Religiosa da Ordem da Visitação – Apóstola do Amor Misericordioso

Circular Necrológica

(publicada na Revista “Vida Sobrenatural” Maio – Junho de 1943)

 

“De nosso Mosteiros de Dreux-Vouvant, 2 de janeiro de 1943.

Nossas mui Respeitáveis e amadíssimas Irmãs:

Jesus, nosso divino Redentor acaba de nos unir muito intimamente ao mistério de sua Circuncisão, no primeiro dia de Janeiro de 1943, que coincide que a primeira Sexta-feira do mês, levando Consigo a que durante muitos anos e em todo o sentido da palavra foi a alma e a vida  de nossa humildade Comunidade, a nossa muito Respeitável e bem amada Madre

MARIA TERESA DESANDAIS

Desde sua mais terna infância, essa alma consagrada, favorecida pela natureza e pela graça, aspirou ao dom ou entrega total de si mesma ao AMOR DIVINO, e no curso da última enfermidade de nossa amadíssima Madre, podemos assistir emocionadas a consumação no UNO de todo seu ser com Deus. Assim que, apesar da dilaceração de nossos corações, nos sentimos em uma atmosfera de paz íntima tão profunda e de calma tão sobrenatural, que em meio de nossa dor, buscamos e encontramos a nossa venerada Madre n´Aquele que ela tanto amou e trabalhou para fazer ama entre nós.

Notávamos com pena desde faz alguns meses, que as forças de nossa Madre diminuíam, mas sua rara energia, que tirava sem dúvida de seu trato constante com Deus, a sustentava de pé em meio de suas filhas a quem tanto amava, e sempre acudia a nossos atos de Comunidade, com o olhar brilhante e o sorriso nos lábios. Em cada recreação, com sua graça comunicativa, elevava nossas almas ao sobrenatural, ao amor de nossas benditas observâncias e ao agradecimento a bondade de Deus por quanto havia feito por nós nos últimos anos.

Com efeito, esse humilde canto da região da Vendéia, convertido em um modesto, porém verdadeiro Mosteiro, na guerra, parece claramente um dom do Amor Misericordioso para nossa pequena família, que de outro modo se encontraria ainda atualmente impossibilitada de retomar sua vida religiosa no querido ninho. O desterro existe sempre, enquanto permaneçamos nessa terra, já que nossa verdadeira morada está no céu na casa do Pai… e ali é onde Ele quis levar a nossa amadíssima Madre.

Em primeiro de Dezembro,  as noites começaram a lhe ser muito penosas, sendo mais frequentes as crises de asfixia, com o qual se confirmam as inquietações médicas. Desde então nossas abnegadas e querias Irmãs Assistente e Deposta, pressentindo com dor o supremo sacrifício, se revezavam dia e noite, velando nossa amada Madre.

Nas duas recreações diárias nos reuníamos ao redor de nosso Jesus Visível, e ainda que quiséssemos fazer, nos resulta impossível dar conta de tudo quando verteu em nossas almas o canal Maternal. Nos víamos envolvidas no sobrenatural de nossa amadíssima Madre, a qual, procurando sempre distrair nossa atenção dela, nos lançava continuamente para o alto… na paz, no gozo, convidando-nos quase continuamente a expressar, por meio de algum piedoso canto, suas disposições de agradecimento e amor.

Por si mesma, nossa venerada Madre, solicitou os Santos Sacramentos. Não cremos necessário pintar para Vossas Caridades, os sentimentos de nossos pobres corações destroçados com o pensamento de que Jesus talvez ia nos privar de nosso TESOURO MATERNAL, para levá-la consigo para sempre.

Sucediam-se as Novenas… e queríamos esperar sempre… mas a doce festa do Natal nos mostrou com evidência que o céu se entreabria para nós. Nossa amadíssima Madre experimentava um gozo muito grande ao pensar que morreria durante as Festa de Natal, e nos dizia que todos os mistérios da vida de Jesus são manifestações do Amor Misericordioso de seu Coração, sempre em ação, inclinando-se até a miséria, a fim de revesti-la de Si… e transformá-la n´Ele…

Cheio de delicadeza e de abnegação para com nossa Madre, o Doutor a visitava quase diariamente e se maravilhava de que pudesse viver um coração tão gastado, mas o Artista Divino queria aperfeiçoar sua obra e encher-nos de graças por seu órgão divino…

Quando mais se debilita o corpo, mais parece que se fortalece a alma, nos dizia o Senhor Confessor que rodeava igualmente a nossa enferma com toda sua abnegação de Pai.

