O PADRE ARINTERO

E A OBRA DO AMOR MISERICORDIOSO NO JUBILEU DA MISERICÓRDIA

P Pedro Fernández Rodríguez, OP.

Penitenciário na Basílica da Santa Maria Maior. Roma.

O P. Juan González Arintero (1860-1928), um frade dominicano de Salamanca, na Espanha, é conhecido, sobretudo como restaurador da mística tradicional, com seu grande livro intitulado “La Evolución mística” (Salamanca 1908). Mas hoje, quero vos apresentar, queridos amigos, o P. Arintero como Apóstolo do Amor Misericordioso. Mas isso nos obriga a recuperar para história da Igreja do século XX, uma monja visitandina, Teresa Desandais (1876-1943), francesa que é a origem da devoção ao Amor misericordioso, atualização do culto ao Sagrado Coração de Jesus.

E fruto estupendo desta obra é a M. Esperança de Jesus (1893-1983) com seu famoso Santuário do Amor Misericordioso em Collevalenza (Perugia. Italia). Em concreto, o P. Arintero foi o escolhido pela Providência divina para fazer ressoar esta devoção e essa doutrina do Amor Misericordioso, sobretudo mediante a revista “La Vida Sobrenatural”, por ele fundada em 1921.

Primeiro quadro: o P. Arintero.

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Servo de Deus Padre Arintero, O.P.

O P. Arintero nasceu em Lugueros, um pequeno povoado nas montanhas de Léon (Espanha) em 24 de junho de 1860. As pessoas das montanhas leonesas, dedicadas a agricultura e a colheita, é indômita, tenaz, austera, prudente, enérgica, sóbria e muito religiosa. O clima é duro.

Arintero, depois de três anos passados na preceptoria de Boñar, chegou com 15 anos no Convento dos Frades Dominicanos de Corias (Asturias) em 14 de julho de 1875; neste Convento foi restabelecida a vida dominicana, depois da exclaustração dos religiosos espanhóis de 1834, no mesmo dia do nascimento de Arintero. O jovem Juan começou o postulantado, exercitando-se no latim e nas obras de piedade cristã. Em 10 de setembro de 1875 tomou o hábito de frade dominicano e dedicou o ano do noviciado a aprender de memória a Regra de Santo Agostinho, e o estudo das Constituições da Ordem dos Dominicanos, as rubricas litúrgicas do rito próprio, o canto gregoriano e a prática dos exercícios piedosos. Em 10 de setembro de 1876 fez a profissão religiosa simples, começando os estudos de filosofia e teologia. Em 20 de setembro de 1879 fez a profissão solene prometendo a Deus viver a vida religiosa segundo o espírito de São Domingos de Gusmão usque ad mortem.

Mas no começo de agosto de 1881, encontramos o jovem Arintero no celebérrimo convento de Santo Estevão de Salamanca; lhe faltava um ano para finalizar os estudos de teologia; contudo naquele momento era necessário que alguns frades dominicanos alcançassem o doutorado em Ciências Naturais para a manutenção dos colégios próprios. No convento de Salamanca habitava uma comunidade de dominicanos, integrada por alguns religiosos franceses de Toulouse, expulsos de seu país em 1880, e outros poucos religiosos espanhóis. O estudante Arintero, aplicado nos estudos, fervoroso na oração e afável na vida comum, era apreciado por seus companheiros de Universidade por sua dedicação e por sua boa índole pessoal, mas não brilhante, porque carecia de uma fácil expressão verbal e era propenso a surdez. Passados cinco anos obteve o Doutorado na Faculdade de Ciências Físico-Químicas com um bom resultado. Em Salamanca, foi ordenado nas têmporas de setembro de 1883; tinha 23 anos.

No final de setembro de 1886, Arintero, terminados os estudos universitários, se encontrava no Colégio de Vergara (Guipúzcoa) onde ensinou diversas disciplinas de Ciências Naturais e cuidava do Museu de História Natural. Arintero, religioso científico, pensava que era urgente abandonar certas questões escolásticas e dedicar-se a aquelas questões de atualidade que servem para defender a fé. Era um apologeta e sonhava com cristianizar o tema da evolução. Em 1892, foi destinado ao Convento de Corias como professor de Ciências Naturais dos estudantes dominicanos filósofos; foi um destino providencial, pois nomeado confessor das monjas dominicanas de Cangas de Narcea em 1895, ali conhecer a Irmã Pilar Fernández Berdasco, uma noviça que faleceu três anos depois, em 29 de junho de 1898, graças a quem o P. Arintero ficou fascinado pelo mundo da mística. Também nesses anos passados em Corias, Arintero advertiu que era necessário vencer seu temperamento que beirava a teimosia; era um cabeça dura.

Em 1898, o P. Arintero foi destinado a Salamanca como professor de Apologética e depois também de Eclesiologia (os lugares teológicos de então); no convento de Santo Estevão já não residiam os frades dominicanos franceses, regressados a França em 1886, senão um grupo numeroso de estudantes dominicanos teólogos desde 1892. Esse novo trabalho teológico lhe permitiu a entrada no mundo da teologia. Em 1900, o P. Arintero é destinado ao convento de Valladolid, pois o capítulo provincial daquele ano, ocorrido em Vergara, decidiu fundar um Centro de Estudos Superiores em Valladolid com uma finalidade apologética. Com a mesma intenção o P. Arintero organizou em Valladolid a Academia de Santo Tomás, mas seu espírito girava, já não somente em torno da apologética, senão também em torno da vida mística, depois do conhecimento de algumas almas espirituais e da leitura do livro Henri Joly (1839-1925), La Psichologie des Saints (Paris, 1897).

