A Via Sacra

Irmã Maria da Trindade

(1901 –1942)

Que admiráveis são os Caminhos de Deus! A Misericórdia de Deus conduziu Louisa Jacques: chamando-a das trevas à luz, à conversão, à união, à vocação.

Atraída por Jesus Sacramentado, busca realizar sua vocação, responder ao chamado do Senhor, mas quanto sofrimentos, quantas provações, quantas contrariedades…

Mas enfim Jesus a conduziu ao Mosteiro das Clarissas de Jerusalém, onde professará com o nome de Irmã Maria da Trindade.

A Irmã Maria da Trindade, foi conduzida à Cidade Santa:

“Te conduzi a Jerusalém, para que subamos juntos o Calvário. Lá me crucificaram cruelmente. Porque me amas, terás as mãos, os pés e o coração transpassados, se te deixas guiar. O coração, separando-te de toda criatura; as mãos, dedicando-as aos trabalhos que não te agradam; os pés, não indo onde gostariam de ir. Mas não será a uma cruz que serás pregada voluntariamente; serás ligada ao meu Coração, para que nada mais te separes de mim. E se consentes com amor, aumentarei o teu amor e te invadirei. Deixa-te fazer. “(C.I. 65 )

Sim, como verdadeira Filha de São Francisco e Santa Clara de Assis, a Irmã Maria da Trindade foi uma grande Contemplativa da Paixão de Cristo. No Mosteiro de Jerusalém, depois o Ofício da meia noite, quase todas as Clarissas permaneciam no coro para suas devoções particulares. E muitas deles rezavam a Via Sacra. Assim fazia também a Irmã Maria da Trindade, e na sua vida interior, a Via Sacra terá uma grande importância, será momento de oração e contemplação, de união e intimidade com Jesus. “Te espero todas as noites na Via Sacra para um momento de maior intimidade, compreendes?”(C.I. 234)  Eis um belo convite para todos nós!


VIA SACRA

Irmã Maria da Trindade

 PRIMEIRA ESTAÇÃO- Jesus condenado à morte.

Tu também estás condenada a morte, mas ignoras o momento. Deves morrer, é a grande realidade. As sombras se dissiparão, não permanecerá mais do que aquilo que é. Aprenda de mim como te preparar para morte e como morrer.

 SEGUNDA ESTAÇÃO – Jesus recebe a Cruz.

Embora esgotado pela flagelação e pelos sofrimentos da noite, recebi a minha cruz com amor e com alegria. Foi para esta hora que eu vim. Eu não pensava em mim, pensava na Redenção.

Cada cruz que te for dada, recebe-a com amor e alegria; não penses em ti, pensa na obra da Redenção.

TERCEIRA ESTAÇÃO – Jesus cai pela primeira vez.

Não tinha feito um longo caminho e já tinha caído.

Não te admires quando caia, mas como eu fiz, levanta-te.

 QUARTA ESTAÇÃO – Jesus encontra a sua Santa Mãe.

Estava irreconhecível, não tinha mais aparência de um homem. Ela me viu, me reconheceu. Ó, Ela compartilhou a minha Paixão. E ela, não somente vos perdoou, mas vos ama como nenhuma mãe jamais amou seu filho. Ela não cessa de velar sobre vós, de vos proteger, de interceder por vós desde o vosso nascimento. Materna e silenciosa, toda escondida, ela nem mesmo deseja que a agradeçais, mas deseja que agradeçais a Deus.

Dirige a Ela todas as tuas súplicas, a sua oração é irresistível ao Coração de Deus. Para agradecê-la, esforça-te em imitá-la.

QUINTA ESTAÇÃO – Jesus recebe ajuda de Simão Cirineu

Veja, quis que a humanidade, na pessoa do Cirineu, participasse em uma pequena parte na sua redenção. É sempre assim. Aqueles que se recusam, aqueles que recusam obedecer aos mandamentos de Deus, é preciso ganhá-los para vós. Se vós carregais os pesos uns dos outros, se fazeis aos outros o que gostariam que os outros fizessem a vós, eles desejarão ser da vossa família; eles aceitarão as obrigações; e depois, quando tiverem compreendido, amarão essas obrigações e a sua generosidade dará ainda mais. Muito são da minha família sem o saber, porque é pelas ações e pelas intenções que eu reconheço aqueles que são meus.

SEXTA ESTAÇÃO – Verônica enxuga a Face de Jesus.

Vês? Para um gesto de bondade humana, recompensa divina. É sempre assim. Aquilo que me confortou neste terrível caminho da cruz, não é somente o seu gesto e a suavidade  do seu véu – é porque eu pude recompensá-la. Minha alegria é dar! As minhas graças são inesgotáveis. Espero as ocasiões para vos poder manifestá-las, as ocasiões onde vós me ofereceis um coração apto a recebê-las. Eu as espero e as busco… Ó, sim, eu estou à porta e bato.

 SÉTIMA ESTAÇÃO – Jesus cai uma segunda vez sob a Cruz.

Deveria ter morrido aqui porque meu abatimento tinha atingido limites extremos. Mas tudo não estava consumado, pensei nas almas e o meu amor me deu forças para me levantar. Quando vós não podeis mais, pelas fadigas e pelos sofrimentos, pedi o amor, ele não é jamais negado a quem o pede.

 OITAVA ESTAÇÃO – Jesus consola as mulheres de Jerusalém.

