Este precioso escrito do Servo de Deus Padre Arintero foi publicado na primeira edição da Revista “La Vida Sobrenatural” publicada em janeiro de 1921, assim como na Revista Mensal “La Basilica Teresiana”


 A EPIFANIA MÍSTICA

Obtulerunt ei múnera, aurum, thus et myrrham.

(Mt 2, 11)

HOJE, 06 de janeiro, a Igreja nossa Mãe gozosa celebra a Festa da Epifania, ou seja das três grandes manifestações de Nosso Senhor Jesus Cristo, a primeira das quais, e que dá o nome de dia de Reis, é a verificada no Portal de Belém, onde, guiados por uma estrela milagrosa, vieram do Oriente prestar-lhe suas homenagens os Magos, e ali, ainda que em tão humilde mansão, o reconheceram e “adoraram prostrados por terra, e abrindo seus tesouros, lhe ofereceram três preciosos dons: ouro, incenso e mirra”.

Também os religiosos, guiados pela inspiração divina, vão oferecer a Jesus recém-nascido, ou melhor dizendo, vão ratificar sua oferenda já feita, nos três votos, três preciosíssimos dons que Ele sobremaneira agradece; os quais estão de algum modo simbolizados por aqueles dos Magos, mas que incomparavelmente  lhes excede em valor aos olhos divinos.

Mediante eles, com efeito, dá a alma ao seu Deus todo o mais precioso que em seus tesouros pode encontrar, e com esse, tudo quando é e vale; e deste modo merece que por sua vez Aquele que por ninguém se deixa vencer em generosidade, se lhe entregue com tudo quanto tem e quanto é, mediante três maravilhosas manifestações análogas às que hoje celebramos, fazendo-a assim como a Rainha e Senhora das infinitas riquezas de seu adorável Coração, de modo que possa dizer: “Eu sou toda para meu Amado, Ele para mim, que apascenta entre as açucenas “(Ct 6, 2).

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Esses votos são os “salutares laços” com que aprisiona a divina Sabedoria (Ecle 31, 3), as preciosas correntes de amor com que nos atrai e nos leva para Si (Os 2, 4; cf. Jer 31, 3);  e por isso neles encontra a alma escolhida, sob as aparências de escravidão, sua dita e sua liberdade verdadeiras; pois admiravelmente a livram dos estragos causados pelas três grandes concupiscências que ao mundo escravizam  (I Jo 2, 16), e lhe facilitam o uso da liberdade gloriosa dos filhos de Deus, ao mesmo tempo que, estreitando-a cada qual de um modo especial com uma das Divinas Pessoas, consolidam as relações de íntima amizade que com Elas nos ligam.

I OS TRÊS DONS DOS RELIGIOSOS.

1º. Pelo voto de pobreza oferece a alma a Nosso Senhor a mística mirra das amarguras, privações e desprezos que essas virtudes costumam levar consigo. Mas assim como a mirra apesar de ser amarga, exala um perfume suavíssimo e preserva da corrupção, assim a pobreza evangélica, ao mesmo tempo que desprende do amor ao terreno e nos livra de seus contágios, nos faz exalar, sempre que de seu espírito vivemos, o bom perfume de Cristo pobre e sofrendo por nosso amor tantíssimas penalidades do Presépio até a Cruz. Assim poderá ela com razão exclamar (Ct 1, 11): Quando estava o Rei em seu reclinatorio (de Belém ao do Calvário), meu nardo exalou seu perfume... E sentindo os bons efeitos deste perfume de vida acrescentará  (Ct 12): “Ramalhete de mirra é meu Amado para mim, no meu seio morará”... E morará ali fazendo-a participante de suas penas, para que possa ser também de sua glória, como digna irmã e coherdeira sua (Rom 8, 17), que aspirando aos bens celestiais, vive desprendida e olvidada do terreno (Hebr 13, 14).

