Traços do “Colóquio interior”[1] de Irmã Maria da Trindade

“Viver a vida eucarística”


Agradecemos sinceramente a um amigo do CLAUSTRUM pela contribuição generosa na tradução deste interessantíssimo texto sobre a espiritualidade da Irmã Maria da Trindade.


  1. O horizonte trinitário: uma premissa importante
  2. Um sumo grau de disponibilidade
  3. “Viver a minha vida eucarística”
  4. “Vencendo o mal com o bem”
  5. “Peço quatro coisas!”
  6. Os frutos
  7. “Do que temes? Do que tens medo?”

  1. O horizonte trinitário: uma premissa importante

É importante – diria fundamental – nutrir uma santa teologia na cabeça, no coração, na vida, senão nos arriscamos de fazer um “deus” sob medida, que não existe, que é seguramente mais feio que o Deus vivo e verdadeiro da Revelação bíblica.  Pe. Maurício Zundel – que guiou Irmã Maria da Trindade nos momentos mais decisivos da sua vocação – dizia com frequência: “Não falemos muito de Deus, nos arriscamos de arruiná-lo!”

Falar de vítima, de sacrifício – vocábulos já esquecidos ou removidos pelas gerações do terceiro milênio – é arriscado, se não se compreendem no mistério de Deus. Não só e não tanto, ou seja, no mistério da economia da salvação (o Filho de Deus que se oferece como vítima “por nós e pela nossa salvação”, como recita o Credo), mas no mistério do Ser mesmo de Deus como Trindade de Amor.

Como explicou numa maneira límpida, Maria Campatelli[2], num congresso do Centro Aletti, o significado de sacrifício é descoberto. É necessário fazer um trabalho de purificação, de têmpera, de re-compreensão, revelação do significado de sacrifício, de vítima. Vítimas do vitimismo ou eternos fugitivos em mundos que negam o sofrimento, o risco maior é de não encontrar um Tesouro! Tesouro de entrar no segredo de Deus.

Partamos do fundamento: “Deus é Amor”. Deus é com total. O Pai é tal enquanto gera o Filho e o Filho é tal enquanto é gerado constantemente pelo Pai. O dom do amor reciproco totalmente dado, totalmente Deus, é o Espírito Santo.

Deus é DOM. Também no “Colóquio interior” encontramos:

“Sim, sou eu que te falo embora tu duvides disso;

– Dom, dom e perdão, – grandeza e vida.

Não há nada que eu não dê ao meu Pai

Eu não reservo nada para mim[3]

“Eu não tenho nada que não seja para o Meu Pai e do Meu Pai.

O Pai não tem nada que não seja Meu.

O Espírito Santo não tem nada que não Nos dê e Nos transmita,

E comunica a todos aqueles que querem recebe-lo …

Não tenhais nada de vosso que não seja igualmente de cada uma das vossas irmãs:

Pobreza e amor”[4].

“Eu não sou um grau de grandeza. Eu sou o amor[5].

“Filhinha minha que te diz a Santíssima Trindade, o entendes?

Deus é DOM, – DOM, – DOM, – Deus é UNIÃO…”[6]

A forma original do amor é este esvaziar-se pelo outro, afim de que o outro seja[7]. A kenosis, o esvaziar-se total, incessante, é já na Trindade, antes é a Trindade.

Maria Campatelli explica bem e com simplicidade o nexo entre o amor-dom e o sacrifício: “O sacrifício, o dar é dinâmica do amor. Tanto é verdade que Bulgakov diz que a cruz é o símbolo não só da nossa redenção, mas também da vida da Santíssima Trindade. Deus não nos podia recuperar numa maneira diferente daquele que Ele é, com o amor. Por isso há a cruz: a cruz – se poderia dizer – está dentro da Trindade, porque é a maneira de viver de Deus. Bulgakov escreve que o Gólgota é sim um evento histórico, mas é também a substância metafísica da criação, porque o dar, a kenosis está em Deus, na sua própria vida, na vida mesma da Trindade[8].” Este dom total, absoluto, é ontológico, teológico. Existe antes do pecado! “Existe uma dimensão do sacrifício, antes do mal e do pecado”[9].

A cruz não é um acidente: é a forma do amor. É muito belo e muito forte. Repito M. Campatelli: “A cruz é o símbolo não só da nossa redenção, mas também da vida da Santíssima Trindade. Deus não nos podia recuperar de uma maneira diferente daquele que Ele é, com o amor.

Por isso há a cruz: a cruz – se poderia dizer – está dentro da Trindade, porque é o modo de viver de Deus.

