HISTÓRIA DE UM ENCONTRO:

FUNDAÇÃO DO MOSTEIRO DO SAGRADO CORAÇÃO

(Artigo publicado na revista Vida Sobrenatural 105 (2004) 196-205, 282-290.)

 

 

Mosteiro do Sagrado Coração de Cantalapiedra

O Padre Arturo Alonso Lobo, em sua biografia do Padre Juan González Arintero, aponta os três grandes amores de dito Padre: o Amor Misericordioso, a revista Vida Sobrentatural e o Mosteiro de Cantalapiedra. E acrescenta: “É o Mosteiro do Sagrado Coração de Jesus de monjas Clarissas, uma das obras em que mais mão –e mais alma – pôs o Padre Arintero… Na sua biografia não podem faltar umas páginas, por breves que sejam, para ressaltar esta obra. Resultaria incompleta – mutilada – uma Vida arinteriana que não incluísse o capítulo de Cantalapiedra[1].

E, certamente, é assim, pois quando Deus, em sua Providência, pensou na fundação deste Mosteiro, dispões de antemão quais haviam de ser os instrumentos idôneos para isso, escolhendo, junto a D. Ambrosio Morales, pároco de Cantalapiedra, a  Madre Maria Amparo do Sagrado Coração e do Padre Juan González Arintero. Das estreitas relações destas duas grandes almas vamos tratar em seguida.

Os antecedentes de seu encontro remontam a 15 de agosto de 1912, solenidade da Assunção de Maria. Encontrava-se então Maria Amparo em sua casa de Cantalapiedra, enferma de corpo e angustiada de alma, submersa em uma noite escura que a fazia temer, inclusive, por sua própria salvação. Enquanto rogava a Virgem Maria, no segredo de sua habitação, a graça de amar a Deus quanto lhe fosse possível nesta vida, já que não o haveria de poder amá-lo durante a eternidade, caiu em êxtase por espaço de uma seis horas sentindo uma grande paz interior, um fogo abrasador que inundava sua alma deixando-a tão clara que via resplandecer nela o próprio Deus Uno e Trino. Foi seu desposório místico. Quando voltou a si, transbordante de gozo e aniquilada por tal experiência, rogou ao Senhor lhe concedesse um ministro seu que lhe assegurasse a veracidade destas coisas. A resposta divina, sentida no fundo de sua alma, lhe anunciava que um santo dominicano, de nome Juan, haveria de ser o diretor de sua alma, foi o primeiro encontro, sem encontrar-se, sem conhecer-se, mas uma pequena luz havia começada a brilhas já na alma de Maria Amparo.

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Padre Arintero

Fiel a vontade de Deus que lhe apontava o Mosteiro do Corpus Christi de Salamanca, de Monjas Clarissas, como lugar de sua consagração, ali ingressou em 19 de maio de 1913. O Padre Arintero costumava visitar, com relativa freqüência, esse e outros mosteiros de monjas de Salamanca. A primeira vez que Irmã Maria Amparo o viu foi no dia seguinte a sua Tomada de Hábito, em 20 de novembro de 1913.

Em sua Autobiografia aponta como “apenas o vi no locutório, compreendi que era o mesmo que Nosso Senhor me havia prometido. Senti uma impressão de devoção e recolhimento ao ouvir-lhe falar tão bem da união com Deus, que minha alma e meu coração se dilatavam de gozo ao ver a providência tão especial que tinha o Senhor de minha alma. Eu estava absorta considerando a graça de Deus e como não havia sido sonho tudo o passado, senão muita realidade. Me pareceu ver como a Virgem Santíssima, olhando-o com singular complacência, se inclinava para ele como se quisesse, ao entregá-lo a minha alma, infundir-lhe com seu alento toda a ternura de seu coração de Mãe. E mais que de Mãe foi o carinho que este bom Padre teve por minha alma[2].

Mas se há algo realmente lindo e que reflete com exatidão o que o Padre Arintero foi para a Madre Maria Amparo, são os seguintes parágrafos de sua Autobiografia, escrita precisamente a mandato de dito Padre, apesar de que ele não chegou a desfrutar de sua leitura por já ter falecido.

Entre as grandes graças que recebi durante minha vida da misericórdia de Deus, tenho que contar a que me concedeu com a santa e iluminada direção de meu santo Padre Arintero. O que este amado Padre de minha alma foi para mim nos quinze anos que tive a felicidade de estar sob sua direção, só Deus sabe, e, portanto, com quanta gratidão e afeto e segurança o obedeci.