Esse voto nos liga de um modo especial ao Eterno Pai, que há de ser toda nossa herança e nosso prêmio sobremaneira grande (Gen 15, 1)… Assim os que sinceramente se ligam a Deus deixando tudo por Ele, lhes promete seu glorioso Reino para que desde aqui em baixo possam começar já em certo modo a gozá-lo, segundo aquelas palavras do Salvador: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5, 3; cf. S. Tomás, in: h. l.; e 1-2, q. 69, a. 2).

Não disse o divino Mestre que será, senão que já é, porque a alma que por amor de Deus renuncia a todos os bens deste mundo, e se desnuda em seu espírito de todo afeto terreno, já começa a gozar deste bem-aventurança, ficando mais e mais possuída do Espírito do Senhor, que irá reinando nela e embriagando-a nas torrentes de divinas delícias, a medida que a vê desprendida de si mesma e de todo o criado; e assim é que, não tendo nem desejando nada, vem a possuir tudo (II Cor 6, 10).

2º. Pelo voto de castidade se une muito especialmente ao Verbo divino, a quem em tudo e por tudo devem seguir as virgens; assim é como alcançarão possui-lo até o ponto de que possam comunicá-lo aos demais.

Dos puros de coração nos é dito que são bem-aventurados porque verão a Deus.

A alma pura sempre está em íntimo trato e comunicação com Aquele que é a própria pureza: o vê em todas as coisas, o vê vir até ela saltando montes e colinas, o sente próximo a si através do muro que d´Ele a separa, e por fim ouve sua doce voz que a chama, e ela o segue com toda a fidelidade (Jo 10, 27) e procura recreá-lo com amorosos cânticos (Ct 2, 8 17). Pois como diz São João (Ap 14, 3 4), os que assim vivem em perfeita pureza, seguem o Cordeiro aonde quer que vai e lhe cantam como um cântico novo. Já nesta mesma vida, há de segui-lo assim a alma virginal, cantando-lhe sempre uma nova canção, que não é outra que a do amor generoso que em cada coração acha uma nova maneira de sacrificar-se e entregar-se plenamente ao Amador divino. Assim do coração puro se está continuamente elevando a Deus, como coluna de incenso mais perfumado que o dos Magos, um cântico de ação de graças, de adoração e louvor, enquanto que incendiado no amor se oferece em perpétuo holocausto de imolações e mortificações.

E é tanto o que Deus se compraz neste cântico da alma pura, assim levantada sobre si mesma com o ardor do espírito de oração e de sacrifício de que está animada, que os Anjos mesmos, ou seja os amigos do divino Esposo ao vê-la subir do vazio deste mundo, se perguntam maravilhados (Ct 3,6): “Quem é essa que sobre do deserto como coluna de fumaça formada dos aromas de mirra e de incenso, e de todas as espécies aromáticas?”

De tanto valor é a pureza, tanto agrada a Deus e tanta eficácia tem para cativar e atrair corações, que N.P. São Domingos, que tão por experiência o sabia, ao morrer a recomendou com singular encarecimento a seus filhos, dizendo-lhes, que se essa virtude com todos esmero, a imitação sua, cultivassem, sem grandes esforços, com só o bom perfume de vida que lhes faria exalar, promoveriam de um modo maravilhoso os interessem de Nosso Senhor.

A alma pura é um jardim fechado e uma fonte selada, porque resolveu firmemente ser toda para Aquele que se recreia entre as açucenas. – Assim com grande instância o convida a vir a este místico jardim seu a recolher os frutos que mais lhe agradam, pois todos eles, novos e antigos, só para Ele os tem reservados. E Ele vem e recolhe antes de tudo mirra e aromas, para curar corações e logo convida a todos os famintos e sedentos de justiça a “comer e beber”  a cargo da mesma Esposa, convertendo-a assim em fonte de jardins e manancial de bênçãos, e em paraíso de delícias, cuja fragrância é saúde dos povos… (Ct 4, 12-15; 5, 1; 6, 1 2; 7, 13).

