Breve perfil biográfico da

MADRE TERESA MARIA ORTEGA PARDO, O.P.

(1917-1972)

D.BALDOMERO JIMÉNEZ-DUQUE

 

Desde um povoado castelhano

Em Olmedo (Valladolid) há um Convento dominicano, o da “Mãe de Deus”. Foi fundado faz quatro séculos. Um convento mais entre as centenas de Mosteiros de vida contemplativa que enchiam a Espanha. Silenciosos, recolhidos, sem especial vibração sob nenhum aspecto. Encerrando muita virtude e… facilmente até a mediocridade humana ao mesmo tempo. Nunca este Mosteiro tinha chamado atenção por nada: nem por sua arte, nem por alguma vida santa que irradiasse para fora, nem por nenhuma especialidade. Era um desconhecido; um de tantos.

Contudo, em 1972, uma mulher dinâmica e santa morreu ali, cuja liderança foi instrumental para que este mosteiro florescesse. Ela atrairia muitas vocações a este mosteiro, jovens em sua imensa maioria. Em poucos anos outras cinco fundações sairiam deste Mosteiro, seguidas por quatro mais; para que esta velha e pobre casa tenha se convertido em uma fogueira de vitalidade espiritual, de profundidade contemplativa, de estrita observância claustral, de vivíssimo sentido eclesial e, portanto, apostólico e missionário, de intensa vida litúrgica cultivada e experimentada, um centro de trabalho, de austeridade, de silêncio… Um Mosteiro onde se respira paz e alegria, onde a unidade de tantas monjas se palpa com as mãos, fruto tudo isso da caridade, do amor. Se explica a afluência de vocações, precisamente nesta hora de crise vocacional, de crise pela que atravessa esta vida religiosa de oração e de contemplação, nesta hora de crise de fé.

Pois bem, nas fundações deste fato, deste movimento, nos encontramos com o nome e com a vida de uma mulher, da Madre Teresa Maria de Jesus Ortega Pardo. Queria conseguir esboçar – coisa muito difícil! – o perfil espiritual da mesma. É para mim (D. Baldomero Jiménez-Duque, autor deste perfil espiritual) uma suave obrigação, já que meu encontro com Madre Teresa ao longo de sua vida o fez um dever incontornável.

Resumo de sua vida

Nasce em Puente-Caldelas (Pontevedra), onde seu pai, José María Ortega Ijazo era Chefe de Serviços de Telégrafos. Ali tinha se casado com Manuela Pardo. O casal teve três filhos: Teresa, Encarnanción e Gregorio. Ela nasceu na noite de 25 de dezembro de 1917, era uma noite de paz e de alegria, noite de Natal. Em 1926, seu pai foi destinado a Teruel, de onde era originário e vivia sua família; e onde em 1927 morre sua esposa. Teresinha manifestou intensamente o impacto que acontecimento fez na sua alma; a vida toda se ressentiu do mesmo. Desde então se preocupou dos órfãos uma irmã solteira do pai, a “tia Encarna”.

O ambiente familiar era profundamente religioso e economicamente de uma boa condição. Os primeiros estudos fiz com seu professor em casa e logo no colégio das Terciárias Franciscanas até 1935, em que começa o ensino médio no colégio da Instituição Teresiana.

Nos anos de sua adolescência (14 ou 15 anos) sentiu um pouco o chamado do mundo. Era muito graciosa, simpática, alegre, hábil para tudo (estudo, música, trabalho…). Mas o clima familiar, e seus trabalhos iniciais na Ação Católica, salvaram a situação sem problemas. Uma grande influência exerceu nela durante estes anos: Dolores Alber, célebre propagandista da Ação Católica de Teruel e o Padre Manuel Hinojosa, santo sacerdote, mártir em 1937, que a dirigiu espiritualmente e cujo venerado recordo ela guardou sempre.

