Beata Maria de Jesus Deluil-Martiny

Fundadora das Filhas do Coração de Jesus

(1841-1884)

Do Padre Penning de Vries S.I.

Maria Deluil-Martiny nasceu em 28 de maio de 1841. Sue padre era advogado. Voltando às suas origens, entre os parentes de sua mãe, se encontravam algumas religiosas. Maria é a mais velha de um irmão e de três irmãs. A sua personalidade se revela na idade de onze anos quando, no pensionato dirigido por religiosas, ela reúne algumas colegas e forma com elas uma comunidade em miniatura, com regra, noviciado e oblação. Descoberta sua existência, as “Oblatas de Maria” foram suprimidas. Aos dezessete anos, chegado o fim de seus estudos, em 12 de maio de 1858, durante um retiro pregado por um Padre Jesuíta, escreve estas notas:

“Nós não podemos usar da liberdade que para submetê-la a qualquer coisa. Preferiremos nosso Deus e nosso bom Mestre a uma criatura ou a uma desejo de nosso coração?

… Os mais íntimos, os mais sagrados afetos humanos não podem legitimar a mínima resistência a vontade de Deus. E quem  poderia eu amar? Jesus Cristo é o único ser amável.

… No momento da morte não gostaria de ter amado senão só Ele. De resto, para bem viver no mundo, devo detestar o pecado, fugir das tentações, odiar o mundo e o que lhe pertence. E será coisa fácil para mim que amo naturalmente aquilo que o mundo ama e que temo a dificuldade?

“Vinde e segue-me” Meu Deus, que bela palavra!… e será para mim se eu a quero!

… Sim, ó meu Senhor, quero dar-vos quanto poderei dar-vos, seguir-vos de perto tanto quanto me for possível… E aonde irei? O pardal encontra sua morada; para mim, meu Deus, o vosso Coração, o vosso Coração!

… Mestre, vós sereis sempre o meu Mestre! Fazei de mim aquilo que vos agradar, mas vos suplico querer encerrar-me no vosso Coração e fazer-me sofrer alguma cosa pela vossa maior glória e o vosso puro amor”.

Antes de deixar a região de Lyon, Maria quer ir a Ars. O Santo Cura, João Batista Maria Vianney está no fim de sua longa e heróica jornada; a multidão se aperta a seu redor para vê-lo e ouvi-lo uma última vez, no ano seguinte Deus chamará para Si o seu servo fiel.

maria-deluil-martiny-93474Acompanhada da avó, Maria fica dois dias em Ars sem poder aproximar-se dele; preparando-se para partir faz uma última oração no altar de Santa Filomena, quando o bom ancião vem ajoelhar-se próximo a ela: “Padre, lhe diz vivamente Maria, havia desejado tanto consultar o senhor a respeito a minha vocação”. “A sua vocação, minha filha? Ah, quantos “Veni Sancte” deve ainda rezar antes de conhecê-la!” Depois a faz entrar no confessionário.

A provação não a poupa. Retornando a sua família, perde a sua irmãzinha: Clemence, de dez anos. Maria escreve “Clemence era a metade da minha alma, a paixão do meu coração”. Pouco tempo depois morrem a avó paterna e aquela materna. Sua mãe sempre em sofrimento depois do nascimento da última filha, se faz substituir por Maria nas numerosas obras de caridade por ela animadas.

Alguns anos depois, provada pela aridez, escreve no seu diário: “Não podendo amar Nosso Senhor, fazia de tudo para fazê-lo conhecer e amar pelos outros”.

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Serva de Deus Irmã Maria do Sagrado Coração Bernaud (1825 – 1903), monja visitandina, fundadora da Guarda de Honra

Em 1864, Maria Deluil-Martiny é nomeada “primeira zeladora” da Obra intitulada “Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus”. Essa Associação tinha acabo de surgir; os seus membros escolhem uma hora do dia para consagrá-la em modo particular ao Coração Adorável de Jesus com atos e orações. Assim que recebe o seu título de zeladora, Maria se encarrega do material de propaganda: medalhas, santinhos, imagens e compõe este canto para as reuniões dos associados:

Forme o mundo todo inteiro

Nobre guarde de honra

E alegre soe o canto:

Glória, amor ao Sagrado Coração!

