MADRE MARIA AMPARO,

COM O CORAÇÃO DE MARIA, PARA A SALVAÇÃO DAS ALMAS

Neste ano de 2017 celebramos o centenário das aparições da Virgem Santíssima em Fátima aos três pequenos pastorzinhos: Lucia e aos já beatos Jacinta e Francisco. Crianças simples, de uma pequena vila de Portugal, que foram predestinados por Deus para serem receptores de uma grande mensagem de salvação divina por meio da Virgem Santíssima.

 “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tim 2, 4), e para esse fim ao longo da história, valeu-se de muito instrumentos para levar a salvação ao maior número de almas.

O Papa emérito Bento XVI, na homilia da Eucaristia celebrada em Fátima durante sua visita em 13 de maio de 2010, afirmava: “Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: «Onde está Abel, teu irmão? […] A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim» (Gn 4, 9). O homem pôde despoletar um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo… Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima, quando Nossa Senhora pergunta: «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?» (Memórias da Irmã Lúcia, I, 162).

Lendo esse texto, como não recordar imediatamente da Madre Maria Amparo, a quem Jesus e a Virgem Santíssima convidaram reiteradamente, desde criança, a sofrer como reparação dos pecados e a oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores? Ouçamos-la.

Uma vez, me pareceu que Jesus me dizia com um acento de infinita ternura: “Se as criaturas me deixassem agir, eu as encheria de benefícios e faria nelas verdadeiras maravilhas, mas a imensa maioria fecha as portas de seu coração”. Me pediu que me oferecesse de modo especial a seu Divino Coração, pois queria ter-me de intermediária entre ele e os pobres pecadores, então no mundo e depois no mosteiro; que queria servir-se de minha pequenez para iluminar a outras almas, mas que essa missão seria muito dolorosa, pois me custaria muitos e mui penosos sacrifícios, mas que devia consolar-me o saber que muitas se afastariam do pecado e outras empreenderiam vida de grande perfeição. Tudo entreguei a meu Deus para que dispusesse dele como fosse de seu divino agrado” (Autobiografia, ms. 1, 91).

Certamente, ao longo de sua vida, sua vitimização pelas almas, foi contínua e em grau heroico. Recolhendo em sua correspondência, em cartas ao Padre Arintero, O.P., lemos:

Queria fazer-me em pedaços para reparar os ultrajes que fazem sofrer os pecadores a Nosso Senhor. Esta luz que me dá sobre o muito que lhe afligem certas almas é tão ativa às vezes, que se não fosse sustentada com superiores forças não poderia viver entre as dores e mortais angústias que este sentimento causa na minha alma. Isso experimento quase continuamente, mas sobretudo nas sextas-feiras parece impossível poder sofrer mais do que sofro” (24 de fevereiro de 1919).

Durante estes dias não cessei de pedir a meu Deus uma verdadeira conversão para todas essas almas contra quem estava irritada sua justiça, oferecendo-lhe os méritos de Jesus e Maria para satisfação das injúrias que havia recebido de todos, oferecendo-me a sua divina vontade para sofrer todas as penas que quisesse enviar-me, até ser aniquilada e abismada” (12 de setembro de 1920).

E a Monsenhor Sabas Sarasola, O.P.:

Às vezes, o inimigo me faz muita guerra, me diz que sofro inutilmente pelas almas, que tudo que possa sofrer e fazer por outros, não me bastará para pagar por meus pecados no dia da conta; que me ocupe de mim e de cumprir com meu cargo, e deixe as demais. Eu, meu padre, não busco as almas, é Jesus quem as manda a mim sem eu conhecê-las, e é ele quem me descobre suas necessidades interiores, sem eu o procurar; é Jesus, unicamente ele, que as converte e remedia sem eu fazer outra coisa senão deixar a Jesus que sofra em mim, que fale por mim, que opere em mim…” (25 de setembro de 1932).

