Convite ao voto de “vítima”

de Mons. Selim Sayegh

Sobre a Missão da Irmã Maria da Trindade

Reproduzimos o capítulo 2 da parte terceira do livro L’amore stupendo. Gesù Eucaristia, de Mons. Selim Sayegh (tradução do árabe de Pier Giorgio Gianazza, ed. Il Segno 2016), bispo emérito do Vicariato latino da Jordânia. Depois de ter traduzido em árabe o Colóquio interior, neste livro dedica uma reflexão ao voto de vítima como ápice da vida cristã. O autor remete às páginas da sua tradução em árabe do Colóquio interior.


“Das palavras do Senhor Jesus à Ir. Maria da Trindade resulta claríssimo que Ele pede a todos os fiéis cristãos que creem na sua presença real no sacramento da Eucaristia, coroar a sua vida cristã, sua fé nele e seu amor por ele, com o voto de vítima, ou seja com um voto de amor estupendo, em sua honra e por amor de Jesus Eucaristia: mistério de amor estupendo pela Igreja, em particular e pela humanidade, em geral.

1.Jesus pediu a Maria da Trindade consagrar-se a Ele com ‘voto de vítima’.

Jesus pediu com insistência a Ir. Maria da Trindade aderir à seu amor segundo a modalidade do voto de vítima. Na Bíblia e na tradição cristã, a vítima ou o sacrifício, como veremos, não é tudo aquilo que é imolado, mas aquilo que se oferece a Deus. Afim de que a oferta seja sincera e agradável a Deus, é necessário que seja expressão daquele amor sincero e daquele espírito humilde e contrito, presente no coração e na alma: ‘Um coração contrito é sacrifício a Deus’ (Sal 51, 19).

a) Jesus pediu a Ir. Maria da Trindade, muitas vezes depois de seu ingresso na Ordem de Santa Clara em Jerusalém, consagrar-se a Ele com o ‘voto de vítima’. Lhe manifestou com insistência este seu desejo. O Senhor Jesus é o amor estupendo aos homens, e deseja que ela e que todos os homens façam o ‘voto de vítima’, consagrando-se a seu amor estupendo. Explicou o significado de tal voto. A fez portadora de uma mensagem endereçada à todas as almas piedosas que creem na sua presença no sacramento da Eucaristia, a fim de que se empenhem a fazer este voto, e vivam também elas ‘o amor estupendo’ de Deus. Muitas vezes lhe explicou que coisa significa e porque o quer. Este voto é a expressão profunda daquilo que Jesus disse a seus amados discípulos, na noite da Ceia pascal: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco” (Lc 22,15). 

Num primeiro momento foi tomada pelo medo diante deste voto. Mas Jesus a encoraja a dissipar o medo e lhe explica os significados do voto. Pelo fato que era religiosa, tinha que obter a aprovação de sua superiora. Por sua parte, ela não tinha muita esperança que a sua superiora lhe desse a autorização.  Mas Jesus a assegurou e a encorajou a procurar o consenso de sua superiora. A fez claramente compreender que Jesus lhe tinha conduzido à Ordem de Santa Clara na Cidade Santa e tinha tomado conta dela todos os dias de sua vida, a fim de conduzi-la a este voto. Sem ele, de fato, não teria podido dar a Ele tudo e nem ser inteiramente sua. Portanto, Jesus lhe disse: ‘Esta oferta te assusta? Mas é para que tu a faças, que eu te conduzi até esta hora. Vê, que fizestes tu na tua vocação? E eu o que fiz? Não fui eu que conduzi tudo? O que temes então?  Tu és livre, mas não terás dado tudo senão quando esta oferta for realizada tal qual a espero. Não queres me dar tudo?’ (Ibid., p. 176-177, n. 21).

Na vigília da Festa de Todos os Santos, em 30 de outubro de 1941, Jesus lhe diz ainda: ‘Sim, desejo que te ofereças vítima voluntária. Gostaria porém que a tua superiora consentisse, porque tu pertences a tua comunidade… Uma religiosa que não fez o voto de vítima pertence antes de tudo a sua comunidade, e Deus, mesmo sendo Mestre absoluto do seu destino, leva em conta seus deveres para com sua comunidade. Uma religiosa que fez o voto de vítima, é confiada ao beneplácito de Deus, qualquer que sejam suas obrigações para com a Comunidade. Ela é completamente de Deus’. (Ibid., p. 198-200, n. 80).

Uma outra vez, disse-lhe, para encorajá-la: “Que temes? Não te abandonarei, estou sempre contigo, desejo reinar em ti. Não és minha filhinha, minha bem-amada?… O voto de vítima, o pronunciarás entre as mãos da minha Mãe, a Medianeira de todas as graças, ela apresentará a tua oferta a Deus” (Ibid., p. 207, n. 100; p. 209, n. 110).

