Reinado Social de Cristo Rei – II

A união espiritual entre estas duas almas de eleição, Mons. Martínez e a Madre Maria Angélica, teve como característica essencial a extraordinária e profunda experiência comunicada dos “Encantos do Amor Divino”, obra maravilhosa que o Senhor lhes revelou e eles seguem transmitindo ao mundo. Amando a Deus com todo seu coração e com toda sua alma, desejaram veementemente que Cristo reinasse em todo o mundo, especialmente no México, missão que Deus lhes deu de maneira particular pedindo a Madre Maria Angélica sua oferenda como vítima de expiação por sua pátria, secundada e sustentada por seu fiel diretor, Mons. Luís Maria Martínez.

“Eu me creio obrigada a viver orando continuamente por eles pois são a esperança de nossa pátria; México nunca será grande, nem feliz, se não é católico seu governo e o governo não será católico se os bons não o procuram cheios de coragem, sacrificando tudo para o conseguir. Com esses pensamentos desci ao coro e prostrando-me diante do Santíssimo Sacramento lhe pedia para o México isto, um governo católico. Mas – ai! – um pensamento desolador de desalento cruzou por um instante em minha alma e voltando-me novamente a meu Jesus lhe pedi com um amoroso olhar uma resposta. Tomo o Kempis [1] que tinha a meu lado e encontrei estas palavras do livro 3º, cap. 3: “Por ventura há coisas difíceis para mim? Ou serei como aquele que diz e não faz? Onde está tua fé? Tenha firmeza e persevere…” (Diário 5-VI-1921).

A confirmação da poderosa oração da Madre Maria Angélica em favor de seu povo foi iluminada por Mons. Martínez, quando em 1915, comentando a grandeza de sua fecundidade na Igreja e no mundo, escreve:

“O fruto do matrimônio espiritual é interior, é íntimo, não está fora dos esposos, consuma sua unidade. Mais precisamente, por ser tão íntimo, é incrivelmente eficaz no exterior; e irradia por todas as partes, e se dilata no espaço e no tempo; produz e produzirá seus frutos de benção nas almas, no México, e no mundo; e sua ação se sente agora e sentirá no futuro, Deus sabe até quando! Até a consumação dos tempos!…

Mostrar os “Encantos do amor divino”! Dulcíssimo e eficacíssimo apostolado! Vingar o amor desprezado no mundo! Vingá-lo pela imolação e pelo amor e vingando-o fazendo que reine, que estabeleça em nossa Pátria e no mundo, seu reinado de paz! Que missões! Ao nascer Jesus em Vós, por vossa gloriosa transformação n´Ele; os anjos deveriam cantar o mesmo cântico de Belém: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!

Quando alguma catástrofe ameaça romper o equilíbrio sobrenatural das nações e do mundo; quando pelos pecados dos homens a força da justiça vai superar o influxo da misericórdia; Deus envia seus Santos, verdadeiros fenômenos extraordinários, verdadeiros monstros, como vós direis mais tarde, que como os cometas do firmamento, restabeleçam o equilíbrio do mundo com a dupla força de seu amor e de sua dor, e mantem na terra a paz e a harmonia. Paz! Paz! É o desejo universal, as almas pedem paz; a Pátria pede paz; o mundo pede paz; Deus pede paz.

E Cristo é a paz universal: Ipse emin est pax nostra. Cristo é a paz das almas, a paz do México, a paz do mundo, a paz de Deus.

Que venha Cristo! Que reine Cristo! Que nas almas, que na Pátria, que no mundo se estabeleça o reino de Deus! Iustitia, gaudium et pax in Spiritu Sancto. Deus sabe até que ponto contribuireis para a paz universal destes tempos, vós, que se transformou em Cristo, que sois Cristo!… A paz é o fruto suavíssimo do amor. Sua missão de amor é também missão de paz. Amém. Imole-se. Seja Jesus. Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!”.

A Madre Maria Angélica viveu as vicissitudes sociais e políticas de sua pátria. Para ela viver a perseguição religiosa foi uma experiência que avivou o zelo pela glória de Deus.

