“Tu és luz, Senhor, que tudo ilumina. Tu és fulgor”

Beata Benedetta Bianchi Porro (1936 – 1964)

HOJE,  dia 14 de setembro de 2019, foi beatificada a Venerável Benedetta Bianchi Porro (1936 – 1964), jovem cheia de vida e de luz, cujo sonho foi se tornar médica.

Sua vida foi marcada pela enfermidade, pela dor, pela Cruz. Os graves sintomas da surdez e da imobilidade se tornam cada vez piores durante a faculdade, diante da perplexidade dos médicos. E será ela mesma durante seus estudos a descobrir sua enfermidade: neurofibroma difuso ou doença de Von Recklinghausen.

Jesus a conduz a escola do Calvário, para ensiná-la a Sabedoria da Cruz. A doença progride, diminuindo progressivamente sua capacidade motora, mesmo a tornando cega. Mas também progredia sua intimidade com Deus, sua vida interior ia se tornando mais profunda. “Te direi que nestes dias me sinto freqüentemente cheia do Espírito Santo“, dirá.

O Mistério da Cruz é cheio de luz, para aqueles que tem fé. Benedetta dirá: “A Cruz é o sentido de tudo”, dirá ela.

O sofrimento ao invés de fechá-la em si mesma, a abre para Deus e para os irmãos. A Cruz é verdadeira escola da caridade. Assim, alguns meses antes de sua morte, em 1963, toma conhecimento, através da leitura “pelas mãos” que sua mãe lhe faz – ela já não ouve nem vê mais – de uma carta publicada numa revista de então, do sofrimento de um jovem chamado Natalino Diolaiti, e resolve escrever para ajudá-lo. Transcrevemos esta carta integralmente, porque nela podemos ver a dor e a luz de Benedetta:

 “Querido Natalino,

Na revista “Época” foi publicada uma carta sua. Através das mãos, mamãe leu-a para mim. Estou surda e cega, portanto, para mim a coisa se torna bastante difícil.

Como você, tenho também vinte e seis anos, e estou enferma há tempos. Uma doença atrofiou-me toda quando estava para concluir meus estudos; estava para me formar em medicina em Milão. Eu acusava uma surdez que os próprios médicos custavam a acreditar. Então eu continuava assim sem ser ouvida, mergulhada nos estudos, que amada desesperadamente. Aos dezessete anos, já estava matriculada na Universidade.

Depois, com a doença, tive de interromper completamente, quando estava quase no fim do curso, na época de minha última prova. A formatura quase alcançada só me serviu para fazer meu próprio diagnóstico, pois até então ninguém tinha entendido do que se tratava.

Há três meses, eu ainda tinha visão; agora, é noite. Porém, em meu calvário, não estou desesperada. Sei que no fim do caminho Jesus espera por mim.

Antes na cadeira, agora na cama, que é a minha morada, encontrei uma sabedoria maior do que a dos homens. Descobri que Deus existe e é amor, fidelidade, alegria, certeza, até a consumação dos séculos.

Muito em breve, nada mais serei do que um nome, mas meu espírito viverá aqui entre os meus, entre aqueles que sofrem, e eu mesma não terei sofrido em vão.

E você, Natalino, não se sinta sozinho, nunca! Prossiga serenamente na caminhada do tempo e receberá luz, verdade: o caminho no qual existe a verdadeira justiça, que não é a dos homens, mas a que só Deus pode dar.

Os meus dias não são fáceis; são duros, mas doces, porque Jesus está comigo, com o meu sofrer, e me dá suavidade na solidão e luz na escuridão. Ele me sorri e aceita minha cooperação com a sua Providência.

Adeus, Natalino, a vida é breve e passa rapidamente. Tudo é uma brevíssima passarela, perigosa para quem quer gozar desenfreadamente, mas segura para quem coopera com ele para chegar a Pátria.

Receba meu abraço. Sua irmã em Cristo,

Benedetta[1]

Benedetta vinte dias antes de sua morte.

Vive agora na espera do Senhor! A Cruz é semente de ressurreição. Assim, em novembro de 1963, escreverá ao Padre Gabriel Casolari:

“Gosto de lembrar uma frase de São Francisco: “Tal é o bem que eu aguardo que toda pena é-me encanto! Como são verdadeiras as palavras “Deus dá a cruz e depois da cruz, a ressurreição!” Em cada provação, ele olha para nós, fala-nos, consola-nos. E eu penso que tudo é como a primavera que desabrocha, refloresce, emana perfume depois do frio e do gelo do inverno![2]

Ela encontrará a Primavera depois do inferno, a ressurreição depois da cruz, em 23 de janeiro de 1964. Finalmente, se encontra definitivamente com quem tanto ama e quem tanto esperava: Cristo Jesus!

José Eduardo Câmara


[1] Além do Silêncio. Diário e Cartas de Benedetta Bianchi Porro. Loyola: São Paulo. 1986, pg. 70-71.

[2] Ib. p. 69.