Durante um retiro, em maio de 1865, Deus liberta sua alma de uma dolorosa cruz que a oprimia. Encarregada de recolher os pensamentos sobre o Sagrado Coração nas Obras de São Francisco de Sales, o faz com uma capacidade surpreendente.

Na última sexta-feira do mês de dezembro de 1866, o Rev. Padre Calage, S.J, pregando sobre o Sangue e Água brotados do Coração trespassado de Jesus, toca vivamente Maria e se torna seu guia espiritual. Em março de 1867, ela perde sua irmã mais jovem, Marguerite, de quinze anos.

No mesmo ano, durante um retiro, imersa em profunda adoração procurava identificar-se aos atos de adoração do Coração Sacratíssimo de Jesus, para adorar por meio d´Ele, a Adorável Trindade. Ela nos diz então de que modo fazia sua ação de graças depois da Comunhão:

Oferecia Jesus Cristo a Ele mesmo e a Santíssima Trindade, (Ele tinha me ensinado, me fazendo fazer), qual sacrifício vivo na minha alma, e daí em diante não sou mais eu que ofereço Jesus, é Ele que se oferece em mim. Se diria que há algum tempo, o Senhor tenha erguido um altar na minha alma, sobre o qual Ele se oferece incessantemente ao Eterno Pai e a adorável Trindade e quer que a minha alma esteja na sua presença diante deste altar em contínua adoração, contentado-se em contemplá-lo e unir-se aos atos divinos que Ele vai realizando”.

Uma noite de setembro, deste ano de 1867, enquanto orava em uma igreja sente Jesus lhe dizer interiormente:

Não sou conhecido, não sou amado… sou um tesouro que não é apreciado, quero preparar para mim almas que possam compreender-me. Sou uma torrente que quer transbordar e da qual não se pode mais conter as águas! Quero fazer para mim almas que as recolham, quero fazer para mim cálices para encher-lhes das águas do meu amor… Tenho sede de corações que me apreciem e me façam alcançar o fim pelo qual permaneço sobre os altares!… Quero difundir todas as graças que foram desprezadas… Sabes que coisa que dizer adorar? Eu sou o único que realmente adora!

Em novembro de 1868, Maria Deluil-Martiny pronuncia um ato de doação total ao Coração de Jesus. Durante a S. Missa é posto sobre o altar e é assinado: Maria de Jesus, Filha do Coração de Jesus.

Em 1869, assim expõe seu plano:

As Filhas do Coração de Jesus

Tudo na futura sociedade deve ser para o Coração de Jesus. O desejo de seus membros é de reparar com o amor e com a imolação as ofensas feitas ao amor de Jesus, e principalmente aquelas que o feriram mais cruelmente. Tudo pelo Coração de Jesus, mas por meio do Coração de Maria! Parece que Deus tenha reservado aos nossos tempos a glória e a consolação de honrar com um culto especial e com particular imitação aquela fase da vida de Maria Santíssima que começada no Calvário, terminou na sua beatíssima morte. Maria depois da Ascensão de Nosso Senhor permanece sobre a terra, sozinha  com suas recordações, sozinha com seu tesouro oculto na Eucaristia, sozinha com a esposa nascente: a Igreja, cujos inícios lhe eram confiados, e que devia nutrir com o sangue do seu Coração. A Eucaristia, a recordação do Calvário, a Igreja; eis em que coisa se concentra a vida da Virgem Santíssima depois da Ascensão.

As Filhas do Coração de Jesus serão as adoradoras da Eucaristia exposta solenemente nas igrejas do seus Mosteiros e a cercarão do mais profundo respeito e amor: esta será a sua vida, a sua razão de ser.

