A Semana Santa de uma mística Passionista

Venerável Madre Madalena de Jesus Sacramentado, CP

Em 03 de Abril de 1923, a Venerável Madre Madalena de Jesus Sacramentado, escreveu uma longa carta ao seu diretor espiritual o Servo de Deus Padre Arintero, contando-lhe as graças e luzes recebidas durante a Semana Santa deste Ano. Apresentamos aqui para nossa meditação uma seleção de trechos desta belíssima carta.


AS DUAS PAIXÕES DE JESUS E MARIA

“As almas que resistem ao amor, ou o rejeitam, merecem o castigo dos rebeldes do amor: o abandono... Mas essa palavra de abandono é tão oposta ao amor, que Jesus a tomou para si, ficando desamparado na Cruz, para não abandonar as almas que, de tantos modos, busca e persegue.

Eu dizia a Jesus, que igual a Maria Santíssima, queria acompanhá-lo em perseguir as almas e atraí-las a seu amor, e se fosse necessário, me oferecia a padecer com Ele as dores de sua Paixão.

Em Jesus e Maria, há duas Paixões que os atormentam: a do Calvário e a do Amor rejeitado. Acompanhemo-nos, Padre, nas duas, pois não sei qual é a mais penosa ao Coração de Jesus. Me parece que essa última, porque de bom grado Jesus aceitaria o Calvário outra vez para que triunfasse seu Amor.

Nestas duas Paixões que padece me sinto chamado a acompanhá-lo. E assim lhe prometi nos dias de que estou falando. A Paixão do Calvário me chama minha profissão; a do amor desconhecido e desprezado, me convida com uma especial vocação que, se não posso cumprir sobre a terra, a cumprirei no Céu.

Ó, Amor, tão próximo do homem, e ele não te conhece!

NOITE DE QUINTA PARA SEXTA-FEIRA SANTA

“Ó, que noite é esta para as passionistas! A Madre Josefa [1] a chamava “noite de graça, noite preciosa”. E, de verdade, Padre, em virtude do voto, que fazemos, peculiar nosso, de propagar ou promover nos corações do fiéis, começando pelo próprio, a devoção a Paixão Santíssima de Jesus Cristo, temos uma graça especial do Senhor para penetrar nestes mistérios profundos de amor e tirar água abundantemente das fontes do Salvador, que são suas chagas adoráveis e derramá-la em todos”.

DIA DE GLÓRIA E DO TRIUNFO DO AMOR

“Sexta-feira Santa, dia dos grandes mistérios para todos, em especial para uma esposa de Jesus Crucificado, para uma filha da Paixão. O silêncio é o que mais diz neste dia de dor. Queria também chamá-lo dia de glória e do triunfo do amor; mas…, com estas palavras, ao mesmo tempo a dor mais profunda enche minha alma, quase temo renovar para Jesus a recordação da dor que mais o afligiu na sua Paixão: o triunfo do amor não foi completo!

Jesus queria ter todos os corações e lhes deu até a última gota de seu precioso Sangue. Mais não podia fazer…; mas não conseguiu. “Quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”, disse. Estas eram suas esperanças, com isso se consolava quando vertia seu divino Sangue. Mas essa chama divina, que devia ser fogo para incendiar as almas e conseguir o fim pelo qual veio a terra, foi por muitos rejeitada, e voltou para atormentar Aquele de onde saía e lhe deu a morte, a amarga morte sobre a Cruz, e continua lhe dando na sua mística morte sobre o altar.

Pobre Jesus! Mas consola-te, meu coração é teu, e será sempre teu; o moldastes para ti. Nele teu amor triunfou por completo. De todas suas pulsações sois o Dono absoluto”.  

CONTEMPLANDO A SOLIDÃO DE MARIA

“Olhava minha Mãe com Jesus morte nos braços, como a representava um quatro que tínhamos na frente. Ao ver Maria Santíssima, doce imã dos corações, o Senhor me fez sentir um pouco de ternura. Conheci assim quanto o Senhor gosta que por sua Mãe Santíssima as almas sintam terno amor, quando Ele se esconde um pouco das mesmas.

É a Mãe que ajuda a pequenina filha Madalena e a ensina a dar os primeiros passos no caminho que há de conduzir ao topo do monte, ao deserto interior, onde desaparecendo da vista todo o sensível e humano, se poderá comunicar a ela em toda plenitude. Aquele pelo qual tanto suspira sua pobre alma. Solidão do espírito, despojamento e isolamento de todo sensível e humano, caminho de fé e completo abandono, eis aqui o que suavemente vai pedindo à sua pobre esposa o Esposo Divino”.


[1]  Madre Josefa do Coração de Jesus Armellini (1850-1921) foi a Fundadora do Mosteiro de Monjas Passionistas de Lucca, pedido por Nosso Senhor a Santa Gema Galgani. Ela foi uma alma contemplativa, unida a intimamente a Paixão de Nosso Senhor, e uma das maiores influências espirituais da vida da Venerável Madre Madalena, que escreveu dela mesmo uma biografia intitulada “Uma amiga de Santa Gema”.


Cf. ‘Hacia las cumbres de la unión con Dios’. Correspondencia entre al P. Arintero y J. Pastor, pg. 94-99.