6A guerra de 1936 encontra a família em Teruel; e a tomada da cidade pelos comunistas no início de 1938 teve como consequência a prisão de todos os que a formavam. Primeiro foram levados a Segorbe e depois a Valência, sendo libertada logo Teresa, que foi acolhida por uma família de Teruel em Valência, como empregada. Ao terminar a guerra, segue seus estudos do ensino médio em Valência (1940-1941) nas Teresianas, para começar a Universidade (novembro de 1941) os cursos de Filosofia e Letras. Como a família se muda para Zaragoza, ali continua seus estudos universitários. Exame final em setembro de 1945. Licenciatura em 13 de maio de 1946.

Ao longo de seus anos de estudo, Teresa exerce cada vez mais grande influência entre suas amizades, companheiros de estudos e até professores. E trabalha mais e mais na então florescente Ação Católica. Em 1946 é nomeada responsável da propaganda da juventude feminina de Zaragoza: organiza a escola de formação com cursos vibrantes que ela mesma dirige, planifica a diocese para os efeitos da propaganda e se lança (e lança a suas propagandistas) por todas as partes.

Até 1955, Teresa será apóstola de ação incansável e ardente. Não somente na diocese de Zaragoza, senão por muitas outras partes da Espanha, aonde ia sendo conhecida e chamada: Palência, Peñafiel, Aranda, Burgo de Osma, Ávila, Alcoy, Onteniente, Algemesí, Carcagente, terras de Cidade Rodrigo, etc. Taçar o itinerário de suas andanças apostólicas é muito difícil e talvez nunca poderá se fazer por completo.

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Ao centro, Teresa, como propagandista da Ação Católica

Em 1947, fez uns exercícios espiritais em Teruel dirigidos por D. Baldomero Jiménez-Duque. Isso foi ocasião de ir depois várias vezes a Ávila para consultar a D. Baldomero e assistir as semanas teresiano-sanjuanistas que ali todos os verões se celebravam, e para propagandas da Ação Católica. Também para que em 1951, Teresa se mudasse para Olmedo (então da diocese de Ávila) a fim de formar ali um grupo de jovens que vitalizassem o ambiente cristão de tal povoado. Aqui permanece um longo ano (o pretexto, de momento, foi dar aulas como licenciada no colégio que ali havia). Vive pobríssima em uma casa de uns pastores: José Gonzalez e Sagrario de la Rosa, e irradia fé e amor em muitas moças (e em outras pessoas) tanto de Olmedo como dos povoados em torno.

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Venerável Madre Teresita do Menino Jesus Pérez de Iriarte, O.P. (1904-1954)

Sua estadia em Olmedo foi ocasião para que Teresa conhecesse e se relacionasse com o Mosteiro dominicano da Mãe de Deus, necessitado de pessoal, de renovação, de ajudas de todo tipo. De acordo com o Bispo de Ávila, o Arcebispo de Zaragoza e as monjas, consegue que se transladem para Olmedo três religiosas do convento de dominicanas de Daroca.  Uma destas foi a Madre Teresita Iriarte, enviada como priora, monja santa com espírito extraordinário de abnegação e sacrifício; isso ocorreu em 1953. Ao mesmo tempo, Teresa orientava para o Mãe de Deus de Olmedo algumas das jovens a que formava e que sentiam atração pela vida contemplativa. Mas o plano parecia desabar ao morrer santamente, em 14 de outubro de 1954, a Madre Teresita.

Entretanto, Teresa também desejava a vida do claustro. Sua vocação, até então de “canto rodado de Deus” [1] se transformava em vocação contemplativa. Em sua atividade de propagandista da Ação Católica surgiram mal-entendidos, chamadas de atenção, dificuldades humanas por parte dos dirigentes dessa. Parecia que exigia demasiado, que não orientava as jovens no verdadeiro espírito laical da obra, etc. Foi, por muitos, incompreendida.