Desde que tive a felicidade de falar com ele, senti por ele o mais profundo respeito, a maior confiança e uma gratidão que não conhecia limites.

Foi sempre para mim como o anjo de Deus que com seus conselhos e doutrina me ajudava a cumprir a divina vontade. Guiada por este santo Padre senti tal segurança em obedecê-lo que, mesmo sendo outra a opinião de pessoas muito respeitáveis, nunca vacilei em fazer o que o Padre me mandava e posso dizer que nunca tive que arrepender-me de tê-lo obedecido[3].

O importante deste encontro não foi só que Madre Maria Amparo encontrasse um santo diretor para sua alma, que soubesse confortá-la e guiá-la adequadamente, em conformidade com o que exigiam sua intensa vida espiritual e as graças extraordinárias que Deus lhe outorgava, senão que o Padre Arintero estava predestinado por Deus para ajudar a jovem Clarissa na fundação de um novo mosteiro no povoado de Cantalapiedra.

Com efeito, Maria Amparo, desde sua infância, vinha recebendo do Senhor distinta luzes sobre a fundação de um mosteiro no seu povoado de Cantalapiedra. Isto que, em princípio, lhe resultava incompreensível, com o passar dos anos foi se esclarecendo cada vez mais. Não obstante, quem podia confirmar-lhe estas revelações ou despertá-la de seu sono? E aqui entre em jogo o santo discernimento do Padre Arintero, a quem, longe de lhe parecer um iluso projeto, reafirmou a vontade de Deus sobre ele:

“... Um dia – aponta Madre Maria Amparo – me vi necessitada de indicar algo [ao Padre Arintero] sobre o que me parecia ser a vontade de Deus com respeito a esta fundação; e, então, como se tivesse desfeito o enigma, viu claro os caminhos por onde Deus me conduzia, e já não pensou senão que me dispusesse para um próximo futuro que ele parecia abarcar muito bem… Minha admiração foi muito grande quando vi que o Padre, longe de escandalizar-se pela fundação, lhe parecia coisa muito possível que Deus quisesse fazê-la; e não somente lhe pareceu possível senão que o tinha por coisa muito segura. Tantas lágrimas como me havia custado sendo menina quando sem saber interpretar a vontade de Deus nem suas luzes, me acreditava obrigada a fazer o que me parece totalmente impossível! E o medo que eu tinha de indicá-lo ao Padre crendo que o receberia como loucura![4].

E em outro lugar ratifica: “Devemos também a este bendito Padre o ter-se levado a cabo essa fundação, pois sem sua eficaz cooperação, dada minha maneira de ser e o estado de meu espírito naqueles anos, outro que não tivesse sido o Padre Arintero dificilmente me teria sustentado entre tantas tempestades como se desencadearam contra mim pessoalmente e contra a obra da fundação. Mas guiada por este servo de Deus, me resolvi a ser toda da divina vontade a respeito do que Ele nos comunicara sobre a fundação desta Casa. E tão cegamente o obedeci em tudo, que nunca duvidei advertidamente do que me mandava, ainda quando muitas coisas pareciam inteiramente descabidas à pessoas muito competentes e muito dignas”[5].

Já estão estas duas almas grandes trabalhando para agradar a Deus com esta nova fundação. Mas, como é lógico, não resultava tão fácil, humanamente falando, levá-la a cabo. Os trâmites supuseram uma dura provação para ambos e fonte de profundas humilhações, sobretudo para o Padre Arintero, encarregado de realizar as gestões com o Sr. Bispo de Salamanca, na altura, Dom Julián de Diego y Alcolea.

Como testemunho de sua fé e de sua santidade, vamos recolher algumas anedotas ocorridas a propósito disso, testemunhos que comprovam sua simplicidade, humildade e até de bom senso de humor.

Conta a Madre Maria Amparo:

“Quando manifestei ao Padre Arintero o empenho com que o Padre Herrera [jesuíta] me havia dito que não se faria a fundação, me disse: ‘Não duvide, minha filha, que se fará.Tenho fama entre os nossos de ter cabeça dura, e agora me empenhei em agradar a Deus fazendo a fundação, e com sua ajuda se fará.

