“Eu te quero para minha Igreja”

Madre Maria de Betânia

Nelly Béghian

(1901-1945)

Helena, ou melhor Nelly, porque por este diminutivo ela era conhecida, nasceu em Alexandria, no Egito em 19 de maio de 1901, seu pai era Mihran-Lazare Béghian, de rito armeno-católico e sua mãe Anastasie Macrocordatou, greco-católica.

Beato Inácio Maloyan

Ela foi batizada no sábado em 19 de junho do mesmo ano pelo Beato Inácio Maloyan, que se tornou em seguida bispo armeno e recebeu o martírio durante o terrível genocídio armeno, sendo beatificado por S. João Paulo II em 2001.

Nelly foi educada na religião católica de seu pai, sendo educada pelas religiosas da Congregação da Mãe de Deus. Já na infância, sente um primeiro apelo a consagrar-se a Deus.

Longo foi o processo de amadurecimento de sua vocação, assim como de discernimento de onde Nosso Senhor a chamava. Atraída inicialmente pela Vida Contemplativa, sonha com o Carmelo, depois pensa nas Clarissas. Teme-se a vida contemplativa para uma pessoa com saúde tão frágil, além do mais, sua mãe será forte opositora de sua vocação.

 Por fim, após um retiro feito no Cairo no Convento das Religiosas de Maria Reparadora, pedi auxilio ao sacerdote comboniano Padre Stefanini que lhe dirá: “Entrarás na Mãe de Deus, vós sereis primeiro como as outras, depois virá um tempo onde Nosso Senhor vos mostrará o que ele espera de vós e então vós respondereis a seu amor”

Mons. Olier

Entrará portanto na Congregação da Mãe de Deus, onde foi formada e educada a jovem Nelly,  entrará em 1920, recebendo o nome de Madre Maria de Betânia, ela fará sua profissão perpétua em 30 de setembro de 1920 no Cairo. Essa Congregação teve sua origem no século XVII, com o famosíssimo Mons. Jean Jacques Olier e Madeleine Leschassier, que permanecendo leiga, iniciou uma obra para crianças desfavorecidas. Este grupo de “irmãs” foi dispersado durante a borrasca revolucionaria. Em 1806, Madame Lézeau, visitandina expulsa de seu convento pela Revolução francesa, reagrupa as “irmãs” para acolher as crianças. Ela funda assim a Congregação, nutrida pela mesma seiva. A espiritualidade mariana do Mons Olier, podemos ver refletida nesta sua famosa oração “Ó Jesus, que viveis em Maria” – oração amada por S. Luís Maria de Montfort que a cita nominalmente no Tratado da Verdadeira Devoção:

Ó Jesus, que viveis em Maria, vinde e vivei em vossos servos, no espírito de vossa santidade, na plenitude de vossa força, na perfeição de vossas vias, na verdade de vossas virtudes, na comunhão de vossos mistérios; dominai sobre toda a potestade inimiga, em vosso espírito para a glória do Pai. Amem.

Obra do Amor Infinito

Venerável Madre Luísa Margarida

Um momento decisivo na descoberta de sua missão especifica foi a descoberta e sua entrada na Obra do Amor infinito, por meio desta obra conhecerá a vida e os escritos da Venerável Madre Luísa Margarida Claret de la Touche. Também Madre Maria de Betânia sente esta missão sacerdotal – de rezar e oferecer-se pela santificação dos sacerdotes. Ela por toda sua vida sentirá uma grande afinidade com a Madre Luísa Margarida.

Em 08 de dezembro de 1938, fará o Ato de Doação ao Amor Infinito. Ela será a alma do grupo dos Amigos de Betânia, em Alexandria, promovendo por meio de encontros, da Adoração e de folhetos a espiritualidade da Obra do Amor Infinito. Seu sonho será a fundação de uma casa da Betânia do Sagrado Coração, em Alexandrina.

Maria Santíssima e os sacerdotes

Mas, a missão sacerdotal de Maria de Betânia, terá certamente uma especial matiz mariana. Em 30 de novembro de 1941, escreve: “Na oração, eu senti refugiada no seio de Maria e senti de uma maneira inefável os vínculos de amor que me ligam à minha mãe. A Santíssima Virgem me disse: “Eu quero te fazer sentir minha ternura… por ti, eu quero manifestar a ternura do meu Coração maternal aos meus sacerdotes… tu és filha da Mãe de Deus, é a ti que cabe dizer-lhe como eu os amo. Madre Luísa Margarida teve por missão especial manifestar aos sacerdotes a sublime ternura do Coração de Meu Filho, a ti  manifestar a ternura do Coração de Sua Mãe. Dizei-lhes que eu os espero no meu seio maternal onde eu desejo envolvê-los na minha ternura. É aí que eles tomarão como numa fonte fecunda tesouros de graça e de misericórdia para eles e para as almas“.