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Serva de Deus Madre Cristina da Cruz de Arteaga y Falguera (1902-1984), Priora do Mosteiro Jerônimo de Sevilla, e artífice do renascer de sua Ordem, em seu ramo feminino.

Mas principalmente era a chamada misteriosa de Deus que ela sentia, e quis responder com generosidade a mesma. Teresa entrava em 08 de dezembro de 1955 no Mosteiro Jerônimo de Santa Paula de Sevilha para melhor viver a obediência. Toma o hábito em 08 de junho de 1956; e professa em 09 de junho de 1957.

Mas em Olmedo aquelas noviças que ela tinha enviado (e outras que seguiram depois) ficavam sem as monjas de Daroca (ao morrer a Madre Teresita, as outras duas voltaram para seu convento) e em situação precária e difícil. As chamadas à Sevilha se multiplicam. Ela aconselhava como podia desde ali; até que pareceu claro ser vontade de Deus a mudança de Teresa à Olmedo para salvar aquela comunidade tão necessitada. Com as permissões pertinentes, Teresa tomava o hábito dominicano em Olmedo em 22 de outubro de 1957. Uma nova etapa, uma nova aventura.

A situação era difícil. A Irmã Teresa Maria não era oficialmente ninguém. E a formação, observância, ordem, espírito… daquela casa não podiam melhorar. Mas uma oportuna visita canônica, com sua correspondente mudança de cargos, saneou o ambiente. Irmã Teresa “mais com sua postura e exemplo que com suas palavras” foi exercendo uma influência benéfica e elevando a espiritualidade do Mosteiro. Os sofrimentos, contudo, que ela tomou para si podem se imaginar.

Uma nova mudança de cenário aconteceria em 1959. Recém começadas as Federações de mosteiros dominicanos, pedia-se ao de Olmedo um reforço para ajudar a Belmonte (Cuenca). Irmã Teresa Maria, ainda professa simples, foi enviada à frente de outras quatro para isso. Gastando amor foi fazendo com o carinho de suas novas irmãs. E mais, conseguiu a mudança da comunidade para Olmedo, fazendo dos dois um; lhe pareceu mais simples e eficaz para reforma que de outra maneira. Mas podem se calcular as dificuldades, as resistências, os trâmites, as permissões… e tudo isso tomou para si.  Em 20 de agosto de 1960 chegavam a Olmedo as monjas de Belmonte. E em 15 de setembro seguinte, Teresa fazia sua profissão solene.

Mosteiro “Mãe de Deus” de Olmedo, atualmente

Tudo se precipitou rapidamente: em 23 de dezembro desse ano (1960) era eleita Priora. Ela o seria até morrer. Agora podia dar toda sua medida para a elevação de sua comunidade, e em sua força de irradiação para fora da mesma. A tarefa era árdua; tinha que fundir três grupos de monjas, que embora mulheres consagradas, todas sinceramente, não deixavam de ser mulheres: o grupo anterior de Olmedo, o de Belmonte, e o das novas que tinham seguido aumentando o perfume da presença de Teresa. Foi um esforço gigante. Tudo se renovando, desapareceu o pequeno e imperfeito colégio de meninas externas; se implantou a liturgia solene (toda cantada, Matinas a meia-noite); se fizeram obras de melhoria do velho edifício; se fez um novo coro e conserto da igreja; se instalou o trabalho bem organizado e remunerado; e sobretudo, a força de conversações incessantes com a comunidade e de conversas particulares e de escritos a cada monjas, se foi forjando um grupo esplêndido de almas desejosas, uma comunidade vibrante, numerosa e adornada de virtudes.

Houve mais, logo se sentiu a necessidade de fundar novos Mosteiros. A afluência de vocações o exigia. Ao chamado dos Padres Dominicanos de Porto Rico (1961) respondeu Olmedo enviando um grupo de três religiosas, a que seguiram outros envios. Em 1966, era erigido canonicamente o Mosteiro de Bayamón. Mas teve que fazer outras mudanças e pode-se dizer que não ficou definitivamente assentado até depois da morte da Madre; ela o sustentou com suas cartas de fogo e seu alento poderoso.