Eis aqui, pois, o místico incenso que devemos oferecer sempre ao Senhor com o espírito de continua oração, que é o que nos há de alcançar d´Ele todas as virtudes, e muito especialmente essa da perfeita pureza; e daí que entre tão variados e preciosos perfumes que exala a mística Esposa, em seus vestidos se note sobretudo um como do incenso (Ct 4, 11), enquanto seus lábios são um favo que destila… divinas doçuras.

3º. Pelo voto de obediência oferece a alma religiosa a Deus o que o homem tem maior estima, que é sua vontade, sujeitando-a por amor d´Ele a de Superiores que o representam. Com isso se entrega e dispõe a amá-lo como deve, com todas suas forças e todo seu coração (Deut 6, 5), e assim lhe oferece o puríssimo ouro de uma caridade ilibada.

Em troca desta subjeção amorosa adquire a verdadeira paz de Deus que supera todo sentido, a alegria do espírito e a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois pela obediência aos mandamentos, diz São Bernardo, se merecem as íntimas luzes e comunicações divinas, que são glória antecipada ; e no exato cumprimento de todas as palavras de vida, de todas as insinuações da vontade de Nosso Senhor está o sinal mais seguro de que em verdade o amamos; e com isso a condição por Ele reivindicada para nos enviar com toda segurança seu divino Espírito, de modo que cheguemos realmente a conhecê-lo em nós; que nisso precisamente se distinguirão dos mundanos, os fiéis discípulos da Verdade (Jo 14, 15-17).

Por esse voto se adquire, com efeito, a liberdade de espírito, compendiado no cumprimento do querer divino; o qual sempre é manifesto ao Religioso em todas as prescrições de sua Regra e ordens de seus Superiores. Deste modo, descansando neles, vai ao céu como nos braços dos outros, ou melhor dizendo, nas asas do divino amor; e assim bem pode dizer-se da alma entregue nas mãos da obediência (Ct 8, 5): “Quem é essa que sobe do deserto inundada de delícias; apoiada em seu Amado?…”

Assim é como, com o contínuo exercício de vencer-se a si mesmo, para seguir o parecer dos outros, logra romper os apegos terrenos e se faz dócil as moções divinas e apta a seguir fielmente as inspirações do alto; e deste modo é como se alcança aquela mística sabedoria que “nunca é vencida pela malícia”, e com que se ordena e aquilata a própria caridade (Ct 2, 4); e que porque é incomparavelmente mais preciosa que todos os tesouros do mundo, pois diante dela “todo ouro é como um grão de areia”. Pelo qual, com ela, vêm à alma “todos os bens e uma indizível honestidade”, que a faz alegrar-se em tudo… (Sb. 7, 9-30).

Por esse voto se põe, pois, a alma sob a contínua direção do Espírito Santo; que mora sempre nesta paz do Senhor, conseguida com as vitórias do perfeito obediente (Prov 21, 28). Assim temos que aprender muito bem a nos renunciar em tudo, e muito de verdade a nós mesmos, a nosso próprio juízo e querer, e mesmo aos nossos próprios métodos, indústrias, iniciativas e modos humanos na oração e fora dela, para ficar em tudo possuídos e governados do Divino Espírito, como o estão os fiéis filhos de Deus (Rom 8,14).

II TRÊS MANIFESTAÇÕES DE DEUS NA ALMA

A estes três místicos dons, ou estas doações que de si mesmo faz a Deus o bom religioso, correspondem três manifestações gloriosas do amor divino que o Eterno Pai nos faz a todos no seu Unigênito, e se comemoram neste solene dia. Todas elas têm aplicação na vida do cristão que, fiel à graça, caminha como deve ao cume da perfeição a que é chamado; mas a tem muito especial naquela dos bons religiosos.