Veja, para falar às mulheres que choram, eu estou novamente de pé. Esquece-se dos próprios sofrimentos quando se pensa naquele dos outros. É preciso rezar pelos outros mais que por si mesmos, rezar pelas grandes intenções da Igreja: a salvação das almas, o triunfo da verdade, da Fé, as Missões; pelos Sacerdotes, pela unidade visível da minha Igreja, pela cura das feridas de que minha Igreja é ferida na sua vida humana; essas feridas enfraquecem a sua ação, lançam como um véu sobre a sua luz, a luz das minhas palavras. É preciso pedir a Deus os seus dons divinos: a Fé, a fidelidade que é a Caridade em ação, a correspondência às suas graças, que é o fruto da Esperança.

NONA ESTAÇÃO – Jesus cai pela terceira vez sob a Cruz.

Eis me aqui uma vez mais na terra, esgotado. Parar aqui?  A morte teria sido tão doce. Ah, sofri muito além daquilo que era necessário para a redenção do gênero humano.  Mas esse excedente de sofrimento era necessário para tantas almas que correm o risco de perderem, na tibieza e na autossuficiência, os valores que lhes foram confiados – e de se perderem. Minha filhinha, compreendestes? Nenhum sofrimento é perdido na vida de amor. Seja generosa. Não o serás jamais demais. Não o serás jamais o bastante..

DÉCIMA ESTAÇÃO – Jesus é despojado de suas vestes.

Veja, eu dei tudo, não reservei nenhuma recordação para minha Mãe, nem sequer a minha túnica. Os meus dons são de um outro tipo. Deixa-te despojar: das coisas materiais, antes de tudo; depois, dos teus direitos, das tuas forças, dos teus pensamentos. É a Deus que darás. Na morte não permanecerá senão o que a ele destes.

 DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO – Jesus é pregado na Cruz.

Para mim os cravos de ferro afiados – a cruz de madeira dura que ficavam na minha cabeça a coroa de espinhos… Para ti os cravos são teus votos; mas eles não te pregam a uma cruz, te pregam ao meu coração a fim de que nada te separe de mim – no meu Coração que te ama e que te espera faz tanto tempo. Veja como a sua sorte é invejável! Aonde irias sem os teus votos? Ama-os para vivê-los com a perfeição que o amor inspira. Aquele [o voto] de vítima não muda nada aos outros[1]. Ele te une a mim mais estreitamente, a mim, Cordeiro imolado, a Vítima. Esforça-te para viver como eu vivi. Eu escolhi o último lugar. És verdadeiramente a serva das tuas irmãs? Tens todos os dias alguma imolação para me oferecer?

 DÉCIMA SEGUNDA ESTAÇÃO – Jesus morre sobre a Cruz.

Vês, eu perdoei, dei tudo, tudo aquilo que tinha; além disso, vos dei o meu corpo, o meu sangue. Eu ainda tinha, sobre a cruz, a minha Mãe e dei-a para vós; ela é também a vossa Mãe. Aqueles que vós amais, vós não deveis amá-los por vós mesmos, mas para doá-los a fim de que outros recebam também o amor com que vos beneficiaram. É preciso amar por Deus, a fim de que o amor se difunda e Deus seja assim conhecido e amado. Tu não compreenderás senão no céu quanto deves àqueles que te amaram. Não os retenha para si, doa-os… É preciso doar o melhor do próprio coração e até o melhor do próprio pensamento. Se conservas para ti os teus pensamentos, eles permanecem estéreis; se tu os doa, Deus poderá utilizá-los conforme seu agrado. O que te importa?  Lança, como grãos que o vento dispersa aos quatro ângulos do céu, o melhor de teus pensamentos, o teu amor e tudo aquilo que podes doar e, deixa a Deus o cuidado de utilizá-los como melhor lhe agradar: a prodigalidade me honra.

Dei-vos a minha Mãe; gritei o meu abandono da parte de Deus para que as almas tomadas pela angústia da morte fossem reconfortadas pelo pensamento que eu a passei antes delas e por elas. Gritei a minha sede de almas. Ela ainda permanece. Tu a compartilhas? Quem quer ser minha esposa deve desposar os meus desejos.

Tudo está consumado. E tu, és fiel a Regra? E ao que tua Superiora e o teu Pai [ espiritual ] te dizem? E ao que eu te digo? Cumprir tudo, sim, custe o que custar.

Entreguei o meu Espírito nas mãos do meu Pai.

É assim que se deve morrer. E é assim que o farás em breve.

 DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO – Jesus é colocado entre os braços de sua Mãe.

Veja, como quando eu era pequeno, eis me de novo inteiramente entre seus braços. Ela compartilhou a minha Paixão. E agora que me leva novamente em seus braços, leva todos os méritos da minha Paixão que eu lhe dou. Ela pode dispor deles segundo seu coração de Mãe. Ela é Medianeira de todas as graças.

Abandone a ela assim toda a tua vida, os teus trabalhos, os teus desejos, o teu coração todo inteiro para que coloque alguma coisa de seu; as tuas orações, porque as torne irresistíveis, unindo-as a sua.

DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO – Jesus é colocado no sepulcro.

É o vosso coração o sepulcro de onde eu desejo ressuscitar: não me deixes sozinho. Fazei-me viver em toda a tua vida, para que possa me manifestar através de ti.


[1] Para aprofundar o sentido do voto de vítima na vida da Irmã Maria da Trindade e sua missão na Igreja, veja-se: Convite ao voto de “vítima”de Mons. Selim Sayegh