No domingo, 23 de novembro de 1941, disse-lhe: ‘O teu voto de vítima, o pronunciarás com alegria, porque me causa uma grandíssima alegria… Deixa-me agir; tu não entendes, não é o teu campo. O teu campo é o meu coração, onde te desejo sepultada e continuamente em oração pelas almas” (Ibid., p. 211, n. 114).

b) Assim encorajada, Ir. Maria da Trindade pede permissão à sua superiora. Ela aceita o seu pedido com tanta facilidade, que realmente não se esperava. Faz, portanto, o voto de vítima, sem que ninguém o soubesse, à parte de sua superiora e o seu diretor espiritual. O emitiu no dia da festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria, em 08 de dezembro de 1941.

Depois de ter pronunciado o voto, Jesus lhe disse: ‘De agora em diante as tuas orações obterão conversões, porque a minha Mãe e a vossa, Maria, medianeira de todas as graças, as oferecerá unindo-as às suas. Alegra-te! Agora és minha verdadeira Clarissa, devotada ao amor e à expiação. O menor sentimento, contrário ao amor, arranca-o! Não perca mais um minuto. Vigiai para aproveitar todas as ocasiões para me oferecer um ato de reparação. É perdido todo o tempo que tu passas longe de mim. Vigiai e orai!’ (Ibid., p. 224, n. 151).

Me disse também:’Sim, tu és a minha vítima – fui eu que fiz isto, fui eu que o desejei. Tu não terás sofrimentos visíveis extraordinários, não é isso que te peço. Desejo que o teu voto de vítima purifique a tua alma. Desejo que a tua alma se imole, à imitação da minha vida eucarística, no silêncio, no esquecimento, no dom de ti em mim, intercedendo sem cessar, acolhendo toda ocasião de expiação, na alegria’ (Ibid. p. 410, n. 638).

E  me disse ainda isso no dia da festa do Sagrado Coração de Jesus: ‘Aquilo que te peço, aquilo que espero de ti, é que tu ajas sem irritar-te e sem falar, mas conforme a minha maneira, imitando a minha vida eucarística. Isso é o voto de vítima que te pedi. Têm coragem! Eu abençoarei tanto teus esforços que muitas almas depois de ti promoverão a vinda do meu Reino empregando os mesmos meios que te indiquei’ (Ibid., p. 417, n. 665).

2. Que coisa entende Jesus por “voto de vítima”?

O Senhor Jesus disse claramente à Ir. Maria da Trindade que ele quer que os seus prediletos, que fazem o voto de vítima, imitem as virtudes de sua vida eucarística. Lhe disse, de fato:

Peço quatro coisas das almas que se ligam mais estreitamente a mim pelo voto de vítima:

1) escutar-me mais que falar-me;

2) se esforçar em transmitir minhas ações, a minha maneira de agir mais que as minhas palavras;

3) estar diante dos homens como diante de Deus em um estado pobreza que pede, não em um estado de riqueza espiritual que faz esmola de seu supérfluo… As almas pobres, sem pretensões, estão na verdade,  e pelo fato que são verdadeiras não colidem com seus irmãos, e a minha graça pode agir por meio delas. As almas vítimas pedirão mais do que darão.

4) trabalhar unicamente para difundir o meu Espírito, a minha doçura, a minha amabilidade que não se detêm no mal, mas vence o mal com o bem. Exigindo tudo de si e nada dos outros, ajudarão as almas, com o seu silêncio e o seu respeito, a acolher as graças que a sua fidelidade e os seus sacrifícios obterão de Deus” (Ibid., p. 308-309, n. 366).

Uma outra vez, no dia 23/06/1941, me disse: ‘Eu desejo que as almas saibam que pelo voto de vítima entram em uma vida de união comigo. É preciso que saibam que desejo ardentemente este voto de vítima. É ASSIM QUE A SOCIEDADE SE RECONSTRUIRÁ. É preciso que saibam que o voto de vítima significa imitar a minha vida eucarística. Desejo que estejam em todos os lugares, em todas as situações… Eu desejo muito, onde quer que existam almas generosas, este voto de vítima’ (Ibid., p. 419-420, n. 670).

3.Jesus convida a todos aqueles que o amam a fazer este voto.

Jesus confiou a Ir. Maria da Trindade a missão de levar a mensagem do “voto de vítima” à todos aqueles que o amam, sendo ele o amor estupendo que permanece conosco na Eucaristia. Repetiu seu pedido com insistência, dizendo-lhe: ‘São necessárias vítimas que unam o seu sangue àquele do Calvário: é a Justiça, é a Ordem, é a Divina Sabedoria, são as exigências da Santidade. São necessárias vítimas que sejam testemunhas da minha Palavra, para que essa se transmita viva e se perpetue intacta. Queres?’ (Ibid., p. 208, n. 102).

E Jesus acrescentou: ‘Se houvessem mais vítimas voluntárias, haveriam menos vítimas involuntárias, que devem sofrer as consequências terríveis dos pecados que elas não cometeram (isto é, na segunda guerra mundial que então ocorria). Desejo um exército de vítimas que se ofereçam voluntariamente para sofrer os castigos imensos que o universo atraiu a si distanciando-se de Deus […]. Desejo um exército de vítimas voluntárias que, para salvar as almas, me tragam uma colaboração que o mundo me recusa’ (Ibid., p. 227-228, n. 165).