A primeira destas manifestações teve lugar, segundo já dissemos, em Belém, onde os Anjos cantavam sobre a gruta do Divino Infante: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade”; e ali vieram com grande regozijo a adorá-lo os Pastores e os Magos.

E isto se verifica também, reproduzindo-se misteriosamente em toda alma cristã, quando no santo batismo renasce para a vida da graça, que é VIDA DIVINA, mediante a qual, de “filha da ira” se faz realmente filha de Deus e herdeira do céu, e é colocada no grêmio da Santa Mãe Igreja para ir crescendo sempre em santidade e justiça, conforme vai despojando-se do homem velho e vestindo-se do novo…

Assim recebe a paz do Senhor e com ela o penhor da bem-aventurança; da qual irá gozando na medida que, com o espírito de pobreza manifestado no Presépio, vaia merecendo a posse do reino prometido aos pobres de espirito.

A segunda Manifestação foi a verificada no Jordão quando, “batizado Jesus e posto em oração, segundo diz São Lucas (3, 21-22), se ouviu uma voz do céu que dizia: Tu és meu Filho muito amado, em Ti tenho todas as minhas complacências“.

E as tinha porque o Filho só se preocupava em cumprir em tudo o beneplácito de seu Eterno Pai, sendo seu alimento “fazer a vontade de Quem lhe enviou, para completar sua obra” (Jo 4, 34).

Este mistério se reproduz na alma quando, já feita em tudo conforme a Jesus Cristo em seus trabalhos e humilhações, despojada de si mesma e vestida d´Ele, mortificando-se e renunciando-se por amor d´Ele em tudo, não vive já sua própria vida, senão que vive “morta ao mundo e seu viver está escondido com Cristo em Deus” (Col 3, 3); e assim pode muito bem dizer já com o Discípulo Amado (I Jo 3, 22): “Quae sunt plácita coram eo facimus – Seu beneplácito cumprimos”…  E então é quando o Eterno Pai pode, por sua vez, repetir, como costuma fazer às almas que estão já para celebrar seu místico desposório: Esta é minha filha amada, em quem tenho minhas complacências…

Tal é o prodigioso amor do Eterno para com suas pobres criaturas, que depois de enchê-las de graças e favores, para configurá-las com seu Unigênito, chega ao extremo de manifestar a elas quanto lhe comprazem!… Assim vemos que fez com Santa Catarina de Sena e Santa Rosa de Lima… e com tantíssimas outras almas ditosas que, com a fiel correspondência à graça, satisfizeram os desígnios de Deus sobre elas.

A alma morta a tudo, já não é ela que age, senão Deus nela; e por isso suas obras são de um mérito infinito, pois são próprias do próprio Filho de Deus que nela e por ela age como por um verdadeiro membro seu.

Todos os cristãos, pelo mero fato de serem membros do Corpo místico, cuja cabeça é Cristo Jesus, estão chamados a participar desta íntima comunicação com Ele; e de fato chegariam a desfrutá-la mesmo nesta vida, se com efeito se dispusessem como convém, que é renunciando-se, mortificando-se e entregando-se a morrer misticamente com Cristo e por Cristo,para que a vida de Jesus Cristo se manifeste, como diz o Apóstolo (II Cor 4, 11) em nossa carne mortal”.

Por isso, ao dizer Nosso Senhor: Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito– a ninguém excluiu, a todos os fiéis cristãos se dirigia; e assim vemos que de fato em todos os estados e condições há santos, e sempre haverá, para confusão dos que não se esforçam para o ser; pois não o é por falta de graças nem de convites, senão por própria culpa.

Mas para chegar a ser objeto das divinas complacências é necessário passar com Jesus longo tempo no místico deserto, e ali sofrer as terríveis purgações e provações da noite do espírito, onde, como diz São João da Cruz, se acrisola a alma e se livra de todas suas imperfeições até ficar completamente renovada e tornada como uma nova criatura em Jesus Cristo.