Muito mais que o que eu sofria, sentia as burlas, os desgostos e as moléstias que ocasionavam ao Padre. Mas como tinha grandíssima caridade, sempre que por necessidade tinha que comunicar-me alguma coisa desagradável que lhe diziam de mim ou da fundação, o fazia sorrindo e atenuando o desgosto de tal forma, que qualquer um diria que era um prazer para ele ver-se tido por louco. Era que para ele parecia uma crueldade fazer sofrer aos que já sofriam, e como minhas tribulações naquela época foram bem difíceis, fazia para suavizar o amargo cálice que ele mesmo em muitas ocasiões me acercou aos lábios para que consumisse com fortaleza até a última gota. Só a varonil e suave direção daquele bendito Padre pôde evitar muitos e mui graves males e perigos, que  teriam se seguido das borrascas que sem interrupção pairavam sobre minha alma. Porque tudo se levantou contra mim para aniquilar-me: penas na alma, desgostos grandíssimos exteriores, enfermidades muito graves, e às vezes, um abandono por parte das religiosas, mais difícil de suportar que a própria perseguição. Mas aquele meu Padre tinha um dom especial de Deus para infundir-me fortaleza e confiança na misericórdia de Deus, e para alimentar na minha alma os desejos de perfeição que reforçava e fazia frutificar com uma firmeza e suavidade admiráveis. Sempre o encontrei disposto para ajudar-me com seu apoio e conselho[6].

Com efeito, tudo era oposições: no Bispado, entre os sacerdotes e religiosos, na sua Comunidade do Corpus Christi, entre os vizinhos de Cantalapiedra, que desejavam religiosas de ensino e não monjas de clausura. Sem cerimônia alguma, muitos – e, em particular, o que resultava mais penoso, sacerdotes e religiosos – lhe diziam abertamente que a metade dos conventos de clausura estavam sobrando, para que fundar um novo? Para ser um a mais – afirmava o Sr. Bispo – já havia bastante. E, por suposto que havia, pois só na cidade haviam seis da Ordem Franciscana: três de Clarissas  (Corpus Christi, Santa Clara e Franciscanas Descalças) e três de Terciárias Regulares (Isabeles, Úrsulas e Mãe de Deus), além de outras ordens, aos que soman os disseminados em diversos povoados da província de Salamanca.

Contudo, o Padre Arintero, enquanto afirmava diante do Sr. Bispo que não ia ser “um convento a mais”, animava a jovem Clarissa a não temer e a se alegrar no Senhor, pois “se não sofrêssemos muitos trabalhos e humilhações, mal poderia se levantar a casa em grande santidade; alegre-se, minha filha, por todo o penoso que Deus nos manda, que não pode haver melhor sinal de que Ele está contente e de que isso marcha… Hoje me disseram os Padres:

Padre Arintero, se meteis a fundador, mas já verás. Terás que carregar as monjas e o Convento.

– Não vos preocupais, que eu carregarei o que seja.

– Já verás depois que música – diziam os Padres.

– Para Vós o acompanhamento, eu, como estou surdo, não ouço.

– Essa fundação não durará senão o que dure a Madre, depois de desfaz o Padre Arintero.

– Nisso estou também, quando morrer a Madre, morrerão todas e já não faz falta fundação[7]

Em outra ocasião é o próprio Sr. Bispo – que como acabamos de ver não estava bem predisposto para a fundação – o que lhe intima, fortemente desgostoso:

– Padre Arintero, vejamos, com que elementos vamos fazer a fundação.

– Com os que temos, Sr. Bispo – respondeu o Padre – Irmã Amparo, a conversa e a noviça.

– Com Irmã Amparo – contestou o Sr. Bispo quase furioso – não temos mais que meia monja enferma. Ademais, é demasiado jovem.

– Desse defeito eu respondo – disse o Padre – que há de se corrigir cada dia.

-Mas, se essa não serve para o caso! Tem que passar o maior tempo na cama. A não ser – acrescentou o Sr. Bispo – que Vós a credes uma Santa Teresa, que neste caso…

– Quando Santa Teresa tinha a idade da Irmã Amparo andava mais distraída que ela; quando tenha a idade de Santa Teresa, não sabemos o que será, porque a mão de Deus não se abreviou. E quanto as suas enfermidades, já vejo que está mal, mas confio que o Senhor lhe dará forças para que enferma e tudo possa realizar a obra[8].

Por fim, o Sr. Bispo decidiu pedir a Roma as licenças para a fundação e, pese aos maus augúrios que prediziam uma rotunda negativa, o rescrito da Santa Sé chegava a Salamanca a começos de janeiro do ano de 1920.

