ORAÇÃO DE FOGO

cuartaEm 11 de outubro de 1933, durante uma noite de adoração, o então jovem sacerdote Pablo María Guzmán Figueroa, Missionário do Espírito Santo, escreveu a “Oração de Fogo”, fruto de um olhar contemplativo da passagem da Samaritana (Jo 4,23), em que Jesus revela a razão primeira e profunda de sua encarnação: “Dar ao Pai celestial os adoradores em Espírito e Verdade que o Pai busca”.  Manifestando nela todos seus desejos, que desde 1920, Jesus semeou em seu coração. Eis aqui tal oração:

 

Oração de Fogo para pedir ao Divino Pai seus adoradores.

– oração escrita durante uma noite de adoração –

11 de outubro de 1933

Ó Pai Amadíssimo! Aqui tens o mais miserável e pequeno de teus filhos, que vem abrir-te sua alma e pedir-te o que só Tu podes lhe dar.  E precisamente porque o pedido é grande e porque sei que todos os elementos do inferno vão se opor a sua realização, por isso, me dirijo a Ti, ó Pai Onipotente, por isso venho te falar no nome de teu divino Filho e com os lábios de Maria Imaculada.

Ó Pai, venho pedir-te algo que não podes deixar de me conceder, porque és para tua própria glória. Sim, Pai Amadíssimo, quero tua glória; mas uma glória imensa, que supere a que te dão os seres inanimados ou irracionais, e que tenha por modelo a que te deu teu Filho divino em sua passagem pela terra.

O salmista convidava a criação para bendizer teu nome e as obras de tuas mãos se apressaram em realizar seus desejos. Por isso, em tom afirmativo, repetimos sem cessar: Coeli enarrant gloriam Dei… Sim, as criaturas materiais te louvam. Nos astros descobrimos a grandeza de teu poder, nas flores e nas frutas, as delicadezas de teu amor.

A imensidade do Oceano nos proclama tua onipotência e a ordem maravilhosa do Universo nos assegura tua infinita Sabedoria.

Mas, ó Pai, nenhum desses seres te dá a glória que mais desejas, porque eles não amam e Tu queres a glória do Amor.

Para nos indicar a glória que querias, fizeste que teu Filho se encarnasse e que viesse a este mundo. A ninguém quiseste confiar missão tão sublime, senão a teu Verbo. Querias que fosse tua própria Palavra a que nós escutássemos. Por isso Jesus disse: “Eu vos falei das coisas que ouvi de meu Pai” ou as coisas de meu Pai.

E que bem soube cumprir essa missão esse Verbo Encarnado! Com quanta razão pôde dizer antes de sua morte: “Eu, por mim, te glorifiquei na terra, tendo acabado a Obra cuja execução me encomendastes“ (Jo 17,4). Tua glória, ó Pai, foi sua paixão sobre a terra; para buscá-la se fez criança com as crianças, sábio com os sábios, para isso carregou sobre si as misérias de todos os homens, a fim de apagá-las e deixar uma humanidade redimida, branca e pura.

Por isso, formou sacerdotes que perpetuassem seu Sacrifício, pelo que te deu tanta glória.

Mas, ó Pai Adorado! Eu quero descobrir no Coração de teu Divino Filho um grande segredo de glorificação para Ti, quando em termos gerais e velados, disse a samaritana: “Mas já chega o tempo, e estamos nele, quando os verdadeiros adoradores, adorarão o Pai em espírito e em verdade. Porque tais são os adoradores que o Pai busca” (Jo 4,23)

Jesus foi o primeiro grande adorador em Espírito, já que o Espírito Santo era seu guia e a alma de sua alma; já que como Deus tinha com Ele uma mesma natureza. Foi o primeiro em amá-lo em Verdade, porque Ele era a própria Verdade e por isso Jesus é o Modelo dessas almas que esboçava à samaritana. Depois de Jesus, Maria e algumas almas escolhidas que seguiam de perto o Divino Mestre.

Mas Jesus, no meu sentir, ó Padre amado, via mais além.

Contemplava os séculos que viriam até o fim do mundo e depois de propor os Modelos, verá de longe as almas que seriam sua porção escolhida.

Ele te glorificou, e sua Igreja Santa não deixa de glorificar-te, fazendo-te o Centro de sua admirável liturgia; mas no coração dos fiéis, quanto esquecimento para Ti! Quanta indiferença para com os ideais supremos de glorificação que para Ti teve o divino Filho!

Triste é dizê-lo, meu Pai, mas depois de 19 séculos, o mundo não soube compreender esses sentimentos do Coração de Cristo. E senão, onde estão os teus grandes devotos? Na própria vida dos santos, o que nos é dito em relação a essa glória especial que por seu amor para Ti deveriam te dar?