Em 1971, surgiu a possibilidade de uma fundação em Angola. Foi o último grande sonho da Madre Teresa. Prepara com atenção especialíssima o grupo fundador, atende até os últimos detalhes, e vê partir, já enfermíssima, suas monjas na manhã de 06 de março de 1972 para Benguela. África seu último amor missionário eclesial.

Enfermíssima… porque não dissemos que desde menina o esteve. Cada vez mais delicada, cada vez pior. E aquele organismo debilitado teve que sofrer e resistir uma série de operações fortes, desgastantes: 1950, em Zaragoza; em 1952, Ávila, em precárias condições sanitárias, mas urgentemente; 1963 e 1966, em Saragoça; em 1968, 1969 e 1971 em Pamplona; e em 1972 em Navarra outra vez, para nela morrer. Pâncreas, fígado, vesícula, rim… tudo foi se deteriorando. E, contudo, esta mulher era uma fonte de energia: falava, escrevia, atendia a todos, orava, não perdia se possível uma Missa, e nunca uma Comunhão. A maioria dos que com ela tratavam de fora não podiam suspeitar que estava desfeita, com pruídos insuportáveis, que só pela força do amor e da generosidade se sustentava e atuava. Os últimos tempos teve de passar na cama longas temporadas, picada de injeções, soros, etc. Mas dali dirigindo, formando, escrevendo… como não lhe passasse nada. E levantando-se, isso sim, para a celebração da Eucaristia e para algumas partes do Ofício às vezes.

Em vida nos deixou muitos livros (em espanhol):

Historia de un Sí  – História de um Sim;

Lo que dijo Dios al volver – Que disse Deus ao voltar;

Sí a nuestros compromisos – Sim a nossos compromissos

Sí, Dios – Sim, Deus.

E centenas de cartas, de notas, de escritos ocasionais, de fitas gravadas…com fragmentos deste material imenso se publicaram depois de sua morte belos livros de pensamentos e doutrina como Trigo de su era (em Portugal, Seara de Trigo), Orando entre llamas, Asomadas de luz e outros.

Morreu em 20 de agosto de 1972 na clínica da Faculdade de Medicina da Universidade de Navarra, onde tinha sido operada já outras vezes à custa da caridade de suas famílias, e onde era a admiração de médicos, monjas e enfermeiras. Na operação não se pôde já fazer nada. Foram dias de muita dor e muito amor. De santo abandono:

O que queirais, o que queirais…

Ó, minha vontade, já não a tenho, creio ter passado a outra região distinta, a da vontade de Deus. É viver em um plano distinto, onde tudo se vê de outra maneira, em outra luz, com fora outra … antes era eu que julgava com minha vontade, tentando buscar sempre a de Deus. Agora é outra coisa…Começo a viver na Sua, como perdida e abandonada…Não sei se posso explicar mais...”

Tu crês que já estão limpos estes olhos para ver a Deus?”, perguntava em alguma ocasião. “Sim, Deus… Sim, Deus…” repetia em outras. A última palavra que se a ouviu murmurar várias vezes, como um sussurro, pouco antes de morrer foi: Contentíssima, contentíssima… Era a rubrica a todos eu viver entregue ao Amor.

ESPIRITUALIDADE

Sua Alma: Sua Espiritualidade

Madre Teresa foi uma personalidade de qualidades extraordinárias. Isto é algo indiscutível para todos aqueles que a conheceram e trataram. Muito inteligente, de uma agilidade mental facilíssima; por isso no diálogo e na discussão era dona imediatamente do campo. Sua vontade de fazer, lhe vinha da ascendência de força aragonesa. Mas sensibilíssima e delicada no fundo. Hábil para tudo: bordava primorosamente em ouro, compunha música, poetisa, etc.