Em 1902, encontramos o P. Arintero de novo em Salamanca como professor de Apologética e Propedêutica, e depois de Sagrada Escritura. Na primavera de 1904, viajou a Itália para assistir ao Capítulo Geral de Viterbo, no convento da Virgem de la Quercia, como sócio do definidor, onde foi eleito Mestre Geral da Ordem, o P. Jacinto Cormier, a quem havia conhecido em Salamanca. Em 1908, o P. Arintero não somente foi honrado com o título de Mestre em Sagrada Teologia, senão também foi impresso o terceiro volume de sua obra mestra “El Desenvolvimiento y vitalidad de la Iglesia”, “La Evolución mística”, em cujas páginas mostra o desenvolvimento da expansão prodigiosa da divina graça nas almas.

A Ordem dos Frades Dominicanos inaugurou o Colégio Internacional Angelicum de Roma em 1909 e o P. Arintero foi chamado como professor de Eclesiologia. Mas no final do primeiro ano de docência foi bruscamente despedido. Qual o motivo? Era suspeito de modernismo. Seu entusiasmo pela evolução mística foi motivo de contraste com alguns frades do Angélico.

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Padre Garrigou-lagrange, O.P.

O P. Arintero regressou, pois, a Espanha como delegado do Mestre Geral por motivo da festa de 50 aniversário da fundação do convento de Corias no outono de 1910. E em começos de 1911, foi designado de novo ao convento de Salamanca, onde permanecerá até sua morte. Mas o ano de 1911 foi um calvário moral e físico para ele; inclusive adoeceu gravemente. Os críticos foram seus próprios irmãos dominicanos, o P. Norberto del Prado, com um artigo na El Santísimo Rosario 26 (1911) 706-714 e P. Emilio Colunga na revista La Ciencia Tomista 4 (1911) 175-177. E seus defensores foram, em Roma seu grande amigo o P. Reginaldo Garrigou-Lagrange e na Espanha o P. Graín, com um artigo na La Ciencia Tomista 5 (1912) 74-76. Em 07 de junho de 1912, escrevia o P. Garrigou Lagrange ao P. Arintero: “No que se refere ao Index, vós podes estar tranquilo. Por uma fonte seguríssimo soube que no Index responderá que seu livro não pode ser condenado”.

Desde 1912 até 1918 foram seus últimos anos de magistério como professor de Exegese Bíblica em Salamanca. No estudo da Sagrada Bíblica, sem abandonar seu sentido crítico, ao final foi para ele um convite a buscar sempre o sentido místico da Palavra de Deus, que se converte em resplendor da vida eterna.  Em 1918, os superiores o liberaram do magistério e o P. Arintero pode dedicar-se por inteiro a suas coisas, a saber, a Deus e as almas.

A vida espiritual, na teoria e na prática, e a direção espiritual foram seus compromissos principais. O P. Arintero amava as almas e trabalhava para que recuperassem seu resplendor na presença de Deus. Foi diretor espiritual das monjas, M. Maria Amparo do Sagrado Coração, Clarissa e da M. Maria Madalena de Jesus Sacramentado, passionista, conhecida com o pseudônimo de J. Pastor. Conheceu também o pensador hispanista Ramiro de Maeztu em uma conferência sobre vida espiritual pronunciada por ele em Bilbao. Neste contexto vale a pena recordar o encontro entre o P. Arintero e D. Miguel de Unamuno no Monte Olivete, no jardim do Convento de Santo Estevão de Salamanca: “D. Miguel, vós buscais a Deus pelo caminho da soberba. Mas recorde que Deus resiste aos soberbo e se revela aos humildes. Bem, D.Miguel, quando decidir mudar de postura volte a mim e estarei contentíssimo em acolhê-lo. Enquanto não, estamos aqui para perder tempo”.

Eis aqui os três amores do P. Arintero nos últimos anos de sua vida: a fundação do mosteiro de Clarissas de Cantalapiedra (Salamanca, 1920) com a M. Amparo; a revista “La Vida Sobrenatural (Salamanca, 1921) e a Obra do Amor Misericordioso (Salamanca, 1922).

A Madre Amparo, nascida em Cantalapiedra em 30 de outubro de 1889, depois de uma experiência falida no mosteiro cisterciense de Arévalo (Ávila), entrou no mosteiro do Corpus Christi das clarissas de Salamanca, em 19 de maio de 1913 e já durante o noviciado se sentia impulsionada interiormente a fundar um mosteiro de estrita observância dedicado ao Sagrado Coração.

A M. Amparo se desanimou diante de tantas dificuldades, mas achou sempre no P. Arintero um apoio moral. Finalmente, em 30 de maio de 1920, a M. Amparo com outra professa, uma noviça e uma aspirante conversa, acompanhadas pelo P. Arintero, chegaram a Cantalapiedra a fundar o novo mosteiro, sendo recebidos pelo Senhor Pároco. Apenas um mês antes de sua morte, em 24 de janeiro de 1928, o P. Arintero visitou pela última vez seu mosteiro, manifestando o desejo de repousar entre suas filhas. No mês de novembro de 1939, o bispo de Salamanca, escutando muitas críticas contra o mosteiro, fez pessoalmente a visita canônica e observando que tudo estava em ordem, disse: “Verdadeiramente esta é a casa do Sagrado Coração”.