A terceira manifestação é feita nas bodas de Caná, quando pelos rogos de sua Santíssima Mãe, começou Jesus a mostrar o poder recebido de seu Eterno Pai, transformando a água em vinho.

Assim pode transformar, e transforma com a virtude de seu Espírito, os corações terrenos em celestiais, e faz de vis criaturas dignos filhos de Deus.

E isso tem lugar quando, por mediação de Maria, consumadas as almas na caridade, ficam trocadas e dispostas para celebrar suas místicas bodas com o Divino Verbo, ratificando as promessas feitas no Batismo e levando a sua plena expansão as graças ali recebidas. Neste espiritual matrimônio é a alma, segundo São João da Cruz, confirmada na graça e feita para sempre um só espírito com Deus.  Pois assim como no desposório humano se fazem os contratantes “uma mesma carne”, assim neste divino consórcio ficam as almas deificadas e feitas uma mesma coisa, “um mesmo espírito” com Cristo (I Cor 6, 17), participando de todos seus bens e de todos seus trabalhos e sofrimentos. Pois como predestinadas por Deus a ser em tudo “conformes a imagem de seu Unigênito” (Rom 8, 29), “nessa divina imagem vão sendo transformadas de claridade em claridade, como por obra do Espírito do Senhor” (II Cor 3, 18).

Mas para poder ficar assim com Ele glorificadas, devem também padecer com Ele (II Cor 3, 18), e por isso, as suas fidelíssimas Esposas tem que as fazer participantes de todas suas penas, associando-as à obra da redenção, expiação e reparação que Ele veio realizar na terra, visitando-nos com entranhas de misericórdia para encher-nos de bênçãos e graças.

Deste modo, associada a Ele, fica a alma toda deificada, e suas próprias obras, que antes valiam menos que água, enchendo toda a capacidade das potências ou vasos espirituais, se convertem em vinho generoso, capaz de causar místicas embriaguezes em Jesus e em sus amigos (Ct 5, 1).

Mas esse milagre há de se realizar pelos rogos de Maria Imaculada, que prepara esta mística transformação dos corações virginais no de Jesus, e faz que o acompanhem a todas as partes, como desde Caná o acompanhou sempre até o Tabor e até o Getsêmani e o Calvário, o Discípulo Amado…

O Calvário é o monte de mirra (Ct 4, 6), próximo a colina de incenso, aonde com tanta frequência costuma ir visitar aos escolhidos de seu coração para celebrar com suas almas as místicas bodas.

III O DIVINO DESPOSÓRIO

Por Oséias (2, 19-20) nos disse o Senhor a todos: “Te desposarei comigo para sempre; e te desposarei comigo na Justiça e no Juízo, e na misericórdia e na compaixão. E te desposarei comigo na fé, e saberás que Eu sou o Senhor“.

Se desposa a alma com Ele na justiça, para amá-la e praticá-la a imitação sua, procedendo santamente em sua presença, aborrecendo de coração os caminhos da maldade e andando sempre firme nos caminhos de sua santa lei. Por isso, com grande resolução lhe jura uma e mil vezes (Sl. 118, 106) adorar e guardar os juízos da divina justiça. Assim desposada com Ele na verdade, n´Ele vai transformando-se por amor, e assim vem a participar dos divinos atributos, tanto da justiça como da misericórdia; e deste modo pelo dom da sabedoria, que a faz experimentar e saber por experiência quem é Deus, chega a julgar em tudo como Deus, a quem tão unida e identificada está…

Por isso, os Santos, a imitação de Jesus, e por participação sua, salvam e julgam o mundo (I Cor 6, 2); pois com seu exemplo edificam, exalando o bom perfume de Cristo e fazendo que se difunda a virtude; e mostrando como ela pode se praticar apesar de todos os pesares, iluminam e animam os outros com seu exemplo, e ao mesmo tempo deixam sem desculpa aqueles que a ignoram, e fechando os olhos à luz, se obstinam no mal…