Deixemos novamente a palavra à Madre Maria Amparo, para que seja ela mesma que nos narre a emoção desse momento:

O Senhor Bispo tinha me dito nos últimos dias de setembro (do ano de 1919), que se pediriam as licenças em seguida, mas não devia ser tão pronto, porque não estiveram até a oitava da Epifania (do ano 20). Ao Padre Arintero lhe comunicaram a notícia no dia 17 do mesmo mês, e imediatamente foi ao Convento para dizê-lo a mim. Levava um envelope não mão e me disse visivelmente emocionado:

– Vamos ver, minha filha, se sabes o que trago aqui.

-… Não, Padre, não sei.

–  Olhe para ver se acerta.

– Não, Padre, não acerto.

-… As licenças, minha filha, as licenças para a fundação! Concedido tudo como se pedia!…

Eu não senti a menor impressão de alegria, parecia que aquilo não era comigo. Coisa mais estranha! O Padre sim se mostrava muito contente. “Vamos rezar o santo Rosário e o Te Deum em ação de graças, minha filha – me disse o Padre – mas avisa-me quando tenhamos rezado as dez Ave Marias, porque costumo equivocar-me e rezo de mais ou de menos”. Rezamos o Te Deum e depois o Santo Rosário. Quando rezamos as dez Ave Marias lhe avisei: “Padre, já está”. Mas o Padre continuava rezando, sem ouvir-me, tantas vezes quantes lhe avisei. Em um mistério rezamos quinze Ave Marias, em outro catorze, em outro doze, e assim terminamos. Depois tratamos da compra da casa, para o Padre vir  a determinar a obra necessária para convertê-la em convento[9].

Sim, porque o Padre Arintero não foi somente o encarregado de conseguir a permissão do Senhor Bispo, de endossar a futura fundação e de animar a Irmã Maria Amparo, senão que seguiu de perto a compra da casa onde haveria de começar a fundação, distribuiu os quartos, recorreu os Conventos de Clarissas e Terciárias Franciscanas de Salamanca pedindo hábitos, breviários, missais…; tudo aquilo que, em caridade pudessem dar-lhe para suas “monjas”, pois careciam absolutamente de tudo, só possuíam o grande desejo de cumprir a vontade de Deus fosse o que fosse.

E, assim, apesar das contrariedades e dificuldades que pareciam surgir por todas as partes, triunfou o desígnio de Deus, bem forjado pela fidelidade de duas almas santas.

Madre Maria Amparo

Em 31 de maio de 1920, partiam para Cantalapiedra Madre Maria Amparo do Sagrado Coração, como abadessa do novo Mosteiro, Irmã Maria Patrocínio de São Francisco e a noviça Irmã Maria Francisca de Jesus, a quem se uniu a primeira postulante, Magdalena Martín, admitida pelo Padre Arintero, que ao vestir o hábito franciscano, receberia o nome de Irmã Conceição do Menino Jesus. D. Ambrosio Morales, pároco de Cantalapiedra, e dito Padre, acompanharam a pequena Comunidade de Salamanca até seu novo Mosteiro. Fé grande a desse pequeno grupo, e a de seus promotores, nas palavras do Sagrado Coração a Maria Amparo: “Não fazes tu a fundação, senão Eu; não é obra de criaturas, senão Minha[10].

O Mosteiro do Sagrado Coração já estava fundado. O Padre Arintero seguiu cuidando com sumo carinho da Comunidade, tanto na atenção espiritual de Madre e filhas, como das necessidades materiais. Assim mesmo, não deixou de enviar alguma boa vocação, precisamente as duas que haviam de suceder no cargo de abadessa da Comunidade a Madre Maria Amparo: Madre Maria Ana da Imaculada – que faleceu antes de cumprir dois anos de governo – e a Madre Maria de Jesus Amor Misericordioso – que o desempenhou com grande proveito do Mosteiro e Comunidade durante vinte e oito anos consecutivos. Não é estranho, pois, que em uma ocasião uma monja dominicana o repreendera fraternalmente: “Parece mentira, Padre, que Vós queiras mais às monjas de Cantalapiedra, que não são de nossa Ordem, que a nós. Ali mandais vocações e aqui não manda nenhuma”. Ao que ele contestou: “Sempre se quer mais às filhas que as irmãs…[11].  Deste modo, meio rindo, meio sério, se resolveu o assunto.