O P. Arintero foi sempre corajoso na defesa da verdade e da verdadeira vida mística; primeiro, colaborou na fundação da revista “La Ciencia Tomista” em 1910, e no mês de janeiro de 1921 teve entre suas mãos o primeiro número da “La Vida Sobrenatural”, cuja finalidade era ensinar às almas a vida de santidade; um apostolado universal, desenvolvido tanto pelo clero religioso como pelo clero secular e inclusive por um grupo de leigos competentes. A revista foi a pupila de seus olhos até a morte. No ano de 1921, a Administração da revista esteve em Bilbao, graças a um bom grupo de seus admiradores leigos, mas desde 1922, a direção, a secretaria e a administração da revista esteve sempre em Salamanca.

Os primeiros sinais da Obra do Amor Misericordioso chegaram ao P. Arintero em fevereiro de 1922, mediante um opúsculo intitulado em francês “Les Petites etincelles”, em português “Centelhas”[1], sob a misteriosa assinatura de P.M (Pequena Mão) enviado a ele por uma Senhorita chilena Elvira Ortúzar, que morava na França. Em 15 de fevereiro de 1923, Ortúzar manifestou ao P. Arintero a identidade da autora, uma monja francesa, da mesma família religiosa de S. Margarida Maria Alacoque e Benigna Consolata, visitandina de Como (Italia), a secretária do Sagrado Coração, cujo nome era M. Maria Teresa Desandais (1876-1943).

Segundo Quadro: M. Maria Teresa Desandais, monja visitandina

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Madre Maria Teresa Desandais

Teresa Desandais nasceu provavelmente em Dreux, região central da França, em 1876. Filha única e órfã de pai aos seis anos, aprendeu desde menina a conviver com o sofrimentos e a aceitar a obediência; por outra parte, se desenvolveu nela uma grande paixão pela verdade e se sentia muito atraída pelo amor.

Em 30 de setembro de 1896, com a idade de 20 anos, entrou no mosteiro das Visitandinas de Dreux, tomando o hábito em 04 de maio de 1897, mas sua vocação religiosa fora já clara desde seus nove anos. Depois de sua profissão religiosa conheceu as enfermidades físicas e morais, abrindo seu espírito a uma espiritualidade vitimal. No ano de 1902, depois de cinco anos de vida religiosa, escreveu as primeiras mensagens do Amor Misericordioso, a saber, “O Tesouro escondido”, e a oração “Oferenda ao Amor Misericordioso”.

Este é o texto da oração “Oferenda ao Amor Misericordioso”:

Pai Santo,

pelo Coração Imaculado de Maria,

eu Vos ofereço Jesus, vosso Filho muito amado,

e me ofereço a mim mesmo n´Ele, com Ele e por Ele,

por todas as suas intenções

e em nome de todas as criaturas”.

Para ela, o Tesouro escondido é Jesus e o Amor Misericordioso é também Jesus.

O contexto espiritual no qual nasceu a corrente do Amor Misericordioso está plenamente conforme a Ordem da Visitação de Santa Maria. A propósito disso escreveu então a M. Teresa Desandais: “Nada de extraordinário se suspeita sobre o Amor Misericordioso; nele se adverte a aplicação do espírito de nosso Fundador e a continuação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus”.

Ela era consciente de ser uma mera transmissora das mensagens divinas; era somente a “Pequena Mão” (P.M.) a serviço do ditado divino; por este motivo escreve em primeira pessoa; ela não sabe o que deve escrever, mas não pode fazer nenhuma correção. Sente um grande medo diante do sobrenatural, mas não pode se opor a potência divina. De 1902 a 1919, o Amor Misericordioso foi um tesouro em seu coração e na comunidade visitandina de Dreux. Em 1904, a M. Teresa trabalhava já na imagem do Amor Misericordioso.

Imagem da Amor Misericordioso, inspirada a Madre Teresa Desandais

Em fevereiro de 1904 – escreve ela – e uma das manifestações do Senhor, tive a primeira visão do que tinha que fazer: uma imagem do Crucificado com seu Coração, colocando a oferenda na parte inferior. Na mesma época, vi que na imagem devia aparecer a Cruz, o Coração e a Eucaristia”.

Ela queria representar o rosto de Cristo vivo na Cruz, modelo de nossos sofrimentos, a saber, a vontade de Jesus naquele momento era a glória de Deus a salvação das almas. Aos pés do Crucifixo via-se o livro dos Evangelhos aberto no capítulo 13 de Evangelho de São João, o mandamento novo, iluminado pelo Coração. Na parte inferior se lia o lema: “O Amor Misericordioso”. Em 1916, se adicionou a coroa real aos pés da Cruz.

Já os místicos dominicanos renanos do século XIV tinham unido o Sagrado Coração com a Eucaristia. E, por outra parte, o binômio Coração e Cruz de Cristo estava também presente no escudo da Ordem da Visitação, composto por seu Fundador, São Francisco de Sales.

