MARIA AMPARO DO SAGRADO CORAÇÃO [DELGADO GARCÍA]

(Cantalapiedra, Salamanca, 30-10-1889 – 6-7-1941).

Clarissa e fundadora.

nova-imagem-de-bitmapNasceu Maria Amparo no povoado de Cantalapiedra (Salamanca), na Espanha,  em 30 de outubro de 1889, no seio de uma família cristã. Desde menina sentiu uma forte inclinação religiosa, incrementada por certos carismas extraordinários que irão se acentuando ao longo de sua vida ( visões, bilocação, profecia…).

Aos dezenove anos ingressou no Mosteiro de Cister de Arévalo (Ávila), do que teve que sair cinco meses depois, afligida por uma grande enfermidade.

Durante sua convalescença, após momentos de grandes obscuridades, lutas e uma grave enfermidade, sucedeu o desposório espiritual com a Santíssima Trindade que lhe foi concedido em 15 de agosto de 1912.

Mais recuperada fisicamente, ainda que com a saúde sempre debilitada, ingressa no mosteiro do Corpus Christi de Salamanca, de Irmã Clarissas, no dia 19 de maio de 1913.

Ali foi dando os passos habituais na vida religiosa, ainda que em seu coração não deixava de ressoar a visão que tinha tido quando contava somente com dez anos de idade, em 11 de novembro de 1899:

Outro dia, estando também diante do Santíssimo Sacramento… me pareceu ver uma coisa bem incompreensível então para mim. Era uma casa semelhante a um convento, mas estava fundado sobre um rio de graças… me pareceu ver como chegavam as almas em figura de pombas a apagar a sede de perfeição que o Senhor punha naquelas suas prediletas, mas não bebiam no rio sobre o que estava edificava a casa, senão no próprio Coração de Jesus que lhes acolhia com amor afetuosíssimo.  Não sabia que pensar nem o que entender desta visão que tão funda impressão me estava fazendo, quando a bondade de meu Jesus me fez notar uma multidão que me rodeava; as que estavam mais próximas eram religiosas que vestiam o mesmo hábito que temos nós agora, depois havia religiosos e religiosas de diferentes hábitos, sacerdotes e muitas pessoas leigas. Me pareceu que Jesus me dizia: “Tu serás a  mãe casta desta geração também casta”. E ainda que então não me disse como havia de se realizar aquilo, me revelou depois de algum tempo… Não  quis o Senhor que discorresse sobre o particular, quero dizer, sobre como havia de se realizar aquilo, e não foi muito difícil, pois como minha inteligência era tão grosseira e pouco espiritual, me pareceu um labirinto incompreensível, pelo qual em muitas ocasiões o descartei como distração ou tentação. No entanto, algumas vezes me recordava daquela casa tão bela, onde Deus parecia descansar tão a seu gosto”.   (Autobiografia, ms. 1 57. 58. 59).

O P. Juan González Arintero, O. P., doutor em teologia e grande diretor de almas, tomou a Irmã Maria Amparo sob sua direção e longe de parecer-lhe desatinada a fundação de um mosteiro de clarissas no povoado de Cantalapiedra, compreendeu ser vontade de Deus e lhe ajudou na realização desta obra vencendo todos os obstáculos que, da parte dos eclesiásticos e do povo de Cantalapiedra, iam surgindo.

Em 31 de maio de 1920 começava a caminhada do Mosteiro do Sagrado Coração de Jesus de Cantalapiedra, formado por M. Maria Amparo, uma professa solene, uma noviça e uma postulante. O primeiro local em uma casa na praça do vilarejo foi substituído, poucos anos depois, por um grande mosteiro em que assentar a uma crescente comunidade.

O mosteiro nascia, dentro da multissecular Ordem de Santa Clara, com o peculiar carisma de amar e reparar ao Coração de Jesus, e pedir particularmente pela santificação dos sacerdotes e almas consagradas.

Maria Amparo, como fundadora e primeira abadessa, se dedicou intensamente a formação da comunidade, dando especial ênfase na caridade e união entre todas as irmãs, e na minoridade e pobreza, bases sobre que haveriam de se assentar com solidez a vida espiritual de cada irmã e da comunidade, e que formam parte do legado carismático de santa unidade e altíssima pobreza de Santa Clara.

Se M. Maria Amparo se destacou como formadora das almas de suas filhas religiosas, não o foi menos de quantos a ela acudiram em busca de conselho, oração ou consolo, foram religiosos, sacerdotes ou leigos. A modo de exemplo, citamos o seguinte testemunho do P. Tomás Echevarría, C. M. F., à Irmã Maria de Jesus Amor Misericordioso, O. S. C.: “Te considero feliz só por viver com alma tão santa; aproveita mais minha alma uma hora de conversação com ela que uns exercícios espirituais; e o melhor do caso é que alguém mesmo depois de ter envelhecido no estudo, tem que reconhecer em um locutório de monjas que não sabe nada diante desta alma verdadeiramente seráfica”( Recuerdos sobre madre María Amparo del Sagrado Corazón, p. 12).

Como a São Francisco, também a ela foi concedida a graça de portar em si mesma as chagas da Paixão do Senhor. Recebeu a chaga do lado em 08 de junho de 1930, e as dos pés e mãos, em 05 de junho de 1931.

Mas, junto com os carismas extraordinários, destacava nela seu espírito de caridade, de mansidão, de humildade, de fortaleza. Sua união com Deus foi vivida até a vitimização total pela conversão dos pecadores, pelas almas do purgatório e, em especial, pela santificação dos sacerdotes e almas consagradas. Seu oferecimento como vítima a fez sofrer graves enfermidades desde sua juventude, até ceifar-lhe a vida quando contava somente cinqüenta e um anos de idade. Era 06 de julho de 1941. Atrás de si, deixava um mosteiro e igreja, amplos e capazes, e uma comunidade formada já por cinqüenta irmãs, herdeiras de seu espírito.

Sua fama de santidade, que a havia acompanhado inclusive em vida, se divulgou pronto, até o ponto de ser solicitada a abertura do processo de beatificação. Não obstante, este não começou até 20 de fevereiro de 1977. Em 02 de julho de 1994, o Papa João Paulo II assinou o decreto de heroicidade da virtudes da, desde então, Venerável Maria Amparo do Sagrado Coração.

Irmãs Clarissas de Cantalapiedra

http://www.clarisascantalapiedra.org/


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Obras inéditas: Autobiografía [dois manuscritos], Memorias espirituales, Cuaderno de ejercicios espirituales, Oraciones escritas en diversas circunstancias, Memorias de la fundación del monasterio; Correspondencia con el P. Juan González Arintero, O. P., Correspondencia con Monseñor Sabas Sarasola, O. P., Correspondencia con D. Ambrosio Morales.

Obras editadas: Foram publicados dois livros de pensamentos seus: Petálos, 2ª ed., Cantalapiedra, 1995. Trigo de Dios, Cantalapiedra, 1999.