Um aspecto digno de consideração é, efetivamente, como o Padre Arintero, sendo dominicano, soube respeitar e favorecer, sem interferências, uma fundação de Clarissas. Nem por um instante se lhe ocorreu sugerir a Irmã Maria Amparo realizar uma fundação de Dominicanas, e em seus muitos conselhos, exortações e conversas jamais desviou a nascente Comunidade do espírito franciscano que devia reinar nela. Isso não obsta que a falta de conhecimento gerasse críticas a respeito: Clarissas fundadas por um dominicano? Sim, Clarissas, porque apesar de não haver intervindo a Primeira Ordem Franciscana na fundação, apesar de não existir canais de relação e conhecimento entre os frades e as monjas – e mesmo as monjas entre si – apesar de certo desconhecimento que existia do genuíno franciscano entre as próprias Clarissas, a nascente fundação se estabeleceu nele, não por mérito próprio, senão porque o Senhor a guiava através de sua santa Fundadora.

Recolhemos aqui o seguinte testemunho do Padre Pedro Zubero, franciscano:

A poucos anos de meu trato com ela, me encarregou os santos Exercícios… Apesar de nosso já longo trato com a Madre e nossa intimidade com seu confessor e capelão…. D. Ambrosio Morales, e dos testemunhos dados por suas próprias filhas, tínhamos nossas dúvidas e temores da obra da Madre Amparo; francamente tínhamos medo; havíamos ouvido dizer muitas vezes essas ou parecidas expressões: Convento de Clarissas fundado e dirigido por Padres Dominicanos, se nos dizia e não sem certa malícia por parte de muitos; a Madre é tudo, absorve tudo. A Madre leu no meu interior como outras muitas [vezes] me tinha passado e no quarto dia dos Exercícios… o primeiro que me advertiu foi: “Padre, lhe peço um favor, quero com toda liberdade que me advirta todos os defeitos de regime e de espírito franciscano que observe neste Convento”.

Mas não houve necessidade de fazer nenhuma advertência; a realidade se encarregou de dissipar minhas dúvidas e com íntima satisfação devo declarar que ali encontrei o Convento ideal, o melhor governado, o mais franciscano, com sua verdadeira observância espiritual da Regra e das Constituições, o mais unido na caridade, um Convento onde se soube elevar a vida ordinária a mais alta perfeição, fazendo as coisas pequenas, como ela costumava dizer, grandemente; um Convento ideal, uma reprodução de São Damião, com sua Santa Clara e suas primeiras filhas…” E conclui, em louvor do Padre Arintero: “Essa declaração que faço, honra muito o santo diretor da Madre Amparo e seus discípulos[12].

Quando a Casinha da praça, onde havia começado a fundação (hoje Prefeitura da cidade), ficou pequena para a crescente Comunidade, houve que pensar em comprar terreno onde construir um mosteiro com nova planta. Uma vez escolhido o lugar, o Padre Arintero animava a Madre Maria Amparo a adquirir todo o terreno que pudesse, pois, ademais de um grande edifício, queria que contassem com uma ampla horta de, ao menos, um hectare e meio de extensão. Ainda que a Madre resistisse, o Padre lhe disse: “Não, filha; há que comprar tudo que se possa de terreno; pois esse convento está chamado a ser algo muito importante e haverá que ampliá-lo com o tempo. Se agora parece demasiado, amanhã não o será[13].

Mas não só isso, senão que se preocupou que o Padre Provincial de sua Ordem Dominicana enviasse a Cantalapiedra, quando fosse necessário, seus irmãos dominicanos, Padre Zapico e um Irmão leigo, entendidos em obras; buscava os materiais mais econômicos, revisava os planos, etc. não cabe dúvida que sua colaboração foi uma inestimável ajuda para a Madre Maria Amparo.

Muitas coisas se poderiam relatar de sua estreita relação com a Madre Maria Amparo e com a Comunidade, mas, sobre este particular, vamos nos deter só em seu último desejo de ser enterrado neste Mosteiro e que os Padres Dominicanos no Convento de São Estevão de Salamanca seguissem sempre cuidando dessa Comunidade.

A Crônica da Comunidade recolhe assim a recordação de sua última visita (24 de janeiro de 1928):

“[O Padre Arintero] disse que pensava escrever ao Reverendíssimo Padre Geral, suplicando-lhe que nos unisse a Ordem Dominicana, para que entre o Convento de São Estevão de Salamanca e nossa Comunidade houvesse sempre união de caridade e comunicação de bens espirituais. De novo manifestou, com em outras ocasiões, o desejo de que seus restos mortais descansassem em nosso Mosteiro, se os Superiores o autorizassem. Ao dizer-lhe que ele ordenasse que o trouxessem, exclamou: “Com que gosto viria para enterrar-me aqui!… Se fosse vontade de Deus, desejaria viver um par de anos mais para ver terminada essa obra, ainda que não duvido que Deus a fará prosperar”… Ao despedir-se de todas, o fez mais paternal que nunca: “Minhas filhas, que Deus vos abençoe e vos faça muito santas. Vou muito contente com tudo: do espírito que reina na Comunidade, do bem que andam as noviças e do adiantada que vão as obras. Veremos se Deus quer que muito em breve nos translademos ali![14]. Mas não voltou mais.