Logo, sua vida foi atraída por Deus. E sua entrega foi total e para sempre. Com uma incondicionalidade que admirava e assustavas, às vezes, alguns. Sua psicologia e sua generosidade não podiam fazer de outra maneira. Nós que com a tratamos de perto e conhecemos a Santa Catarina de Sena por seus escritos e sua biografia, instintivamente as comparávamos enquanto ao espirito, enquanto ao estilo, Madre Teresa podia ter dito também: “Minha natureza é fogo!

Por isso, a muitas almas, arrastou entusiasmadas por seu caminho de cumes, a outras teve que lhe parecer excessivo. E há que reconhecer que enquanto ao ideal cristão em si mesmo não pode haver concessões. Há algo mais radical que o Evangelho? Enquanto a metodologia para levar a encarná-lo concretamente, existencialmente, é questão de pedagogia, de discrição, de prudência sobrenatural. Cada alma é uma alma, há diversidade de vocações, em momento espirituais, de graças divinas. A Madre Teresa lhe encantava a “fúria” de São João da Cruz.

 Sua vida espiritual podemos reduzi-la a estes cinco grandes temas chaves:

a) Deus, o Pai, Filho e Espírito Santo. Por citar algumas frases suas, aí vão as seguintes:

Deus… Deus… Deus… Sim, sim; te conheço… És o mesmo… Deus… Deus… me impressiona tua igualdade, tua calma, teu silêncio… És o mesmo. Não mudas em nada. És o enamorado, o incansável Enamorado. Cheguei a teu silêncio e me encontrei com os mesmos olhos de sempre, penetrantes e fortes… que rompem a vida ou a deixam quebrada a teus pés. Deus… Deus… que denso é teu silêncio, que forte, que misterioso… Está tudo muito calado porque estás calado Tu… E teu silêncio corta o ar. Ninguém se atreve a fazer ruído. Até o ar parece que se paralisou...”

Não compreendo, porque já vai me fazendo cego o amor…; não compreendo, não sei, não entendo nada. Deus… Deus… por que me amas? Não me digas; mas deixa-me que te perguntes muitas vezes… Não me digas… mas, por que me amas? É que não sabes o que fazer com teu amor?; ou é que a infinidade de tua misericórdia necessita da minha miséria? É que como o rico necessita do pobre para descongestionar suas arcas… Te necessitas de mim? É como o sábio que necessita do ignorante para despejar sua ciência, Tu te despejas sobre mim? Não, não…; é outra coisa mais funda, mais vital, mais Deus… Deus… É isso que não pode se dizer, nem se medir, nem se comprar. É Deus, apropriando-se da entranha do ser de sua criatura para fazê-la de alguma maneira Deus

.O Verbo Encarnado, Jesus Cristo. Toda sua paixão de amor por Ele se resume na história da imagem de Cristo Crucificado que, sob sua inspiração, executou o artista  J.L. Vicent para a igreja do Mosteiro. Ela queria um Cristo vivo, como o sonhava sua alma. A relação que ela deixou escrita de como ela via a seu Cristo, é um documento vivo:

 “’Meu viver é Cristo’ Meu viver, o que é igual a meu atuar, meu ser, meu pensar, meu pulsar é Cristo. Eu não tenho vida própria, melhor dito, tenho a vida mais própria que posso ter: Cristo é minha única propriedade, a alma de minha alma, a vida de minha vida, minha dimensão fundante, radical. Ele explica meu ser, o diviniza.  Cristo é a força, a alegria, a felicidade, o amor, a plenitude. Cristo minha esperança e minha posse”.