Depois de alguns anos inativa, submetida a obediência, em 1912 continuou M. Teresa escrevendo mensagens e em 1914 pintou um grande quadro a óleo do Amor Misericordioso para sua comunidade religiosa. 1915 foi um ano muito fecundo: a M. Desandais escreveu muito para si, para a comunidade e para o mundo. Em 1917, durante o retiro anual, escreveu o opúsculo “Centelhas”, uma síntese da doutrina e da devoção ao Amor Misericordioso. Nessas páginas afirma que a grande tragédia do homem é ignorar o amor misericordioso de Deus, olha a miséria do homem com compaixão desejando nossa paz e nossa salvação. Quando o homem se deixa amar por Deus, realiza obras boas, que são frutos do amor.

A M. Desandais propõe nas páginas de “Centelhas”, a prática da Entronização espiritual do Sagrado Coração, a saber, convida a quem fez a entronização do Sagrado Coração nas famílias a fazê-lo também no próprio coração, correspondendo assim ao que Jesus espera de nós. É preciso fazer conhecer o amor de Deus.

A M. Teresa Desandais se considera continuadora de S. Margarida Maria Alacoque (1647-1690), de Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897) e da Irmã Benigna Consolata (1885-1916), visitandina do mosteiro de Como (Itália). Era importante então dizer que o Amor Misericordioso não era uma novidade; era simplesmente mostrar a verdadeira devoção ao Amor do Sagrado Coração de Jesus.

Serva de Deus Irmã Benigna Consolata Ferrero

Enquanto a primeira citação de Santa Teresa do Menino Jesus feita pela M. Desandais é de 1923, esta conheceu a Irmã Benigna Consolata, pequena secretária do Amor Misericordioso e vítima de amor pela paz no mundo, quando foi impressa sua primeira biografia em 1918. A missão da Irmã Benigna Consolata foi muito semelhante à da M. Teresa Desandais. Ambas foram depositárias de uma mensagem que outros hão de fazer conhecer e o conteúdo da mensagem é idêntico: o Amor Misericordioso salvará o mundo.

Quando a M. Desandais escreve: “Chamado aos amigos do Coração de Jesus” se apresenta como continuadora da Irmã Benigna Consolata e com este opúsculo convida a formar parte da Associação do Amor Misericordioso; assim este movimento ultrapassou os muros do mosteiro. Naquela febre de associacionismo de então, faltava uma associação dos amigos do Sagrado Coração de Jesus, dedicados a amar a Jesus e ao próximo, expiando com a penitência os pecados do mundo.

Vejamos como se realizou em concreto a difusão, fora do mosteiro, da Obra do Amor Misericordioso. Deixamos falar a M. Desandais: “Um dia Jesus nos mandou ao mosteiro a Senhorita Émilie Blanck, que mostrou grande interesse pela Obra e seus desejos de trabalhar para a glória do Sagrado Coração de Jesus, tudo aquilo que Jesus havia descoberto e que nós ainda não havíamos compreendido (…)  A vontade Deus era evidente (…) Desde então uma corrente maravilhosa de circunstâncias mostraram o desígnio de Deus”.

Blanck decidiu imprimir as mensagens transcritas pela M. Desandais, o qual aceitou com dois condições: ela devia permanecer no anonimato e as mensagens devia levar o Imprimatur eclesiástico.  Blank, aceitadas essas condições, começou a difundir a Obra do Amor Misericordioso na França. No mesmo ano de 1919, fez imprimir em Paris o opúsculo “Centelhas” e no ano seguinte iniciou a Obra de Propaganda do Sagrado Coração no primeiro mosteiro da Visitação de Lyon, fundado em 1615 e situado desde 1856 na colina de Fourvière, onde já se imprimiam os opúsculos do P. Mateo Crawley sobre a Entronização do Sagrado Coração nas famílias.

Os opúsculos da M. Teresa Desandais impressos pela Obra da Propaganda do Sagrado Coração de Lyon foram acolhidos com muito fruto espiritual. O Amor Misericordioso atuava nas almas, realizando maravilhas de conversões e santificação.

Em fevereiro de 1922, se produziu o encontro da Senhorita Blank, diretora da Obra de Propaganda do Sagrado Coração, com a Senhora Elvira Ortúzar, uma chilena, que vivia em Chateau—Gontier, França, e colaborava já com o P. Mateo Crawley. Devido ao interesse da Senhora Ortúzar pela vida mística, esta estava já em comunicação com o P. Juan González Arintero desde 1921, de quem conhecia seu famoso livro “Evolución mística” e outros escritos seus.

O P. Arintero informou a Senhorita Ortúzar da prática da “Entronização espiritual”, devoção que a Senhorita Ortúzar quis difundir na França e como o P. Bernadot, diretor da revista “La Vie Spirituelle” não o assumiu, se pôs em relação com a Obra da Propaganda do Sagrado Coração de Lyon. Este foi o motivo do encontro, em Lyon, de Blank e Ortúzar em 1922 e nesta ocasião pela primeira vez Blank ouvi falar do P. Arintero e Ortúzar das mensagens do Amor Misericordioso.

Acrescentamos que tanto Blank como Ortúzar ficaram maravilhadas ao constatar a semelhança entre a “Entronização espiritual do Sagrado Coração” que difunde na Espanha o P. Arintero desde 1916 e a forma proposta pela M. Desandais em 1917 em seu opúsculo “Centelhas”, sem ter tido previamente conhecimento um do outro. Por outra parte, ambas comprovaram que a entronização espiritual era o complemente perfeito da “Entronização do Sagrado Coração nas famílias”, impulsionada pelo P. Mateo Crawley; não era suficiente entronizá-lo na sociedade familiar, era preciso entronizá-lo inclusive nos corações.