E aos que, não contentes com os preceitos divinos, se obrigam com voto a guardar os três grandes conselhos opostos às três grandes concupiscências que transtornam o mundo e o põe sob o poder do maligno, a eles diz além do mais: “Vós vos sentareis em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel“, expressando pelo número doze toda a plenitude; pois essas palavras, dizem os Santos Padres, não se entendem tão somente aos Apóstolos, senão também a todos os que à sua imitação renunciam a tudo e de tudo se despojam por amor a Jesus, a fim de poder segui-lo mais de perto.

Mas ao mesmo tempo que em união com Ele julgam, com Ele também exercem a misericórdia e a compaixão, compadecendo-se de todas as necessidades, sobretudo espirituais, dos próximos, e oferecendo-se por amor deles a todo tipo de trabalhos, expiações e sacrifícios… Assim tão logo a alma esposa vai sendo objeto das divinas complacências, é convidada pelo divino Esposo a ganhar-se esta coroa de misericórdia e das obras de zelo, acompanhando-o misticamente a salvar e socorrer e consolar as almas necessitadas (Ct 4, 7-8; 5, 2). E quando já está perfeita, ela mesma se adianta às vezes dizendo-lhe (Ct 7, 11 12): “Vem, Amado meu, saiamos ao campo…vejamos se floresceu a vinha… ali te mostrarei meu amor…” Pois assim, com efeito, lhe mostra o incendido amor que lhe tem, velando continuamente e desvelando-se pelos interesses de toda a Cristandade, pois se abrasa de zelo pela glória de Deus e salvação dos próximos.

É assim como guardará a fé inquebrantável e ficará ratificado para sempre o desposório na fé, isto é, na fidelidade e na confiança generosa que não repara em trabalhos nem em provações, nem em privações para agradar ao Amado e fazer que todos o amem… Esta amorosa confiança e confiante abandono nas disposições divinas mostra a alma quando, crendo de coração no mesmo Amor que a crucifica, se entrega nas mãos do divino Artífice para que a trabalhe, lapide, lavre e acrisole a seu gosto; e assim permanece firme nas obscuridade, securas, ausências, desamparos e abandonos, etc., a que é submetida, dizendo-lhe (Sl 22, 4): “Ainda que passasse no meio das sombras da norte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo“.

D´Ele se fia, por completo, esperando milhares de vezes contra toda esperança, e assim lhe mostra sua fé, não só na fidelidade com que guarda sua lei e cumpre todos os próprios deveres, senão também com diz São João da Cruz (Noche. II, 21), “caminhando em trevas e apertos interiores, não lhe dando seu entendimento alívio algum de luz, nem do alto, pois lhe parecia o céu fechado e Deus escondido, nem de baixo pois os que a ensinavam não a satisfaziam. Sofreu com constância, e perseverou passando por aqueles trabalhos sem desfalecer e faltar ao Amado; o qual nos trabalhos e tribulações prova a fé de sua Esposa, de maneira que possa ela, de verdade, dizer aquilo dito de Davi: Pelas palavras de teus lábios guardei caminhos duros (Sl 16, 4)”.

Assim confiando na divina bondade e misericórdia, completa a fé com a firme esperança e a insuperável caridade, que é o vínculo de perfeição.

E quando já purificada de seus defeitos e imperfeições, aparece adornada com o esplendor de todas as virtudes, e especialmente das teologais, e dos sete dons do Espírito Santo, e assim feita como uma viva imagem de Maria e configurada com o Verbo divino, é quando a alma, numa portentosa manifestação da Santíssima Trindade, chega a conhecer quem é aquele grande Deus com que se desposa (Jo 14, 17 21)…; e então, abrasada no amor do Sumo Bem, se ratifica para sempre esse místico Desposório.

 Frei Juan G. ARINTERO, O. P.