Em 28 de dezembro, prevendo nossa venerada Madre, que não poderia acontecer no dia 31 o Capítulo anual, nos reuniu a todas em torno dela, e depois de nos mostrar o nada do que passa, o sério da vida e da morte que ela mesma estava experimentando com trabalho em seu próprio corpo, pediu perdão a cada uma de nós, fez que tirássemos os protetores do ano e nomeou as Zeladoras Espirituais. Que Capítulo aquele! Que memorável para cada uma de nós!…

Cada que vez nos que nos despedimos dela, nos perguntávamos se voltaríamos a ouvir sua voz, que se comprazia em nos repetir: “Vos convém que eu me vá. Se o Senhor me leva, não me ouvireis mais, mas vos ficará o Espírito Santo… Ele vos recordará todas as coisas… Ele fará vossa santidade… Ademais sempre tereis uma Madre que será o órgão para vos transmitir a expressão da Vontade divina… Ó queridas filhas, queridas filhas minhas, a todos vos levo dentro do meu coração… Eu serei sempre – se Jesus o quer e creio que sim quererá – eu serei sempre a pequena Coadjutora de vossa Madre”. Adivinhando nossa dor nos repetia com frequência: “Ó, não demos a Deus mais que alegrias. Estejamos sempre contentes com tudo o que Ele disponha…

Sempre contente d´Ele! Ó, e como o estava sempre nossa amadíssima Madre! No curso de suas maiores crises, a Irmã Deposta que conhecia todos seus atrativos espirituais, lhe dizia docemente para certificar-se de que a ouvia: “Não é verdade Madre minha que Vossa Caridade está contente de tudo o que Jesus faz e quer?” Em seguida um sorriso celestial iluminava seu rosto e murmurava: “Ó, sim! Somos tão felizes os dois… Como queira meu Jesus. Eu pensarei sempre como Tu!” Quantas vezes renovou o sacrifício de sua vida, oferecendo-se em união com Jesus como pequena Hóstia de holocausto em louvor de glória ao Amor Misericordioso, pela Santa Igreja, pelo Santo Padre, pelo Instituto que amava tanto, por sua pequena Comunidade, e para pedir a paz para o mundo mediante o reino da Caridade.

Durante as duas recreações do último dia, de ontem, nossa amadíssima Madre quis de novo reunir todas a seu redor, para praticar até o fim, quanto lhe era possível, nossas santas Observâncias e costumes. A todas felicitou, desejando-nos um ano santo: “Minhas filhas, vos deixou a paz… e a alegria do Espírito Santo. Em nome de todas e de cada de vós faço o sacrifício de minha vida. As que se vão, ficam, e as que ficam, se vão”. Com quanta emoção e santo respeito íamos beijar sua mão maternal e receber a última palavra de adeus a nossas almas!

Em torno do meio-dia, acreditamos por duas vezes que estava na agonia. Renovava muitas vezes o sacrifício de sua vida, repetindo as palavras de Jesus na Cruz, aderindo-se com Ele à divina Vontade do Pai. Depois da obediência da noite deixávamos a nossa amadíssima Madre, perguntando-nos se chegaria ao dia seguinte, nossos corações ficavam perto dela e nossa oração por suas intenções era incessante.

Enquanto descansava um pouco a Irmã Assistente, que havia passado já várias noites junto a enferma, se instalou na cabeceira de sua irmã, a Irmã Deposta, e então tiveram as duas uma conversa muito íntima… depois da qual, nossa venerada enferma tratou de descansar um pouco. Passados uns instantes voltou a cabeça para a que fazia para ela de Cirineu, que era a que mais ela gostava de ter a seu lado.  Pela expressão de seu rosto, compreendeu a Irmã Deposta que havia chegado o momento supremo. Tomou entre suas mãos a mão da amadíssima Madre, para que por última vez abençoasse todas suas filhas, a beijou por todas nós e chamamos a nossa Respeitável Irmã Assistente. Fez algumas aspirações e sua bela alma voou para sempre para abismar-se n´Aquele que tinha sido seu único Amor  e a Quem tão fielmente tinha servido. Eram as 10 da noite.

Tinha nossa amadíssima e chorada Madre, 66 anos de idade e 44 de profissão”.

Até aqui as Religiosas do citado Mosteiro – que é de Visitandinas – na circular que mandaram a Ordem ao falecimento dessa religiosa.

De nossa parte somente acrescentamos que Madre Maria Teresa Desandais  e “P. M. Sulamitis” tão conhecida por nossos leitores, eram a mesma pessoa. O Senhor lhe dê descanso eterno!

Para conhecer mais de seus Escritos, veja:

http://obradelamormisericordioso.blogspot.com.br/