Seu encontro com Cristo, o viveu intensamente e de muitas maneiras: na Igreja, nos homens seus irmãos; na Escritura Santa, que manejou incessantemente e ensinou a manejar suas amigas e suas monjas; mas sobretudo o viveu na Eucaristia. Ela mesma nos deixou um escrito autobiográfico sobre as principais manifestações de seu amor eucarístico. Se intitula: Sua vida se abrasou na Eucaristia. Para ela foi o centro focal de sua vida. Missas e comunhões custasse o que custassem. Durante o assédio a Teruel, ela resgatou heroicamente o Santíssimo Sacramento da Igreja de São João. Durante as propagadas apostólicas, a Eucaristia não podia faltar, ainda que tivesse que fazer sacrifícios muito difíceis. Em 1950, Ano Santo, foi sua peregrinação a Roma (por suposto em terceira classe, por pobreza); e as peripécias da viagem para não perder sua comunhão diária foram de um conto de aventuras, ou melhor de providências divinas. Assim até morrer, seguir a Missa em sua habitação da clínica, e beber com avidez o Sangue precioso. E logo, seus momentos, horas, noites quase inteiras às vezes de Sacrário, como uma abelha em sua colmeia, em seu pulmão divino de aço para poder respirar a gosto…

b) Maria foi um descobrimento vivo ao viver em Jesus. Sobretudo já no Mosteiro foi um aprofundar nesse aspecto do mistério cristão abismalmente. Sobre Ela sua palavra falada e escrita se fez inesgotável.

Nossa Mãe foi para o mundo um sorriso de Deus; nós devemos ser uma prolongação desse inefável sorriso. Se sorrimos sempre, verão a Maria em nós”.

Mãe! Não quero tremer… não quero temer… não quero fugir de tuas vontades maternais sobre minha vida. Quero crer, quero aceitar, quero amar o plano de Deus e abraçar-me estreitamente com Ele. Mãe, fixa-me em Deus”.

“Diz-lhe à Mãe que te introduza para sempre na clausura de seu Coração. Ali, fechada para as coisas pequenas, te abrirás paras as eternas, absolutas, essas que enchem a vida plenamente”.

“Para uma maior humildade, para uma maior bondade, para uma maior suavidade…: um maior amor a Virgem. Ela e só Ela resolve tudo”.

“Mãe, quero ser até a entranha de minha alma apaixonada de teu amor e de tua alegria. Radical como Jesus e teu Evangelho. Mansa como as Bem-aventuranças e enamorada como fostes os dois”.

Seu amor a Maria ficou materializado na estátua da Virgem do Sim, que preside o jardim do Mosteiro, e na Viagenzinha da capela do mesmo, que tem suas mãos voltadas para o Cristo vivo no Sacrário.

c) E logo a Igreja. Sua robusta e sólida formação lhe permitiu penetrar no mistério do Cristo total (Ele, mais sua Igreja) de modo admirável. E essa visão e amor seus se fizeram vibração vital em seu Mosteiro. Todos os problemas da Igreja e do mundo acharam ali eco. Diante da grade do coro, um grande globo terrestre recorda as monjas que elas levam o mundo sobre suas costas: que suas vidas têm que se queimar a fogo lento pelas necessidades de todos os homens, pela glória de Deus. O Papa, a Ordem dos Pregadores, os sacerdotes, as missões, o ecumenismo, os problemas humanos todos… há que passá-los pelo coração, há que envolvê-los em oração, há que, silenciosa e amorosamente, vivê-los. Por citar um texto:

A Igreja está abrindo seus segredos às almas consagradas. Está contando-lhes a dor que lhe fere, os mistérios insondáveis que tem dentro de seu coração de Mãe universal… Se nas almas consagradas não encontra o eco de sua dor, a Igreja tremerá com mais doloroso de seus tremores. Abramos os olhos a este tremor da Igreja. Despertemos… sim, despertemos à realidade profunda deste mistério eclesial”.