Não obstante, em seu leito de morte não deixava de lembrar de suas filhas de Cantalapiedra. As notícias de seu estado chegavam a elas através do Padre Ángel Serrano: ”O Padre se recorda muito de vós” (9 de fevereiro). “Segue com a cabeça lúcida e dando-se conta de tudo; se recorda de Vós e do que sofrerão por ele, e lhes está muito agradecido” (16 de fevereiro).

E do Padre Sabino Lozano, que recolheu os últimos alentos do Padre Arintero:

Durante aquela conversação – é o dia 19 de fevereiro, véspera de sua morte – que se prolongou por duas horas, tão cabal o conhecimento, e de memória como sempre, e com o ouvido parece melhor que nunca, e com a alma transbordante de amor de Deus, dedicou uma recordação a suas queridas filhas de Cantalapiedra. Me encarregou que escrevesse ao Geral da Ordem [Dominicana] da sua parte, pedindo que a Ordem as tivesse sempre sob seu amparo. “Diga-lhe que o Padre Arintero, moribundo, lhe pede. Sublinhe o moribundo…[15].

Esse laço de irmandade que ele não pôde conseguir em vida – pois a enfermidade e morte lhe sobreveio inesperadamente – se obteve um mês após seu falecimento, ao firmar, em 24 de março de 1928, o Mestre Geral da Ordem dos Pregadores, Padre Buenaventura Paredes, a Carta de Irmandade entre a Ordem Dominicana e o Mosteiro do Sagrado Coração, de Mojas Clarissas, de Cantalapiedra.

Em 20 de fevereiro, em torno da uma da tarde, falecia o Padre Arintero em seu Convento de São Estevão de Salamanca. Por então não foi enterrado aqui como era seu desejo, mas, depois de reiteradas petições por parte da Comunidade, seus restos mortais foram transladados a nossa igreja conventual em 02 de julho de 1941, quatro dias antes do falecimento da Madre Maria Amparo, que pôde ver, antes de morrer, cumprido esse desejo do Padre Arintero e seu, e repousar juntos quem tão intimamente unidos haviam vivido nesta terra e unidas seguirão suas almas no Céu gozando da presença do Senhor, a quem tanto amaram e por quem tanto trabalharam.

Assim mesmo, com o correr do tempo, haveria de se abrir o Processo de Beatificação de ambos num dia de profundo gozo para a Comunidade de São Estevão e para essa Comunidade de Clarissas. A efeméride teve lugar em nossa igreja conventual em 20 de fevereiro de 1977. Os Processos tomam bom curso em Roma: de Madre Maria Amparo foi sido firmado o Decreto de virtudes heroicas pelo Papa João Paulo II, em 02 de julho de 1994; só falta a aprovação de um milagre para sua Beatificação. Por sua vez, a Positio do Padre Arintero se encontra ainda em fase de estudo.

Depois de expor a missão do Padre Arintero como diretor da Madre Maria Amparo e cofundador desse Mosteiro, queremos considerar também outro aspecto do Padre Arintero: sua condição de dirigido da Madre Maria Amparo. Até agora temos tido ocasião de ver sua sabedoria e santidade para dirigir a jovem Clarissa, sua fortaleza e robustez para vencer todos os obstáculos, sua esperança firme para levantar o ânimo da Madre em tantas dificuldades e incertezas. Mas esses dons que o Senhor lhe regalava tão prolixamente para a direção das almas, não lhe eximam de passar suas próprias dificuldades, suas dúvidas e suas noites escuras, que tão profundamente lhe acompanharam durante longos anos de sua vida.

Madre Maria Amparo deixou escrito um precioso testemunho sobre ele, em que no-lo ratifica:

“Não sei que razões teria meu bendito Padre Arintero – se não era a santíssima vontade de Deus, tão querida por ele – para reservar-se o segredo das provações que passava interiormente. O certo é que os que viviam com ele deviam imaginar que desfrutava de perfeita calma, enquanto estava sofrendo não pouco o pobre Padre meu… Era para considerar os meios de que Deus se valeu para fazer-lhe sentir sua própria miséria e para melhor purificar-lhe… Sentia eu em minha alma uma pena muito profunda, vendo um homem tão santo, uma inteligência tão grande e tão clara, abatido e como incapaz de compreender as coisas de sua alma, e como obrigado a caminhar na vida espiritual, que tão admiravelmente conhecia e fazia viver aos demais, submetido como uma criança aos conselhos de uma pobre filha sua…” [16].