 “Quem poderá dizer os vínculos misteriosos que ligam o sacerdote à Maria?“, escreverá Maria de Betânia. Ela receberá muitas luzes  sobre estes misteriosos vínculos de amor entre Maria Santíssima e o Sacerdote. Assim surgiu  o opúsculo por ela escrito e intitulado Regina Cleri.  Eis algumas citações desta pequena obra prima.

MARIA, MÃE DOS SACERDOTES E MÃE DE MISERICÓRDIA

“Ó, Sacerdote de Cristo, qualquer que seja teu estado de alma, entrega-te ao amor de Maria; não temas, lança-te nos seus braços maternais e deixa-te envolver por sua misericordiosa ternura. Tua divina Mãe te acalmará, te dará confiança e te conduzirá ao Coração de Jesus (…)”

MARIA, MÃE DOS SACERDOTES

“Esta divina Mãe, formando seu Jesus, nos formava todos n´Ele, seu Primogênito. Com efeito, por Ela, o Espírito Santo nos comunica a vida do Pai e nos faz filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo; nos encontramos assim unidos a Maria por vínculos inefáveis. Mas se Maria é Mãe de todos os homens, Ela é, de um modo especial, Mãe dos Sacerdotes (…)”

AMA TUA MÃE

(…) “Ama tua Mãe, ó Sacerdote de Cristo. Mais estarás unido a Ela, mais comungarás das disposições de Jesus e de Maria, mais a Vida divina fluirá em tu, mais poderás derramá-la nas almas, mas serás redentor com eles.

Ama as almas com o Coração de Jesus e o Coração de Maria (…)”

EIS AÍ TEU FILHO

(…) “Eis aí teu Filho”, diz ainda Jesus à sua Mãe em cada Missa que se celebra, mostrando-lhe o sacerdote que consagra e que continua o sacrifício do Calvário. Encontrará Maria verdadeiramente em cada um deles os traços de seu divino Filho?

EIS AÍ TUA MÃE

(…) “Ó meu Sacerdote, sejas para Ela um verdadeiro filho: proteja sua honra, mantenha seus privilégios, revele às almas sua misericórdia e sua ternura; dizei-lhes que Ela é verdadeiramente sua Mãe; e tu, como verdadeiro filho, recorda-te que tu me substituis junto a Ela e permita-Me amá-La ainda por ti. Amai-A e fazei-A amar; fazei-A conhecer e apreciar; e eu te darei a vida eterna”.

“Ó Sacerdote de Cristo, em nome de Jesus Crucificado, repeti ao mundo, mostrando Maria: “Eis aí tua Mãe”.

Sua vida Mística

Cada vez mais, o bom Deus a vai conduzindo e sua vida mística vai se aprofundando, sob o olhar prudentíssimo de seu diretor espiritual, o franciscano Padre Nazzareno Jacopozzi. Profunda vida de oração e imolação, vivida numa congregação de vida ativa, de missão educativa, um tempo turbulento, como foram os anos da Segunda Guerra mundial.

Alma profundamente eucarística, passará inúmeras noites em vigília orante unida a Nosso Senhor e a sua Paixão. Em 29 de junho de 1944, escreverá: “Às onze horas, fui acordada do mais profundo sono, e compreendi que Nosso Senhor pedia oração e reparação na véspera desta festa.. Uma segunda vez, recebi estas palavras: ‘Eu te quero para minha Igreja“, depois: ‘Eu sou o Mestre, teus dias e tuas noites me pertencem‘. 

E cada vez sua vocação sacerdotal vai se aprofundando. Em 19 de junho de 1943, ela se sente invadida pela presença de Deus e entende estas palavras: “Eu te marco vítima pelo meu sacerdócio“. Assim escreve: “Eu senti Jesus, Pontífice Supremo, imprimir em mim seu selo pela unção de seu Espírito Santo e tomar uma posse especial de mim”.

Sua vida vai se consumindo pouco a pouco no Amor, no oferecimento de sua vida pela Igreja e pelos sacerdote. Em 22 de maio, apenas alguns meses, ela escreve assim: “Nosso Senhor me comunicou seu desejo de dar a vida às almas e especialmente aos sacerdotes, a vida que é seu Espírito, a vida que é dada por Maria… Depois, de repente, eu recebi estas palavras: “A vida jorra da morte. Pela morte, se vai à vida”. E vi que é preciso vítimas… Morrer, sim morrer todos os dias, pela imolação de todos instantes; dar sua vida cedo ou tarde, mas dá-la inteiramente; morrer de qualquer forma…

Em 26 de outubro de 1945, Maria de Betânia consumará sua oferenda, e encontrará seu Esposo, o Sacerdote Eterno. Em 1957, seu processo  de beatificação é aberto no Cairo.


Zanariri, Gaston. Marie de Bethanie. Nelly Beghian 1901-1945. Ed. P. Lethielleux. Paaris. 1970.