Terceiro Quadro: o P. Arintero e a M.Teresa Desandais

O P. Arintero aceitava as revelações privadas em seu valor relativo, enquanto favorecem a conversão das pessoas e incendeiam nas almas o amor divino. De fato, o P. Arintero começou a divulgar as mensagens da monja francesa na revista “La Vida Sobrenatural”, com o Nihil Obstat do Bispo de Salamanca e com a plena aprovação da M. Teresa Desandais.

Em concreto, escreveu uma nota bibliográfica na revista “La Vida Sobrenatural”, no mês de abril de 1922 sobre o opúsculo “Centelhas”, que havia recebido dois meses antes da Senhora Ortúzar, expressando-se desse modo: “Centelhas. O dom de Deus. Segredos do Amor divino (…) Opúsculo verdadeiramente digno dos nomes que leva por título. De fato, suas linhas são como pequenas centelhas que incendeiam de chamas de amor divino”.

Na metade de 1922 circulava pela Espanha o opúsculo “Chamamento aos amigos do Coração de Jesus” e a revista “La Vida Sobrenatural” em 1922 divulgou outros três escritos da monja francesa: “Jesus, laço de união”, “O Amor Misericordioso” e “Os amigos de Jesus”, sob a assinatura de A. Sulamitis, a mística esposa de Salomão no Cântico dos Cânticos.

Enquanto, a M. Teresa Desandais continuava a receber novas mensagens sobre o Amor Misericordioso; e em 1920 começava a escrever o opúsculo “O Senhor Jesus”, onde descrevia a fisionomia exterior da Obra do Amor Misericordioso, pequenos grupos, onde se manifestava o reino da caridade nas almas e no mundo.

Durante o mês de abril de 1923, Desandais escreveu “O Plano da Obra do Amor Misericordioso”, onde se distinguiam a união interior e a união exterior e os membros de primeiro grau e de segundo grau e por este motivo se pensou havia chegado o momento de fazer uma reunião para concretizar o Plano da Obra. Foi na Espanha onde se fez a primeira tentativa de  por em marcha este projeto.

Esta reunião aconteceu em Madri de 12 e 18 de maio de 1923, no qual esteve presente, a Condessa de Montegil e sua filha Elvira Adorno, a Senhora Juana Lacasa, a Senhorita Émilie Blank, os Padres Arintero e Buenaventura García de Paredes, também dominicano, o Senhor Diego de Castro, e a religiosa Regina Martyrum, em cuja comunidade reparadora acontecia a reunião.

O P. Arintero, atual diretor da Obra, propôs ao P. Buenaventura como seu substituto em Madri, mas a Condessa de Montegil propôs ao P. Fernando Vives, SJ, seu diretor espiritual, e esta proposta foi aceita ao final pela maioria dos presentes. De fato, a partir de maio de 1923, a nova Junta Diretora, formada pela Condessa, como Presidenta, sua filha, como secretária, e Lacasa como tesoureira, levaram adiante a Obra do Amor Misericordioso, deixando ao P. Arintero em posto secundário. O P. Vives, conselheiro da Condessa, e Diego de Castro, ambos chilenos, criaram uma nova realidade em torno da Obra, enquanto o último se preocupou também em conseguir a aprovação de Roma.

Neste momento entrou pela primeira vez a confusão na Obra do Amor Misericordioso. Diego de Castro corrigiu “O Plano da Obra” substituindo-o com “A Liga evangélico da caridade”. Em agosto de 1923, o P. Vives e Castro viajaram a França em companhia de Blank visitaram a M. Teresa Desandais. O P. Vives decidiu por si mesmo assumir a direção espiritual da M. Desandais e a seu regresso a Espanha, Castro terminou de escrever “Os Estatutos da Obra do Amor Misericordioso”.

Em 11 de novembro de 1923, se realizou a primeira reunião na Casa da Caridade, em Madri, concebida como um lar cristão, formado por pessoas casadas e solteiras, sob a presidência do P. Fernando Vives, chamado na ata fundador e diretor da Obra. A segunda e última reunião ocorreu em 24 de janeiro de 1924. A solicitação formal de aprovação apresentada em Roma em 08 de novembro de 1923, obteve uma resposta negativa do consultor, firmada em 24 de abril de 1924, baseando-se em que o objeto da Obra era demasiado amplo e indeterminado e inclusive o nível institucional solicitado tampouco era claro, porque não se sabia se o que se pedia era a aprovação da Obra no nível romano ou em nível diocesano.

Algo estava mudando na Obra do Amor Misericordioso, uma obra de Deus na que não tinha lugar para personalismos. As mensagens eram a riqueza principal da Obra e a M. Desandais tinha colocado sempre em primeiro lugar a realidade interior e não a organização exterior. Ademais, a realidade exterior da Obra do Amor Misericordioso se concretizava em pequenos grupos que se multiplicavam pouco a pouco.

Estando assim as coisas, foi providencial a incorporação à Obra do P. Reginaldo Duriaux, frade dominicano francês, professor da Universidade de Friburgo, no mês de outubro de 1923, com o apoio da Senhora Blank; o P. Duriaux, com um golpe de mão, necessário naquele momento, se fez cargo imediatamente da direção espiritual da M. Desandais, das mensagens e da Obra; em concreto, no mês de novembro de 1923, a M. Desandais manifestou por escrito que não estava de acordo com os “Estatutos” e afirmou também que o que se devia pedir ao Vaticano não era a aprovação de uma Obra em nível internacional, senão somente uma Carta do Santo Padre louvando os fins da Obra.