Esse mesmo Monsenhor a animava a não desfalecer em sua entrega:

Agora, minha filha, veja com quão grande fervor desejarei ver-vos, como pai, revestida de todas as virtudes, e tão grata ao Coração de Jesus que sejais seu céu na terra, seu descanso nestes tempos, e sua esposa de predileção. Esqueça-se mil e mil vezes de si, penetre-se dos sentimento do Magnificat, sobretudo daquela sublime humildade da Virgem, que foi precisamente o que mais encantou a Deus para enriquecê-la acima de todas as mulheres e escolhê-la para Mãe sua. Viva o santo temor do maior amor. E quando Jesus a invada com as grandes torrentes de seu amor e de suas dores, até o ponto de convertê-la em outro crucificado, lembre-se das pobres almas, de sua missão de vítima, de abarcar todas as grandes intenções do Amor Misericordioso; e então, de modo especial, coloque a mim naquela fornalha purificante e santificante do Coração de Jesus, e vós mesma dedique-se a ser minha lavadeira, até que me veja bem branqueado e limpo, e feito novo à imagem de Jesus. Nesses momentos preciosos, Jesus nada lhe pode negar nem lhe negará. Peça muito por nossas missões, confiadas a esse pobre e mal pastor, para que o lobo não arrebate ovelha nem cordeiro algum e me conceda a graça de que em minhas mãos, por sua graça, nenhuma alma se perca” (22 de maio de 1932)

O Padre Arintero, em seu livro Evolução mística, explica qual é a missão principal destas almas prediletas de Deus, como Madre Maria Amparo. Diz, com efeito:

A missão principal, ainda que oculta, de todas essas vítimas, é continuar a obra expiatória, propiciatória e reparadora do Calvário; aplacar a ira de Deus e merecer perdões e graças; fazer o que fazia Maria aos pés da cruz: cooperar na obra de nossa redenção, regeneração, vivificação e santificação. Pois consolam e aliviam misticamente a Jesus, associando-se a suas dores; reparam os agravos, esquecimentos, desprezos e blasfêmias dos mundanos; impedem os castigos e os trocam em bênçãos; alcançam o perdão para os pecadores, a constância para os justos, a saúde para os enfermos, o consolo para os aflitos e o oportuno remédio para todas as necessidades. Estas almas são a bendição da terra, porque em seus puros e abatidos corações tem suas delícias aquele que é como “um ramalhete de mirra” e “apascenta entre os lírios”. Uma só destas vítimas inocentes alcança do céu mais bens que milhares e mesmo milhões de justos ordinários que não fazem mais que purgar suas próprias imperfeições e culpas” (Salamanca, 1989, p. 443).

Mas o Senhor não só quis a ela como vítima, senão desejou a fundação de um mosteiro no que houvesse muitas almas dedicadas a interceder pela salvação das almas. Conta assim, na sua Autobiografia:

No mês de setembro e outubro de 1912, me havia falado Jesus muito confidencialmente, e com muito segredo, da fundação que desejava fazer para descanso e recreio de seu Divino Coração, e me apresentou aquelas vítimas escondidas, amadas suas, como hóstias sacrificadas à justiça divina pelos pecados, especialmente dos sacerdotes e das almas que lhe estavam consagradas” (ms. 1, 191).

Igualmente, já no mosteiro revelava às suas filhas o desejo que, outrora, lhe havia manifestado a Santíssima Virgem:

Não faz muito tempo manifestou Maria Santíssima à certa alma como lhe afligiam muito profundamente os ultrajes, os sacrilégios, os insultos, as profanações de todo gênero que se fazem contra o Divino Jesus, sem que ela lhe pudesse consolar aqui na terra, procurando para ele esposas amantes e respeitosas almas que professem a seu Divino Filho, amor e respeito especialíssimo. Por isso, nosso fim há de ser reparar, e reparar com Maria aos pés de Cristo: tal é o plano, o objeto, o espírito e a razão desta fundação. O pensamento que deve sobressair e reinar em nossa vida há de ser substituir a Maria, na melhor maneira possível, aos pés de Jesus, mediante nosso amor, nossos cuidados diários, nossas adorações, respeito e homenagem. Quero, pois, com Jesus e Maria, almas fortes, a quem não intimide nem abata, nem muito menos vença a dor; almas que saibam estar firmes com Maria, nossa Mãe, aos pés da Cruz” (Escritos sueltos, [s. f]).

Concluímos com umas palavras da mesma homilia do Bento XVI a que aludimos no princípio:

O Pastorzinhos [Lucia, Jacinta e Francisco], que fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus. Nossa Senhora ajudou-os a abrir o coração à universalidade do amor. De modo particular, a beata Jacinta mostrava-se incansável na partilha com os pobres e no sacrifício pela conversão dos pecadores. Só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da Paz.”


In: Madre María Amparo del Sagrado Corazón. Boletín informativo, n. 92. 1º. Semestre 2017.