Bem, é certo que não faltaram almas privilegiadas que tem amem com paixão; mas bastará isso para encher as aspirações de Jesus? Será justo que terminem os tempos e que teu amor se tenha perdido nas generalidades de uma devoção ordinária?  Será pedir muito que o mundo atenda os desejos e os exemplos de Cristo e que se volte para Ti para oferecer-te o melhor de suas belezas e o mais sublime de seu amor?

Por isso, ó Pai, este Pequeno Missionário do Espírito Santo, impulsionado pelos exemplos de seu Santo Fundador [1],, a quem deve o amor que Te tem, e crendo com isto, selar seu espírito de obediência aos desejos de seu pai no espírito, aos desejos de Jesus e especialmente a teus próprios desejos, se prostra por terra para pedir que mandes já esses perfeitos adoradores que hão de amar-te em espírito e verdade.

O que quero para Ti, ó Pai amado?

Uma legião de almas que, enquanto seja possível, reproduzam a humanidade como havia sido na mente divina sem a caída do primeiro homem. Almas puras e simples que te desagravem e te consolem por aquela decepção, direi, que tivestes ao criar o primeiro homem e contemplar sua caída.  Quando Tu querendo encontrar nele o carinho de verdadeiro filho, o viste desobedecer.

Mas sobretudo, como queres a humanidade resgatada pelo Sacrifício de Cristo, enriquecida com o dom sublime do Espírito Santo e destinada a dar-te, juntamente com teu Divino Filho, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória.

Por isso agora te peço, ó Pai, verdadeiros filhos e adoradores que façam da terra um paraíso e de suas almas e seus lares tuas casas, onde Tu reines e onde teu Divino Filho se sinta como em sua própria casa, já que Ele não tem outra casa onde habitar senão a Tua. E que ali viva como viveu em teu Seio desde toda a eternidade.

Ó, se fosse possível que nessas moradas onde deves refletir teu Céu na terra, não se conhecesse o pecado. Que felicidade sem igual!

 Como quero que sejam?

Almas hóstias com Jesus Sacerdote para tua glória, ó Pai! Que seu olhar seja límpido como o Céu e seu coração grande como o Coração de Jesus, onde viverão escondidas. Sua alma simples como a de uma criança, refletindo a encantadora simplicidade de Jesus ao elevar seus olhos quanto te dava graças.

Que com os Céus cantem a glória de Deus e com firmamento anunciem a grandeza de suas obras, já que devem ser como um céu límpido que reflete as graças de Deus.

Que sejam almas sacerdotais, pois devendo ser vítimas terão que formar uma só Hóstia com Jesus Sacerdote. Seu coração sacerdotal terá como missão agradecer-te sempre o sacerdócio eterno de Cristo e sua prolongação nos Cristos da terra.

Elas amarão por tudo e por todos, emprestando seu coração mesmo aos seres inanimados para que nelas amem todos esses seres criados por teu amor, ó Pai Santo!

Almas de crianças, se comoverão por qualquer dom de Deus, e como não há nada semelhante ao Sacerdócio eterno de Cristo e sua comunicação às almas, elas se converterão em devedoras com Cristo junto a Ti, ó Pai amado, para dar-te graças por seu Sacerdócio Eterno e elas serão também auxiliares do sacerdote nessa imperiosa necessidade de agradecer o dom inestimável de sua vocação sacerdotal.

Quero para Ti, ó Pai, almas nas que brilhe a perfeita alegria, herança da pureza e da dor. Que elas manifestem ao mundo que não há felicidade maior que aquela que se encontra no teu serviço e na fidelidade a teu amor.

Que por viver junto a Ti, recebem tua divina fecundidade e a vá distribuindo no campo das almas, para que todas te reconheçam e te amem como Pai.

Que sejam almas vítimas, almas Hóstias; mas formando com Jesus uma só hóstia, assim como devem participar de seu mesmo sacerdócio.

Mas, ó Pai Amado! Será possível tal coisa?  Se fosse obra humana seguro que não; mas não deve ser senão o fruto do sacrifício de Jesus.

Recordas Pai amado que Ele te pediu na última Ceia que o glorificasse para que Ele mesmo te glorificasse? E Tu bem sabes, meu Pai, que a única glória que teu Filho busca é a tua. Esse pedido equivalia, pois a dizer-te que por suas obras, por sua vida e por sua morte, fosses mais e mais glorificado e que o fosse naqueles discípulos que tanto te encomendava e que deviam continuar sua obra na terra.

Por isso, lhes disse que os amava como Tu o amaste e que queria que eles te amassem com teu próprio amor, pois Ele nada quer não leve o selo de teu Amor.

Assim, pois, ó Pai amado, essas almas que te peço são conquista de Jesus. Com elas serás glorificado e glorificarás a Quem as conquistou para ti com seus ensinamentos e com seu Sacrifício.