De todos os modos, o fracasso dos trâmites romanos e a nova situação da Obra na França provocou a desintegração da junta diretiva espanhola. No verão de 1924 fechou-se a Casa da Caridade de Madri. Por outra parte, a M. Desandais esteve enferma desde o verão de 1924 até 15 de agosto de 1925, data na qual experimentou uma cura extraordinária.

O P. Arintero aceitou a nova situação e orientação da “Obra do Amor Misericordioso”, porque permitia divulgar o Amor Misericordioso sem se preocupar pelas estruturas. Em novembro de 1924, o P. Arintero, que sempre excluía o particularismo e os personalismos, já tinha sido encarregado de novo de levar adiante a Obra do Amor Misericordioso na Espanha pela Senhorita Blank, por expresso desejo da M. Desandais e sob a direção geral do P. Duriaux. O primeiro mosteiro da Visitação de Madri e os sacerdotes seculares, D. Aníbal González, professor do Seminário Diocesano de León, e D. Francisco Arnau, da Arquidiocese de Valência, colaboração com o P. Arintero na difusão do Amor Misericordioso na Espanha.

Em janeiro de 1925, escrevei o P. Duriaux uma ampla carta ao P. Arintero mostrando o espírito da nova orientação da “Obra do Amor Misericordioso”. Partindo do sentido sobrenatural da Obra pensava que era suficiente a mínima estrutura visando a difusão das mensagens da M. Desandais. Depois de 15 de agosto de 1925, a M. Desandais e o P. Duriaux fizeram uma revisão de todos os escritos com o propósito de publicá-los em uma Coleção sob o título “Para os amigos do Coração de Jesus”, editados pela Obra da Propaganda do Sagrado Coração de Lyon, imprimindo-os em Montpellier.

Em 1926 eram já 19 os opúsculos editados. Em 10 de abril de 1916, o P. Duriaux foi recebido pelo Papa Pio XI em audiência, no qual o Padre apresentou ao Papa o apostolado que se estava realizando, apresentando-lhe com alguns opúsculos sobre Cristo Rei, recorda-se que em 11 de dezembro de 1925 havia sido promulgada a Encíclica Quas Primas, sobre Cristo Rei. Mas o P. Duriaux não fez alusão alguma ao Amor Misericordioso diante de Pio XI, comportamento que surpreendeu a M. Desandais.

A partir de 1925, o P. Arintero levou adiante na Espanha a Obra do Amor Misericordioso, mas sem ocultar sua finalidade de manifestar o Amor Misericordioso; de fato, a coleção espanhola de opúsculos se chamou “Biblioteca do Amor Misericordioso” e posteriormente “Coleção de ensinamentos sobre a vida cristã, a saber, A Obra do Amor Misericordioso”.

Por outra parte, para evitar que na Espanha a Obra do Amor Misericordioso parecesse uma obra dos Frades Dominicanos, o P. Arintero se limitou a fazer a revisão do texto, que se divulgava na revista “La Vida Sobrenatural” e o mesmo texto se podia difundir livremente por outros meios.

É importante indicar a grande confiança da M. Desandais no P. Arintero, a quem escreveu no final de 1926, dizendo: “Deus serviu-se de vós, para assegurar-me e dizer-me que caminhe sem medo por meu caminho, sem falar com aqueles que não o podem compreender”. Mas a fama do P. Arintero na Espanha desde 1923 a 1926 foi contrastada devido a conferência por ele pronunciada no Congresso Teresiano, ocorrido em Madri em março de 1923, sobre a “A contemplação adquirida” e “A carta aberta sobre a contemplação adquirida” do P. Juan Vicente de Jesús, escrita em junho de 1915, na que acusava falsamente o P. Arintero de ofender sua Ordem Carmelitana.

O primeiro encontro do P. Arintero com a Senhora Juana Lacasa, grande colaboradora na divulgação do Amor Misericordioso na Espanha, foi em Madri, durante o Congresso Teresiano, em março de 1923. “Devo dizer com franqueza que a primeira impressão me fez estar mal: era baixo, gordo, congestionado e com uma figura sem nenhuma elegância (…) E quanto peso agora na sabedoria, no saber, nas virtudes e nos singulares dotes de extraordinária bondade e de infinita humildade que se escondiam sob aquela aparência, não posso deixar de pensar que Deus, às vezes, se digna ocultar as belezas da alma aos olhos dos homens, como esconde a pérola sob a aspereza da concha”.

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São José Maria Rubio, “O Apóstolo de Madri”

Juana Lacasa, filha espiritual do P. José María Rubio, Jesuíta, foi a intermediária para o encontro fraterno entre o P. Arintero e o P. Rubio na Semana Ascética de Valladolid em outubro de 1924. Diante das dificuldades que o P. Rubio tinha para aceitar o Amor Misericordioso, o P. Arintero respondia: ”A importância do Amor Misericordioso se fundamenta, não na origem, senão na boa doutrina e nos frutos”. De todos os modos, o P. Rubio escreveu uma carta a M. Desandais, pedindo esclarecimentos, e a resposta foi “A Obra do Amor Misericordioso”, texto publicado na revista “La Vida Sobrenatural” em 1926. Ao final, o P. Rubio foi um grande difusor do Amor Misericordioso em Madri.