Em 16 de março de 1915, depois da Comunhão, teve como uma revelação do imenso tesouro que temos no Sangue de Jesus Cristo, tesouro que não sabemos aproveitar. Nesse dia, Jesus lhe pediu dissesse com maior frequência possível e ensinasse a dizer, diante das calamidades que se viviam então e não são menores que as que vivemos agora: Pai eterno, eu vos ofereço por meio da Santíssima Virgem, o preciosíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo para aplacar vossa divina justiça e obter o perdão e a paz para o México. Anos mais tarde, regressando ao México depois de 32 anos na Espanha, acrescentou as seguintes petições: a destruição das leis ímpias; bons governantes católicos; a união da Igreja com o estado. Sagrado Coração de Jesus, reina no México, na Espanha e no mundo inteiro. Amém.

Mons. Martínez por sua parte nos tempos de perseguição fez uma bela Consagração a Virgem Santíssima:

Virgem de Guadalupe! Rainha celestial de minha Pátria e sua única esperança! Convencido como filho da Igreja e do México, de que tu és a única que podes nos fazer felizes; porque és a única que podes nos dar a Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida; e desejando como teu leal vassalo e teu Filho amantíssimo, que seja bendito teu nome, honrada tua grandeza e amada ardentemente tua bondade maternal, quero celebrar contigo neste dia um pacto solene de amor. Eu empenho minha palavra de cavalheiro e de cristão, e me comprometo solenemente:

1º A reconhecer-te sempre como Rainha Soberana de minha Pátria, a amar-te como minha Mãe terna e amorosa, e a servir-te sempre como cavaleiro leal e filho bem-nascido.

2º A propagar teu culto, estender teu amor e a trabalhar por tua honra, enquanto o permita a debilidade de minhas forças.

Tu, em troca, me darás, tua palavra de Mãe e Rainha, não de que nunca haverás de me esquecer porque isso o faz toda Mãe, nem de que sempre haverás de me abençoar, o que é próprio de toda Rainha verdadeira, nem sequer de que me amarás sempre, pois sei que me amas com toda tua alma, senão que alcançarás com tua intercessão poderosíssima, que se apresse o dia feliz em que Cristo estabeleça na minha Pátria, seu Reinado de paz e de amor.

Ó Mãe! Ó Rainha! Recebe … a homenagem de teu cavalheiro e de teu filho e escuta benévola a ardente oração de meu coração.

Que Cristo reine no México! Que reine por Maria de Guadalupe! Fiat. Fiat.

 

A Madre Maria Angélica sentia vivos desejos de ver reinar o Coração de Jesus no mundo inteiro: nas almas, nas famílias, nas sociedades, nas nações e estava disposta, com grandíssimo prazer, a dar sua vida, por isso rogava, por isso sofria, por isso trabalhava e se imolava em sua vida obscura de ocultamento e de oração.

Aproveitava todas as ocasiões para pedi-lo a Deus, por exemplo, no sofrimento dizia a Deus: Por estas dores, por estes sofrimentos, apressa o reinado de teu amante Coração. Quando beijo sua santa imagem: Ó Jesus! Por este beijo de amor apressa o reinado de teu divino Coração e assim nas demais obras de cada dia.

Em 04 de maio de 1917, escreveu em seu Diário:

“Meu anelo é ver reinar o Coração de Jesus em todo o mundo, exteriormente não posso fazer nada para estender esse reinado, mas uma mulher que não vale nem pode nada, incendida no amor divino, revolverá um mundo algum dia”.

Também vivia seu voto de vítima de expiação:

Unida em espírito ao Santo Sacrifício da Missa, que hoje celebra pelo México, Nosso Santíssimo Pai Bento XV, e a todas as súplicas que hoje se dirigem a Santíssima Virgem de Guadalupe, Rainha e Mãe dos mexicanos, me ofereci novamente junto com Cristo, vítima de amor e expiação por minha pátria. Sei que não sou digna de ser assim oferecida e, portanto, trato de desaparecer mais e mais, para não viver eu senão Jesus Cristo em mim. Só o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo, é a única oferenda agradável ao Pai celestial e se aceita as súplicas das almas, é em atenção a Jesus Cristo que nelas vive, e na proporção da intensidade desta vida de união com Jesus Cristo“. (Diário, 12-XII-1917).