Jesus disse também: ‘Desejo uma exército de almas apóstolas que se consagrem a mim com o voto de vítima, mas não para expiar com provações extraordinárias os pecados dos outros; não, não é esse o meu desejo. Desejo um grande exército de almas vítimas que se unam ao meu apostolado na minha vida eucarística. Que se comprometam pelo voto de vítima a seguir o mesmo caminho que eu escolhi: silêncio, imolação, irradiação do triunfo da vida do Espírito; a fim de que o meu Espírito se difunda, desejo que tais almas revelem algo do meu Reino, ao qual cada alma é chamada e no qual cada alma é esperada. Desejo um exército de almas vítimas que concentrem os seus esforços em imitar o meu apostolado: Eu sou o Mestre, eu fui o servidor de todos. O voto de vítima lhes dará a força de uma maior fidelidade a serem servas de todos, a fim de que o meu Espírito se difunda e o mundo creia nas minhas palavras. Estas almas de vítimas desejo em todos os lugares: no século e nos claustros; em todos os ofícios, em todas as situações, nos campos e nas fábricas, nas escolas e nas lojas, nas famílias e nos conventos, no comércio e nas artes, em todos os lugares…” (Ibid., p. 306-307, n. 363).

Ouçamos de novo Jesus que disse: ‘Sim, peço um exército de vítimas espalhadas em todos os lugares, porque em todos os lugares o mal está misturado com o bem: nas organizações dos Estados como naquelas das comunidades religiosas, nas famílias como em cada alma. Peço que aqueles que me amam se ofereçam como vítimas para reparar no ambiente em que se encontram, vencendo o mal com o bem. Que eles se consagrem a essa reparação, imitando aquela que eu busco na minha vida eucarística: pelo silêncio; oferecendo-me para cada ocasião um ato oposto ao mal que viram; não exigindo nada dos outros, mas tudo de si mesmos; obtendo de Deus o triunfo da verdade […] Mas é preciso passar pela crucifixão!’ (Ibid., p. 374-375, n. 533).

Jesus deseja ardentemente que os seus prediletos façam o voto de vítima, considerando a urgente importância de tal voto para salvação de todos os homens. Ele é a grande porta que conduz à uma relação íntima e à uma união estreitíssima com ele no sacramento da Eucaristia, para depois imitá-lo na sua vida eucarística.

Com este voto, Jesus quer reconstruir a sociedade: Ele deseja, portanto, que existam consagrados com voto de vítima, entre tantas almas generosas. Para quem bem reflete, não escapa que os problemas da sociedade em cada País do mundo não leva em conta muitos dos nossos valores e critérios. Portanto nos perguntamos: que coisa nos reserva o futuro? O mundo está se desenvolvendo tão rapidamente, de modo a criar uma sociedade perdida onde nada o satisfaz e está descendo ao abismo. A libertinagem, a negligência na educação moral nas escolas, a perda dos vínculos familiares, a premente utilização de meios eletrônicos de entretenimento que corrompem os valores morais, humanos e religiosos, riscam criar gerações perdidas e governos irreligiosos que declaram legítimo o que proibido, e proibido o que é legítimo, como por exemplo a legalização do aborto e do matrimônio homossexual. Muitas sociedades perderam os valores éticos e se colidem correntes modernas que distorcem os valores morais, religiosos e humanos. Assim a mulher, nas sociedades orientais e africanas, a mulher é oprimida, humilhada e submissa. Por outra parte, no Ocidente, os meios de comunicação as fizeram simplesmente corpos e objetos de sedução e de luxuria suscitada por seu corpo, e assim promovem o mercado consumidor.

É ainda verdade que ‘a vida moderna’ não se baseia só sobre o que é negativo. Ela inclui os grandes valores morais, que tem origem no cristianismo. No entanto, a degradação moral e ética em muitos campos é um dado de fato que não requer provas, sobretudo entre as jovens gerações, que como diz o profeta Miqueias: ’Comem, mas não se saciam… Semeia, mas não colhem’ (Mi 6, 14-15).

Eis que Jesus pede aos seus amigos fazer o voto de vítima, por Seu amor  como Eucaristia, de modo que eles se comprometam com Ele na via da perfeição, se unam ao seu sacrifício sobre a cruz e peçam a sua intercessão, a fim de que não abandone o mundo, mas ao invés o salve da perdição e o remeta ao caminho reto, de modo que todos os homens reencontrem a sua humanidade, sua dignidade, igualdade, estima e respeito nas relações recíprocas.

Com o voto de vítima, Jesus põe o cristão diante de suas enormes responsabilidades para consigo mesmo e para com os homens seus irmãos. Em conclusão, pede-lhe que venha em auxilio do homem seu irmão e seja para ele luz e fermento bom em uma sociedade que tem necessidade da luz divina e do genuíno fermento cristão”

(Publicado no Piccolo Seme, Newsletter degli Amici di Suor Maria della Trinità, número 3, Dezembro 2016.)


Tradução: José Eduardo Câmara de Barros Carneiro