Mosteiro de Taiwan

Dessa consciência eclesial, tão fortemente sentido por ela e contagiada à suas monjas, surgiram as fundações. E precisamente em países ou regiões onde não houvesse instituições dessa vida contemplativa pura, a fim de que essa dimensão essencial da Igreja estivesse ali presente. Por isso, as energias do Mosteiro se orientaram nesta direção, mais que em dispersar monjas para reforçar Mosteiro já existentes na Espanha, onde há muitos. Isso fez possível a fundação de dominicanas contemplativas em cinco dos sete continentes. Madre Teresa teve uma longa visão e missão e eclesial.

d) Contemplação. Foi seu elemento vital. E isso desde sempre. Aquela jovem que entusiasmava falando às vezes até centenas de soldados, não digamos a povoados, a moças, etc, aquela alma apostólicas, aquele “canto rodado” de Deus… encerrava uma contemplativa plena. Por isso, o sono pagava o tempo que levava na atividade apostólica exterior. Horas e horas de oração silenciosa pelas noites. Muito simples, muito amorosa, muito contemplativa.

Essa necessidade de contemplação a levou ao claustro. E ali se saciou, enquanto isso foi possível. Porque em Sevilha foi uma monja sem especiais responsabilidades: noviça exata, observante, obediente, trabalhadora, orante… Em Olmedo também, mas logo, o peso da casa gravitou sobre ela. E teve que orar, que atuar orando; mas deixando a salvo as horas de oração (ela implantou as duas horas de oração desde o começo de seu priorato). Durante sua enfermidade dolorosa, também passava noites de insônia, em extremo sofrimento, oferecendo tudo pela salvação das almas. A nostalgia do deserto espiritual a perseguiu sempre. Só em parte pode saborear do ar silencioso e caloroso do mesmo.

“Levarei a alma à solidão, e ali lhe farelei ao coração. Ali a meterei na rocha, na fenda da pedra, na cavidade misteriosa, onde de tanta luz só há trevas ao divino… Segredos insondáveis de amor”.

“Deixa-te introduzir na rocha sonhada… Deixa-te meter na região do silêncio e deixa-te envolver nos segredos insondáveis da solidão desértica, de morte e vida, de claridade obscura”.

e) Sua sensibilidade e abertura aos demais se concretizou também no afã de caridade, de unidade entre as irmãs do Mosteiro e dos Mosteiros “Mãe de Deus”. Foi uma constante na espiritualidade de Madre Teresa, mas acentuada em seus anos definitivos. Por ela, lutou incansavelmente. E foi um trabalho complicada: teve que fundir comunidades, monjas de mui distintas psicologias e procedências, manter a identidade do Mosteiro Fonte e dos Mosteiros derivados, tão distantes todos, mas unidos no entanto em mesmo espírito e em um mesmo sentir e pensar. Só uma mulher com sua qualidade e de sua têmpera pode com esse empreendimento. Só se consumindo ela no crisol que essa fusão de almas comportava.

Não todos podiam compreender seu esforço, seu heroísmo. Não todos podiam seguir seu passo forte e valente até o cume. Foi em ocasiões demasiado exigente? Se inclinou, às vezes, mais a uns e outros dos grupos, desses elementos heterogêneos que havia de forjar a fundo e depressa? Quem poderia medir e precisar todas e sempre tantas circunstancias? O que há que afirmar com segurança plena é sua retidão de intenção, sua sinceridade, sua caridade radical, seu morrer a si mesma. Ela fazia sua a frase de que o nada não merece mais que o esquecimento e a miséria o desprezo. Por outra parte, todos os santos têm limitações e defeitos, e Madre Teresa asseguro que foi uma santa; mas de grande tamanho, a que não é fácil medir com medidas correntes. Seu próprio temperamento, seu impulso, seus próprios desejos, não faziam fáceis de compreender, para alguns, certos gestos e atitudes necessárias em seu caso.

Seu Legado.

Uma santa profética, com missão especial na Ordem, na Igreja. Aí está desafiando a todos, sua obra: dez Mosteiros contemplativos, sem concessões as modas correntes de aberturas e suavizações, com todo rigor tradicional da clausura feminina, vivendo pobremente de seu trabalho manual, sem nenhum apostolado externo: Cheios de vida, de espírito, de nodas vocações.