Elas serão vítimas com a Virgem Maria: para honrar os íntimos sofrimentos do Coração de Jesus, a sua imolação mística sobre o Altar e o martírio oculto e silencioso de Maria. A sua imolação será sobretudo interior”.

No mesmo mês, Maria escreve também:

A cada hora, Jesus Cristo se imola sobre o Altar. Se oferece mas quer ser oferecido por nós… Mas não somente devemos oferecer Jesus, devemos também nos imolar, nos deixar imolar com Ele continuamente, e completar o que falta a sua Paixão” (04 de setembro de 1869).

O que falta a sua Paixão” é por Maria de Jesus a essência da consolação espiritual.

Em janeiro de 1872 morre o seu único irmão e, em fevereiro, a única irmã que lhe restava. Sua mãe está sempre em sofrimento e seu pai muito enfraquecido pela dor.

Beata Maria de Jesus Deluil-Martiny 1Em 19 de junho de 1873, na modesta capela de uma casa de campo de Berchem (na Bélgica), Mons. Van den Berghe impõe o véu àquela que se torna: Madre Maria de Jesus e algumas de suas companheiras. No dia seguinte, 20 de junho, festa do Sagrado Coração, depois a primeira Missa em comunidade, essas recitam as 07 Palavras de Jesus na Cruz e o Magnificat.

A Madre Maria de Jesus esboça para si mesma o seu itinerário:

União incessante por meio de renúncia e do sacrifício ao Sacrifício de Jesus-Hóstia sempre oferecido sobre os altares. Querer aquilo que quer Jesus não nos impede de sentir profundamente o sacrifício. Tanto melhor. Não oferece-se à imolação para gozar, mas para sofrer”.

O fim próprio das Filhas do Coração de Jesus, assim se chamam as religiosas da Madre Maria de Jesus, é de responder tanto quanto possível, ao amor muito desconhecido do Coração de divino de Jesus. Com esta finalidade, elas se propõe:

beata-maria-de-jesus-deluil-martiny-virgem-e-martir-21°. A oferecer ao Coração de Jesus, Sacerdote e Vítima no Santíssimo Sacramento do altar, uma reparação perpétua pelos horríveis ultrajes feitos a divina Majestade, especialmente por aqueles que ferem mais profundamente este Coração adorável, como os sacrilégios, as profanações da Santa Eucaristia, a impiedade dos perseguidores da Igreja.

2º. A agradecer continuamente o Coração de Jesus por seus benefícios muito freqüentemente incompreendidos, de sua grande misericórdia para com os pecadores e, sobretudo pelas especiais bênçãos que Ele prodigaliza às almas sacerdotais e religiosas.

3º. A oferecer incessantemente à Santíssima Trindade o Sangue precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, com constante súplicas para obter: o advento do reino de Cristo no mundo, o triunfo da Santa Igreja, a extinção das sociedades secretas, e sobretudo a perfeição, a santidade cada vez mais crescente do Sacerdócio católico e das Ordens religiosas.

Elas terão como patrona e modelo, Maria, Mãe da Igreja. Unidas o mais perfeitamente possível aos sentimentos e as disposições da Virgem Maria, seja quando de pé aos pés da Cruz, oferecia a Justiça divina pela salvação do mundo, o Sangue precioso do seu divino filho, seja quando, nos últimos anos de sua vida, toda penetrada pelas recordações do Sacrifício cruento da Cruz e revivida continuamente pela realidade do Sacrifício de nossos altares, ela se dedicava ao bem da Igreja nascente e a sustentava com as suas orações  e a sua imolação oculta, as Filhas do Coração de Jesus não cessarão de oferecer suas orações, penitências e ocupações, o seu sacrifício e a sua própria vida, pelos interesses da Igreja católica, do Sacerdócio e das Ordens religiosas”.