No final de 1926, surgiram dificuldades na França entre o P. Duriaux e a Senhorita Blank devido a que Blank se deixava atrair demasiado pelo extraordinário e misturava textos da M. Desandais com outros textos. Por outra parte, no mesmo ano de 1926, as monjas visitandinas de Annecy fizeram público o projeto da construção de um novo templo em honra de seus fundadores, e os promotores do Amor Misericordioso, sob o impulso da Senhorita Blank, imprimiram folheto com frases do Padres Crawley e Duriaux junto com a benção do Papa Pio XI, anunciando a edificação de uma Basílica ao Amor Misericordioso do Coração de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria Medianeira, em Annecy.

O Santo Ofício fez notar a começos de 1927 a imprudência de colocar uma benção papel em uma devoção ainda não aprovada pela Igreja. As conseqüências na França destes fatos obrigaram o P. Duriaux a comunicar ao P. Arintero em 11 de janeiro de 1928, que era preciso que ele se encarregasse da direção do Amor Misericordioso e da direção espiritual da M. Desandais excluindo a Senhorita Blank.

Esse fato foi a segunda confusão na Obra do Amor Misericordioso. O P. Arintero, terminada a polêmica sobre a mística na Espanha, se dedicou principalmente ao Amor Misericordioso. Em 17 de julho de 1926, escreve a respeito: “Compreendo que o quanto me resta de vida devo consagrar-me totalmente ao Amor Misericordioso”. E dada a crise da Obra na França de 1927, foi ele que levou adiante a Obra do Amor Misericordioso em comunhão com a M. Desandais.

Ambos estavam de acordo com que se deveria proceder com muita prudência e total fidelidade as mensagens. Não se tratava de conseguir a aprovação da Obra, dado que não era uma realidade nova, se trata ao invés de solicitar a benção papal para o Quadro do Amor Misericordioso, como passo prévio a uma Encíclica e a instituição da própria festa litúrgica.

O P. Arintero uniu a Obra do Amor Misericordioso com a revista “La Vida Sobrenatural”, mas sem considerar a Ordem Dominicana proprietária da Obra. A M. Desandais pintou um grande Quadro do Amor Misericordioso que se colocou na Basília de Atocha, Madri, em 30 de outubro de 1927; a Basílica de Madri de Atocha se converteria no centro principal da Obra na Espanha.

Depois do P. Arintero, falecido em 20 de fevereiro de 1928, em Salamanca, o P. Ignacio Menéndez Reigada continuou com entusiasmo com a revista “La Vida Sobrenatural”, com a Obra do Amor Misericordioso e com a direção espiritual da M. Desandais, enquanto o P. Buenaventura García de Paredes fazia de advogado da Obra em Roma, a título pessoal, sendo recebido em audiência pelo Papa Pio XI, em agosto e setembro de 1929.

Quarto quadro: a M. Esperança de Jesus e o Amor Misericordioso

Beata Esperança de Jesus. Fundadora das Servas e dos Filhos do Amor Misericordioso. Beatificada em 31 de maio de 2014

A M. Esperança de Jesus (1893-1983) começa seu Diário Espiritual, por indicação de seu Diretor Espiritual, o P. Antonio Naval, claretiano, em 30 de outubro de 1927, dia em que foi colocado o Quadro do Amor Misericordioso na Basílica de Atocha com estas palavras: “No ano de 1927, sendo religiosa da Congregação de Maria Imaculada, em 20 de outubro,  o Bom Jesus me pediu que me entregasse a trabalhar total e fortemente com o P. Arintero, religioso dominicano, em ordem a fazer conhecer a devoção ao Amor Misericordioso; eu trabalhava já desde algum tempo com esse Padre, com o mandado de meu Pai espiritual de que ninguém soubesse que eu estava unida a esta Padre em dito trabalho, inclusive meus superiores; e o mesmo desejo expôs o P. Naval ao P. Arintero de que ninguém soubesse que eu colaborava com ele neste trabalho”.

Não se sabe quando começou esta colaboração da M. Esperança de Jesus com o P. Arintero; tampouco se conhecem detalhes concretos sobre a forma em que se desenvolveu esta colaboração entre a M. Esperança e o P. Arintero antes de 1927, nem tampouco nos cinco meses seguintes a esta data chave, até a morte do P. Arintero em 20 de fevereiro de 1928.

Mas de suas iluminadoras palavras se deduzem diversas conseqüências evidentes: a) A M. Esperança colaborava já com o P. Arintero nas atividades pelo Amor Misericordioso antes de outubro de 1927; b) Desde esta data se entregou plenamente a trabalhar com citado Padre para fazer conhecer o Amor Misericordioso; c) Esta decisão a tomou por obediência aos mandatos recebidos do Senhor; d) Que sua plena entrega a esta missão se devia manter em total reserva de modo que não o percebessem nem sequer os superiores da Congregação a que então pertencia a M. Esperança; e) Que o próprio P. Antonio Naval, Diretor espiritual da M. Esperança, expôs ao P. Arintero a necessidade de manter em reserva total sobre a colaboração entre ambos na missão comum.