Em 8 de maio de 1921, um grupo de socialistas, inimigos da ordem cristã, fazendo uma demonstração de sua força, se dirigiram à Catedral de Morelia, agitando na torre a bandeira vermelha e preta do comunismo, e para que não se duvidasse de suas intenções sacrílegas, penetraram no Sacrário da Catedral, e apunhalaram, vis e degenerados, uma bendita imagem de Santa Maria de Guadalupe, Mãe e Rainha dos mexicanos. Isso fizeram quando não havia fiéis que teriam impedido tão monstruoso atentado, no recinto da Catedral.

Em 12 de maio de 1921, membro da ACJM, juventude seleta e generosa, organizaram uma manifestação repleta de católicos morelianos que desfilou em silêncio, pelas ruas da capital de Michoacán. Subitamente, apareceu a polícia armada, ordenando se dissolvesse a manifestação. O Sr. Julián Vargas enfrentou, dizendo virilmente: “Não, chefe; temos direito, como cidadãos de um país livre, de manifestar de alguma maneira, contanto não causar transtornos a ordem pública, nossa pena pelos insultos, que se fizeram a nossa Mãe de Guadalupe, em sua bendita Imagem, no dia oito. Assim que, essa manifestação não se dissolve, porque a voz do povo é a voz de Deus”.

A resposta do oficial foi, uma vez que se protegeu atrás do aqueduto, disparar-lhe com a pistola. E como se este tiro tivesse sido um sinal preparado de antemão, todos os outros policiais começaram a disparar sobre a multidão de mulheres, crianças, operários, profissionais, senhores e senhoras que marchavam enlutados na manifestação. Muitos caíram, gritando: Viva Cristo Rei!.

Do púlpito da Catedral de Morelia, em 06 de junho seguinte, nas honras fúnebres aos caídos, o então Cônego da Catedral, Dr. D. Luís M. Martínez, em sua esplêndida Oração Fúnebre disse:

O cristão morre com o amor no coração, com as lágrimas nos olhos e em seus lábios um grito sublime: o grito do entusiasmo, do amor, da esperança. Não escutastes esse grito heroico na tarde imortal de 12 de maio? Em meio dos rugidos de raiva dos algozes, dos ais de dor das vítimas, do ruído da fuzilaria, do surdo rumor da multidão aturdida, não ouvistes brotar dos lábios moribundos do ancião, esse grito vigoroso, libérrimo, triunfante: Viva Cristo Rei! Viva a Virgem de Guadalupe!? Tu escutastes, Senhora, o grito de fé e de amor de nossos irmãos heroicos! Mãe! Por esse grito, perdoa-nos! Mãe, por esse grito, salva-nos!

A Madre Maria Angélica escreve uma carta a Mons. Martínez em 05 de agosto seguinte:

“Não me chama a atenção que em Morelia tenha ocorrido semelhantes acontecimentos, seja pelo furor de Satanás (entre outras coisas penso que estará furioso porque ali de uma maneira especial se difundiu, em grande parte por vosso meio, a escravidão à Santíssima Virgem), seja também por esse verdadeiro heroísmo dos bons católicos, que como Vós dissestes admiravelmente:  a sua morte foi um fruto delicado, um exemplo glorioso, uma esperança dulcíssima”.

P. Pedro Fernández Rodríguez, O.P


Publicado em:  Boletín trimestral informativo y formativo “Encantos del Amor Divino“- Causas de canonización de los Siervos de Dios, Monseñor Luis María Martinez y Madre María Angélica Álvarez Icaza. Año 8. No. 37  Enero-Marzo 2017 .


[1] A Imitação de Cristo (cap. 30, do livro 3)


Para aprofundar sobre esse mesmo tema, veja-se também:

o Reinado Social do Reino de Cristo