Elas celebram a liturgia das horas; alternam-se a cada meia hora em adoração diante do Santíssimo Sacramento exposto. Seguem a regra de S. Inácio. As Constituições foram aprovadas em 1876, pelo Card. De-champs, Arcebispo de Malines. Em 17 de agosto de 1878, a Basílica do Sagrado Coração em Berchem é confiada a seu Instituto, esta é a Paray-le-Monial da Bélgica. Em 22 do mesmo mês, cinco religiosas pronunciam os votos perpétuos. A fundação de um mosteiro Aix-en-Provence em 1877, é seguida em 1879 daquela da Servianne próximo a Marselha.

Madre Maria de Jesus escreve a sua irmãs:

”... Ó Cordeiro do Pai Celeste aceita-nos como teus cordeiros; marca-nos para imolação; uni-nos a ti sobre a Cruz e sobre o altar, formai o nosso coração sobre o modelo do teu Coração de vítima!… E se a minha pobre vida pode servir a conduzir à Ti as almas de que teu Coração tem sede, toma-a, te suplico, ó amor meu! Mas ao menos triunfa como esposo sobre as almas do Instituto e como Rei sobre todos os corações!” (08 de dezembro de 1882).

Eis como Maria de Jesus vê a mortificação:

Os sofrimentos causados pelo calor e pelo frio sãos verdadeiras fortunas por uma alma mortificada. Suportadas em silêncio essas são uma mortificação preciosa; ninguém as vê e percebe; tudo é só por Jesus”.

Madre Maria de Jesus escreve à uma amiga:

O meu coração sangra pelo triunfo escandaloso da impiedade e das seitas! E é para reparar tais ultrajes que o nosso Instituto surgiu. Ah, se pudesse lavá-los com meu sangue! Se tivéssemos um coração de serafim!”(10 de janeiro de 1883)

Madre Maria de Jesus escreve durante um retiro:

A minha particular atração é a glória de Deus por meio de Jesus Cristo. Por Jesus Cristo, com Jesus Cristo e em Jesus Cristo, vos seja dada toda honra e glória, ó Pai Onipotente, em união com o Espírito Santo! Estas palavras encerram toda minha atração com estas outras: Contínua oferta a Jesus Cristo e a Santíssima Trindade. União de amor. A sua vida em mim. A minha vida n´Ele! Deus o quer! Sou sua pela eternidade, no Instituto do seu Coração, apesar da angústia, da agonia e da morte”.

Ela está pronta para o supremo sacrifício.

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Corpo Incorrupto da Beata Maria de Jesus, no Mosteiro de Roma.

Em 27 de fevereiro de 1884 é assassinada em Servianne pelo jardineiro do convento que naquela mesma manhã tinha mandado ao jornal “L’Hydre anarchiste” a seguinte carta: “Se começa com um para alcançar cem. Quero ter a glória de ter sido o primeiro a começar, abrindo a estrada para aqueles que terão bastante coragem para me seguir. Não é com palavras que se mudam as coisas. Se vós quereis que vossos negócios andem bem, fazei vós mesmos e não desencorajai aqueles que estão decididos a morrer gloriosamente combatendo pela boa causa. Os jornais de Marselha vos falarão dos meus atos. Começarei com incendiar um convento de religiosas, matar a Superiora e a Vice-superiora que me lançaram na sarjeta. Companheiros, vos saúdo e dependo de vós para que me vingueis e publicais a minha carta”.

A sua vítima morre dizendo: “Vos perdôo, pela Obra!

(Ela foi beatificada pelo Papa João Paulo II em 22 de outubro de 1989)

http://www.figliedelcuoredigesuvenezia.it/

 

ORAÇÃO

A BEATA MARIA DE JESUS DELUIL-MARTINY
Senhor Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote,

pelo teu Sangue derramado na Cruz

e pelo Coração Doloroso de Maria tua Mãe,

protegei o Santo Padre, guardai os teus sacerdotes

e fazei que a santa Igreja seja

testemunha fiel da tua ressurreição.

Inspirai em cada um de nós, sentimentos de gratuidade

e fidelidade no dom de nós mesmos

a exemplo da Beata Maria de Jesus.

A sua intercessão nos obtenha a graça…

que confiantes te pedimos.

Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos.

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