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Escultura do Amor Misericordioso, que a Beata Esperança de Jesus mandou esculpir, a pedido de Nosso Senhor e atualmente se venera no Santuário do Amor Misericordioso, em Collevalenza

O que se sabe é que a M. Esperança de Jesus fundou em 1930 em Madri o Instituto das Servas do Amor Misericordioso, depois de ter colaborado por algum tempo com o P. Arintero na Obra. Ademais, é evidente que no Santuário de Collevalenza se venera, as imagens de Cristo Amor Misericordioso e da Santíssima Virgem Maria Medianeira, ambas com a mesma simbologia usada nos tempo do P. Arintero, como expressão iconográfica da idêntica doutrina teológica por ele ensinada e propagada. A propósito disso sabe-se que no mês de dezembro de 1930, poucos meses depois da fundação do Instituto, quando a M. Esperança pediu ao Senhor se a simbologia da escultura do Amor Misericordioso devia ser aquela que ela conhecia, a resposta foi positiva.

Com a perspectiva histórica que hoje tempos, é possível compreender um pouco os misteriosos caminhos que recorre a Providência divina para chegar a realidade maravilhosa que hoje conhecemos e com alegria admiramos. Os caminhos que segue o Senhor normalmente não coincidem com aqueles que preferem os homens. Ele  costuma escrever reto por linhas tortas. Efetivamente, depois da morte do P. Arintero, seu sucessor na revista “La Vida Sobrenatural”, o P. Ignacio Menéndez Reigada, seguiu com entusiasmo o caminho iniciado pelo P. Arintero.

Mas ao diretor da revista que seguiu o P. Ignacio, o P. Sabino Lozano, em 1933, por diversos motivos, faltou o entusiasmo e o empenho necessário na continuidade deste santo trabalho. Não esqueçamos que no convento dominicano de Salamanca havia tensão entre os frades espirituais e os frades intelectuais. Esta foi a terceira confusão na Obra. De todos os modos, esta mudança na direção da revista “La Vida Sobrenatural”, serviu para que o centro da Obra do Amor Misericordioso passasse de Salamanca ao Convento de Atocha em Madrid.

É o momento também de dar efusivas graças a Deus, pela vontade e a tenacidade louváveis da M. Esperança de Jesus na defesa do Amor Misericordioso e de seu Instituto das Servas do Amor Misericordioso antes de alcançar sua provação canônica em Roma. Como sempre Deus prepara as coisas, de tal modo que, chegado o momento, entra em ação definitivamente o instrumento humano que foi chamado a levar adiante a Obra de maneira definitiva.

Essa é a memória que a M. Esperança conservava do P. Arintero poucos anos antes da morte dela: “Ó, o P. Arintero! Era um homem muito tenaz, fervoroso, defensor de grandes obras. O P. Arintero. O P. Arintero. Um grande Apóstolo!”.

Em 05 de abril de 1941, o Vigário Capitular de Havana, Manuel Arteaga, recebeu esta resposta do Santo Ofício: “Na reunião de 02 de abril, depois de ter examinado a questão com grande cuidado, decretou-se: cumpra-se o decidido em 05 de maio de 1937 sobre as novas devoções, a saber, negativamente”. O P. Aniceto Fernández escreveu em março de 1942 ao P. Sabino Lozano: “A intenção do Santo Ofício não foi condenar a devoção ao Amor Misericordioso em si mesma, senão alguma forma abusiva de tal devoção”.

Em 01 de janeiro de 1943, a M. Maria Teresa Desandais, obrigada a permanecer de cama desde o começo de dezembro de 1942, faleceu com fama de santidade no mosteiro de Vouvant, (Vendéia) para onde sua comunidade tinha se mudado depois do bombardeio de Dreux. A revista “La Vida Sobrenatural” se limitou a reproduzir a nota necrológica de sua comunidade, acrescentando: “Maria Teresa Desandais e P. M. Sulamitis, assim conhecida por nossos leitores, são a mesma pessoa. Deus lhe conceda do descanso eterno”.

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Santa Maria Faustina, canonizada em 30 de abril de 2000.

.Na mesma linha providencial se compreende porque em 22 de fevereiro de 1931, a religiosa polonesa Faustina Kowalska (1905-1938) por impulso sobrenatural, no mesmo espírito da M. Teresa Desandais e da M. Esperança de Jesus, começou seu apostolado da Divina Misericórdia, preparando um quadro da Divina Misericórdia e solicitando uma festa litúrgica da Divina Misericórdia[2]. Kowalska tinha lido S. Teresa do Menino Jesus e a Irmã Benigna Consolata. A propósito desta devoção da Divina Misericórdia, o Santo Ofício tinha determinado: “Se deve proibir a difusão das imagens e dos escritos que apresentam a devoção da divina misericórdia na forma proposta pela Irmã Faustina” (III-1959)[3].O demais desta história estupenda já é conhecido.

Conferência pronunciada no Convento da Minerva, Roma, no dia 28 de abril de 2016.

Disponível: http://www.op.org/es/content/el-p-arintero-y-la-obra-del-amor-misericordioso-en-el-jubileo-de-la-misericordia-0

 


[1] NdT. Utilizamos o titulo com qual foi traduzido e publicado em Portugal em 1929 com o nome “CENTELHAS – O DOM DE DEUS OU SEGREDOS DE AMOR DIVINA”.

[2] NdT. Em 05 de maio de 2000 a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos,  proclamou o Segundo Domingo da Páscoa também como Domingo da Divina Misericórdia.

[3] NdT. Em 15 de abril de 1978, a Congregação para a Doutrina da Fé, emitiu uma Notificação, onde declara que as proibições contidas nesta “Notificação” de 1959 não mais vinculantes.