Mas é interessante conhecer algumas de suas dificuldades e de suas exigências. O temor de estar na desgraça de Deus foi talvez o que mais turbações interiores lhe produziu; mas sua grande confiança nas palavras de quem o Senhor punha a seu lado para confortar sua alma lhe fazia recobrar a paz. Demos dois exemplos:

Minha filha – conta a Madre Maria Amparo – faz umas noites me vi tão mal, tão violenta foi a tentação que me vi quase perdido. Me parece que não havia consentido e nessa segurança estive estes dias, mas agora me entrou tanto medo, que não me atrevo a celebrar a santa Missa. Faça antes oração, minha filha, e diga-me o que devo fazer”. E com efeito, depois de ter orado ao Senhor, lhe contentou: “Padre, Vós deveis celebrar a Santa Missa; nela sentirá a resposta a esses temores que tem[17]. Com confiança cega nas palavras de sua dirigida, celebrou a Eucaristia, comentando-lhe depois, cheio de gozo, como o Senhor lhe havia feito sentir que não havia pecado naquela tentação.

Lhe parece, minha filha – lhe disse em outra ocasião – que me prepare para fazer uma confissão geral de toda minha vida? Lhe parece que tenho necessidade de confessar com mais cuidado? Apensa começo a santa Missa me acometem uns sustos, umas imaginações e temores de estar na desgraça de Deus, que me intranquilizam muito”. Como eu guardasse silêncio por uns momentos, pareceu para ele que não me atrevia a responder afirmativamente e me disse com uma humildade que me comove: “Conteste, minha filha, que estou disposto a tudo o que Deus queira de mim”. Depois de o ter encomendado a Deus, lhe disse: “Não vejo necessário nem sequer conveniente que façais uma confissão geral, antes creio que não deve por atenção a esses temores de estar na desgraça de Deus, que são tentações do inimigo para, pelo menos, intranquilizá-lo e distraí-lo. Deixe o passado à misericórdia de Deus e sirva-lhe agora com amor e confiança, como Ele deseja[18].

E conclui Madre Maria Amparo: “Em meio dessas provações se via brilhar nele uma grande virtude, posto que se fiava e submetia sem replicar e com uma humildade sem igual ao pobre conselho de uma alma tão inferior a sua em virtude e em tudo o demais[19].  E acrescentamos nós: Humildade de diretor e humildade da dirigida, convertida, também em diretora de sua alma.

Em matéria de pobreza lutava por viver com maior austeridade possível, não querendo ter em sua posse nada desnecessário, ainda que isso, em algumas ocasiões, lhe custou grandemente. A Madre Maria Amparo – como boa franciscana – lhe urgia na vivência desse voto.

Examinamos as seguintes anedotas, selecionadas do testemunho da Madre Maria Amparo:

Outra vez me disse:Dizem nossas Regras que não tenhamos mais que uma capa. Eu tenho essa que trago posta e outra muito velha que uso na cela para abrigar-me, porque está muito velha; ainda que não creia, minha filha, a costurei no outro dia e lhe fiz uma costura que parece uma dobra e ficou bastante bem”… “Mas, Padre – lhe disse – não vê que aquela capa é velhíssima e não serve para nada? Aquilo não pode se considerar como capa, senão como um pedaço de tecido inútil que faz bem em usar para afastar o frio”.

Em outra ocasião me dizia: “Tenho escrúpulo, minha filha, de ter tantos livros na cela; muitos deles necessito, mas outros não uso, mas me custa desprender-me deles porque posso necessitá-los em alguma ocasião e se lhes dou, não os encontro facilmente de momento. Que lhes parece que faça?”. “Desfazer-se de todos os que não necessita, ainda que a outros não sejam úteis. Fiques só com os necessários para o estudo e ponha os demais a disposição do Padre Prior». Me consta que lhe custou muito fazer isso[20].

Com efeito, na seguinte ocasião em que voltou a ver a Madre lhe comentou avergonhado que ainda não havia entregado os livros, pois lhe custava muito fazê-lo. Mas, diante da insistência dessa que fizesse esse desprendimento, por fim o fez com grande gozo e paz de sua alma.