Tu que tanto amas a teu Divino Filho, que o buscas aonde quer que seja, haveria de lhe negar esse gosto de se ver reproduzido nas almas que levem como paixão sua única paixão e com amor seu Supremo amor, que és Tu?

A Ti, ó Pai, sempre te comovem as lágrimas de Jesus. Mas, se divinas e encantadoras foram todas as que brotaram de seus olhos, aquelas que em silêncio derramou ao contemplar esses Teus perfeitos Adoradores, que te fariam sentir, ó Pai amado?

Pois bem, ó Pai, o coração dessas Tuas almas adoradoras quer ser como uma ânfora que vai recolhendo essas lágrimas de alegria que brotem dos olhos de Jesus ao ver-te amado. Elas as provocarão e guardarão como precioso tesouro. E no dia de sua morte, quando o corpo tenha que se separar de sua alma, envolverão a essa com esse delicado perfume, e assim se apresentarão diante de Ti, ó Pai para que as reconheça como Tuas e as ame com um amor eterno. Com esse perfume querem perfumar o primeiro beijo que te deem ao chegar a Pátria, e que será uma imitação do beijo eterno que Tu imprimes em teu Verbo. Será teu Espírito que, assim como eternamente te une com teu Filho e consome teu amor, assim também introduza essas almas na unidade da Trindade.

Mas, ó Pai, o demônio invejoso de tua glória e deste triunfo do Sacrifício de teu Filho há de colocar artimanhas especiais a essas almas, a fim de perdê-las; mas, ó Pai, te rogo pelo mesmo amor de teu Filho, que não permitas que nenhuma se perca nem seja infiel a sua santa vocação.

Que teu olhar as sirva de escudo e que os ataques de Satanás somente sirvam para demonstrar sua fidelidade e zelo ardente por tua glória.

Cobre-as com tua Sombra Divina para que o mundo não as veja nem as toque.  Que suas almas sejam como jardins fechados onde Tu somente habites.

Ó, Pai! Para selar minha oração e ter a segurança de que seja ouvida, digna-te a aceitar, por meio do Coração desamparado de Maria, a teu Divino Filho como Vítima e aceita em sua união a todos os teus Adoradores para que tua glória seja plena e as almas se salvem. Assim seja!

Pablo Maria Guzman, MSpS


Esta oração será a carta magna da fundação que 3 anos depois, o Padre Pablo Maria, com todas as permissões, fará das religiosas Missionárias Eucarísticas da Santíssima Trindade e sua rama secular das Missionárias Auxiliares, cuja missão é ser, buscar e formar esses adoradores do Pai.

20 anos depois, já na maturidade física, intelectual e espiritual, com fama de santidade[2], seguindo um pedido do próprio Jesus, e sob inspiração do Espírito Santo, pedirá permissão para ir a Roma, apresentar ao Papa o projeto e se dedicar a recorrer o mundo fundado e pregando um movimento eclesial universal que ele chama: “União Sacerdotal Universal”, integrado por sacerdotes diocesanos, religiosos e religiosas, que sem deixar suas dioceses nem congregações, nem paróquias ou missões, sejam esses adoradores em Espírito e Verdade, que o Pai busca, imitando a Jesus Adorador do Pai, e busquem e formem entre seus fiéis e pessoas que o rodeiam esses Adoradores do Pai em Espírito e em Verdade.

A muitas e difíceis provas foi submetida sua fé, seus superiores não lhe concederam dita permissão, e o enviarem imediatamente a Lima, Peru, onde permaneceu por 6 anos, como Diretor espiritual do Seminário Interdiocesano Santo Turíbio de Mongrovejo, esperando a hora de que o desejo de Jesus pudesse ser realizado.

Ao regressar ao México, circunstâncias alheias a sua vontade e um doloroso câncer o levaram a um turbilhão de sofrimentos. Quando ele se deu conta de que não seria quem realizaria o pedido de Jesus, escreveu: “Minha vida transcorreu em sua maior parte e, entretanto, sigo esperando com fé essa graça. Mas, se não fosse meu desejo tua vontade e só o tivestes querido dar a mim para alegrar-se com ele, dai-me outras almas que o realizem porque assim o exige teu coração”. E nessa total confiança, morreu em 17 de fevereiro de 1967, na Cidade do México, D.F.

As MESST herdaram essa missão, ao herdar todos os textos e manuscritos em que o Padre Pablo Maria, descreve a União Sacerdotal Universal, assim como a espiritualidade e formação desses adoradores do Pai.

 

María Elena Galindo, Messt.

 

Fonte:http://humanidadadoradora.blogspot.com.br/2014/09/un-saludo-y-una-explicacion.html


[1] Refere-se ao Venerável Padre Félix de Jesus Rougier ( 1859— 1938) fundador dos Missionários do Espírito Santo.

[2] Foi declarado Venerável em 14 de junho de 2016.