Seu livro: Sim, aos nossos compromissos é toda uma mensagem vivido em seu Mosteiro.

Deus a escolheu para ser um grito em defesa da vida contemplativa pura e institucionalizada na Igreja, hoje tão ameaçada.

Uma vida de contemplação amorosa, calada, humilde, missionária, como a viveram e ensinaram as duas Teresas, de Ávila e de Lisieux, as que há que acrescentar a nova Teresa, presente de Deus à Ordem de São Domingos e de Santa Catarina de Sena.

“Quando se olha Deus face a face, um dia e outro dia, uma hora e outra hora, sem cansar-se, sem deixar de olhá-lo, sem perdê-lo de vista, os olhos ficam cheios d´Ele. A luz se mete pela vida e todo o ser se converte em uma transparência de Deus. Gaste muitas horas… gaste a vida inteira em olhá-lo, gaste os olhos até rompê-los, e quando o mundo te veja, saberá quem é o Deus dos cristãos, o Deus da VIDA, o Deus do AMOR”.

Madre Teresa María

[1] Chamou-se “Canto Rodado” a uma expressão do espírito que orienta e marca a vida de Teresa, lá por volta dos anos 1948, em diante, que para sempre foi como a marca de sua alma toda de Deus, em espírito de Igreja.

Ser um “Canto Rodado” vinha a ser como uma pedra de qualquer tamanho e categoria, dessas que rodam por qualquer caminho, e vão parar em qualquer ribanceira; as que se empurra com o pé e se as move do lugar, que nem sequer lhes pertencia; que rodam e seguem rodando facilmente movidas pelo próprio vento da estrada; que qualquer um pode tomar, para usá-la como convenha; precisamente porque não é de ninguém, para ser de todos… e porque “seu lugar é não ter lugar…”

 Estilo de vida, de espiritualidade profundamente evangélico; de total abandonado na Providência.


Tomado de uma breve síntese biográfica

de D. Baldomero Jiménez-Duque

sobre M. Teresa Maria Ortega, O.P. (1917-1972), 1981.

 Oração para pedir favores pela intercessão

da Serva de Deus Madre Teresa Maria de Jesus Ortega, O.P.

Senhor e Pai nosso, pela fervente devoção à Palavra revelada e ao mistério da Eucaristia que animou a tua Serva Madre Teresa Maria de Jesus, que irradiou sempre desde a clausura de seu Mosteiro Dominicano, atende as intenções (…) que te apresentamos por sua intercessão, e concede-nos ser, como ela, testemunhas alegres e apóstolos valentes de Jesus Cristo e de seu Evangelho, em comunhão universal com a Igreja. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém

Virgem do Sim, dai-nos tua fidelidade. Mãe da Unidade, faz que sejamos UM.

Com aprovação Eclesiástica

(para uso privado)

http://madreteresamariaortega.info/


Atualmente a, União de Mosteiros “Mãe de Deus”, de monjas dominicanas, está constituída pelos seguintes Mosteiros:

  1. Mosteiro “Madre de Dios” – Olmedo, Valladolid, Espanha.
  2. Mosteiro “Madre de Dios” – Manati, Porto Rico
  3. Mosteiro “Mãe de Deus” – Benguela, Angola, África
  4. Mosteiro “Madre de Dios” – Scherpenheuvel, Curaçao, Antilhas Holandelas.
  5. Mosterio “Mother of God” -Wanchin Tsun, Taiwan.
  6. Mosteiro “Madre de Dios” – Santiago del Estero, Añatuya, Argentina.
  7. Mosteiro “Santa Catalina” – Santorini, Grécia.
  8. Mosteiro “Mère de Dieu” – Toumi, Bamendjou, Camarões.
  9. Mosteiro “Madre de Dios” – Seul, Coréia.
  10. Mosteiro “Mãe de Deus” – Kuito Bie, Angola, África