Outro aspecto – o último que vamos considerar nessa simples exposição – que lhe fazia sofrer profundamente, era a aridez que sentia na oração, a que dedicava ao menos três horas diários. Esses momentos de maior proximidade com o Senhor, que poderia lhe servir de tanto consolo, passava-os em suma obscuridade, “como um tronco”, “como se Deus desaparecesse”, utilizando suas próprias expressões.

E aponta Madre Maria Amparo: “Me dizia que lhe cansavam os livros de meditação e como melhor se encontrava era nesse vazio interior, ainda que lhe era penoso, em uma notícia obscura e confusa de Deus; mas que o preferia a todos os discursos que pudesse fazer e com os que não conseguia senão maior obscuridade e aspereza[21] .

E no cume de sua humildade e simplicidade diante de uma dirigida sua, lhe dizia:

Quando veja que falto, minha filha, me repreenda; a autorizo para que me repreenda e para que me advirta forte que estou faltando”… “Ajuda-me, filha minha, que não tenho ninguém que me ajude…” Nisso se referia as coisas espirituais e interiores de sua alma. Dizendo-lhe eu como não manifestava essas coisas a um Padre de sua confiança para que lhe animasse, me respondeu: “Minha filha, o Padre S. [Sabino Lozano] por respeito não me diz nada; quando me confesso me aponta uma penitência que tenho que rezar pelas contas do rosário, e não me diz nada mais. Ademais, minha filha, Deus quer me dar a luz e o consolo, por meio de vós, e deve me dizer tudo o que entenda de mim; primeiro, porque Deus o quer e também para me pagar – dizia sorrindo – o que eu faço por sua alma e pela casa. Já vê como também eu tive que sofrer alguma humilhação e trabalhos pela fundação. Pois ajude-me e Deus lhe pagará[22].

Mas, a margem do que ele julgava sobre si mesmo, Madre Maria Amparo, que o conhecia bem, podia afirmar que “o Padre Arintero vivia concentrado em Deus pelo amor e recolhimento. Dependia do movimento divino agindo em tudo, segundo entendia ser vontade de Deus, não se apartando nem um pingo do divino querer… Que admirável é o Senhor, mantendo em humildade e purificando a seus santos![23].

Essa mesma afirmação podemos ratificar hoje nós, depois de tantos anos: Que admirável se mostrou o Senhor na Madre Maria Amparo do Sagrado Coração e no Padre Juan González Arintero, a quem esperamos venerar algum dia na glória dos altares! E se Madre Maria Amparo podia escrever em 25 de setembro de 1932, a Mons. Sabas Sarasola, dominicano e Vigário Apostólico de Urubamba e Madre de Dios, no Perú:  “Me pareceu ver meu santo e nunca olvidado Padre Arintero custodiando-nos com muita solicitude… Quase me parece que não morreu esse querido Padre de minha alma, tão cheia da sua alma me parece que está esta Casa! ”[24]; de igual modo, podemos dizer nós que a Madre Maria Amparo e o Padre Arintero seguem, do Céu, velando pela Comunidade e enchendo o Mosteiro com o bom perfume de suas virtudes e santa vida.

María Fernanda Prada Camín, OSC

(Sor María Ángel de la Eucaristía)

Mosteiro do Sagrado Coração

Cantalapiedra (Salamanca)

20 de fevereiro de 2004


[1] Arturo ALONSO LOBO, El Padre Arintero, precursor clarividente del Concilio Vaticano II, Salamanca, Calatrava, 1969, p. 146.

[2] Autobiografía, Ms. 1, 225.

[3] Ibíd. 220-222.

[4] Ibíd. 273. 274.

[5] Ibíd. 261.

[6] Ibíd. 271.

[7] cf. Ibíd. 278.

[8] cf. Ibíd. 280.

[9] Ibíd. 309.

[10] Ibíd. 293.

[11] A. ALONSO LOBO, op. cit. p. 152.

[12] Testimonio del Padre Pedro Zubero, ofm.

[13] A. ALONSO LOBO, op. cit. p. 153.

[14] Crónica de la Comunidad, T. I, pp. 99. 100

[15] Ibíd. p. 101.

[16] Testimonio de Madre María Amparo

[17] Ibíd.

[18] Ibíd.

[19] Ibíd.

[20] Ibíd.

[21] Ibíd.

[22] Ibíd.

[23] Ibíd.

[24] Crónica de la Comunidad, T. I, p. 103.