiro junto a sua mãe. Em setembro, Maria Amada sobre sofre a conseqüência de sua tristeza, ela dá a luz prematuramente. Joana recebe o recém-nascido em seus braços para vê-lo morrer imediatamente depois de ter sido batizado. Depois, ela dispensa seus cuidados a sua filha agonizante. Essa, em plena lucidez, depois de ter recebido a Extrema Unção, pede o favor de receber o véu das Visitandinas, depois professa seus votos religiosos, e, com olhar resplandecente, adormece na morte. Joana cai gravemente enferma, mas Francisco obtém sua súbita cura por intercessão de São Carlos Borromeu de quem ele tinha uma grande veneração.

Primeiras fundações

 

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S. Francisco de Sales, S. Joana de Chantal e S. Vicente de Paula, este assume a direção da Visitação de Paris

A Casa “de la Galerie” se tornara muito pequena, a comunidade é instalada em uma casa dentro da cidade em 1612. Logo, Madre Joana de Chantal tem os incômodos da construção do mosteiro segundo o plano modelo que ela projetou.

A fundação de uma Visitação em Lion em 1615 trouxe uma modificação do projeto dos fundadores, a transformação em Ordem puramente contemplativa. As Irmãs, quase todas empenhadas nas vias místicas, reconhecem unanimemente a vontade de Deus.  A clausura e os votos solenes vão favorecer mais a expansão da Visitação. A Madre de Chantal assume uma parte cada vez mais importante, assim permanece três anos em Paris para o trabalhoso início desta Visitação localizada sob a direção de Monsenhor Vicente – São Vicente de Paulo. 13 mosteiros são fundados em 07 anos.

Morte de São Francisco de Sales

No fim de outubro de 1622, a Madre de Chantal está em Lion onde ela teve a alegria de rever o Fundador. Este será o último encontro deles, que vai durar 04 horas, Francisco, que sente suas forças diminuírem, não desejava senão tratar sobre Visitação, esta Obra que agora lhe confia. No 28 de dezembro seguinte, ele morre na Visitação de Lion.

Herdeira e intérprete

Apesar de que sua tristeza fosse imensa, Joana repete um total Fiat a Vontade de Deus. Imediatamente, ela começa a reunir os escritos, cartas e sermões de seu “Bem-aventurado Pai” visando sua publicação e a abertura de um dossier para canonização. Sozinha para guiar a Visitação que não tem senão 12 anos de existência, ela recusa o título de Madre geral, mas sua influência espiritual é incontestada. Será ela que permitirá a realização da obra empreendida, graças a retidão de seu discernimento, a sabedoria de seus conselhos, sua fidelidade perfeita ao espírito do Fundador. Se esse tinha feito editar as Constituições da Visitação, tinha deixado numerosas notas para assegurar em toda parte a uniformidade da observância. A partir destes documentos Madre Joana de Chantal vai redigir o “Livro dos Costumes e Diretório Espiritual” com todas as Superioras da Ordem que ela reuniu ao seu redor em 1624.

Intérprete da tradição salesiana, ela sabe dar soluções adaptadas às questões novas que suscita o rápido desenvolvimento da Visitação, tudo isso, anotado com cuidado, será reunido no livro das “Respostas de nossa Santa Madre”. Sua volumosa correspondência no-la revela Mestra espiritual, dirigindo as almas, segundo os princípios salesianos, mas também com seu vigor e sua ternura maternal. Sem cessar, ela exorta e consola, intercalando os avisos espirituais e os conselhos práticos. Sua influência ultrapassa a Visitação: ela aconselha os leigos, homens e mulheres, mesmo os eclesiásticos.

E as fundações continuam. Se Madre de Chatal  não está presente em cada início, ela os “traz no seu coração”. Sem cessar, ela visita as novas casas: centenas de quilômetros a cavalo depois em liteira através da França, da Lorena, da Sabóia e do Piemonte.

Luto

Pouco a pouco aumenta em torno dela uma grande solidão, seu filho morre em combate em 1627, seguido por sua jovem esposa em 1633, que deixa um pequena órfã: a futura Madame de Sévigné. Em breve, será seu genro que deixará Francisca sozinha com seus dois filhos. Durante o ano de 1637, morrem três das primeiras Irmãs entradas em 1610.

Mártir de Amor

Em 1632, numa conversa com suas Filhas, Joana pronuncia estas palavras de fogo que a revelam tão bem: “Há um martírio que se chamara martírio de amor (…) dai vosso consentimento absoluto a Deus e vós o sentireis. É que o divino Amor passa sua espada nas mai íntima parte de nossas almas, e separa-nos de nós mesmos. Eu sei de uma alma, a quem o Amor a separou das coisas que lhe eram mais sensíveis de que se os tiranos tivessem separado seu corpo de sua alma pelo fio da espada”.

Assim, é a palavra Amor que retorna constantemente em seus lábios: “É preciso tudo abandonar, e permanecer à mercê do Amor divino, a fim de que ele faça de nós o que lhe compraz”.

Santa

Uma última viagem pelo bem da Ordem a conduziu a Moulins. Será lá que ela se apagará em 13 de dezembro de 1641, cercada por suas Filhas a quem ela recomenda a fidelidade e a união de corações, a Visitação conta então 87 mosteiros. Joana de Chantal termina sua vida como ela a viveu, com o único pensamento d´Aquele de quem ela pronuncia o nome por três vezes antes de dar seu último suspiro: Jesus! Jesus! Jesus! Foi com um coração ardente de Amor de Jesus que Joana de Chantal amou seu pai, seu marido, seus filhos, seus amigos, seu “único Pai” (Francisco de Sales), suas “filhas” da Visitação, os pobres e até seus inimigos.

A Igreja, que a declarou santa em 1767, reza assim no dia de sua festa: “Senhor, vós destes a Santa Joana Francisca de Chantal alcançar uma alta santidade através dos diferentes estados de vida…” Ela é a patrona de todas as vocações.

Fonte: http://visitation-nantes.fr/ste-jeanne-de-chantal/

Tradução: José Eduardo Câmara de Barros Carneiro