É a forma do amor do Filho de Deus, o seu doar-se eternamente e pela eternidade é assim. “A cruz está dentro da Trindade, é a maneira de viver de Deus”. Esta consciência faz uma reviravolta na consciência que nós temos da cruz: a cruz é o modo de viver de Deus, a face, a forma do seu doar-se até o fim. A forma do Amor pleno, total, eterno.

“O amor é esta kenosis e esta bem-aventurança, porque através da renúncia, do dar tudo, eu encontro a mim mesmo no outro. O sacrifício no sentido doloroso, sanguinolento, como o compreendemos, na Trindade não há. Quando se torna doloroso? Na história dos homens, assinalada pelo pecado, onde esta lógica é oposta e então o dom encontra rejeição”[10].

É dor quando há rejeição do dom. quando o doar-se é rejeitado, há dor e a cruz pesa. Quando o dom não é acolhido, torna-se dor. Uma mãe, um pai, amando se diz que se sacrificam pelos filhos, mas é uma expressão do amor deles, de dar-lhes a vida. Quando este amor não é acolhido, não é compreendido… eis a dor maior.

Esta premissa, este horizonte, é fundamental para entrar no nosso tema. Sem isso corremos o risco de um vitimismo que não serve para nada e ofende a Deus, ofende o seu dom, ofende a sua imagem que somos nós.


2. Um sumo grau de disponibilidade

Tomemos emprestado a explicação do voto de vítima de um grande teólogo do século 19, Hans Urs Von Balthasar. No seu prefácio à terceira edição francesa[11] do Colóquio Interior, sintetiza três temas que deduz do livro[12], três pontos para ele indicam a sua atualidade. Como terceiro ponto fala do voto de vítima, e escreve:

“Não se trata de alcançar um vértice na participação voluntária à paixão expiadora, mas um grau sumo de disponibilidade e de não resistência a todas as decisões de Deus. O homem não faz o voto (como alguma vez ocorreu) de “escolher sempre o mais perfeito”, mas de deixar sempre se cumpra (é o sentido do Fiat de Maria) aquilo que Deus quer, e que é naturalmente o mais perfeito” (pp. 10-11).

“Um sumo grau de disponibilidade e de não resistência a todas as decisões de Deus”: parece-me a mais bela e reta definição deste “voto”: “um grau sumo de disponibilidade e de não resistência”. Não é uma conquista heroica de quem sabe qual expiação. “É o sentido do faça-se de Maria”. Olha a Virgem Maria e compreende… Maria Campatelli diria: “A vida de Deus recebida in dom tem como resposta a oferta da entrega da própria vida”.

Disponibilidade e não resistência, então… mas a que? A quem? Quem? O texto precisa: “A tudo aquilo que ocorre, a todas as decisões de Deus”. Ressoa como eco esta frase do Colóquio:

“Ama tudo, tudo aquilo que não é inimigo da minha ação, –  e, em tudo aquilo que te acontece, ama a minha vontade escondida, e que procura atrair-te para mais próximo a mim.”[13]

Aquilo que acontece: na vida, no quotidiano, o previsto e o imprevisto, a alegria e a dor, o sorriso, o sucesso, mas também a desilusão, a contrariedade, a falência. Tudo aquilo que acontece. Não o decides tu: acontece. Não deves buscar “algo”: acontece. É o mesmo modo com que Jesus, Filho de Deus, a vida e também a oferece[14].

O caminho da Encarnação do Filho de Deus não foi projetado num escritório no sentido da Trindade, escolhendo o que viver, prevendo, censurando… o vir do Filho de Deus no mundo comportou entrar no mundo assim como era, com aquele decreto de César Augusto, com aquele recenseamento, aqueles pastores, aquele Herodes, aqueles belemitas, que não tinha lugar na hospedaria…aqueles pescadores, aquela mulher pagã de Tiro que move Jesus a saciar também quem não é da casa de Israel… e assim vai… O nosso é um Deus que faz chover sobre os justos e sobre os injustos, que faz crescer o joio com o trigo…a vontade do Pai vem ao encontro de Jesus na vida concreta, assim como é assim a acolhe: “Bendigo-vos, Pai, porque assim é do vosso agrado” (Mt 11, 25). ASSIM! A VÓS!

Nós procuramos sempre “um outro” para oferecer a Deus. Não: isto que tens próximo de ti, ao alcance da sua mão, esta tua vizinha, esta tua colega, esta tua irmã, esta tua alegria, esta dor, esta rejeição, esta incompreensão, esta dor de barriga… Não somos nós a fazer algo, não somos nós a salvar o mundo. Deixa que Deus cumpra, também através de nós.

E se o deixássemos fazer de verdade? Se escolhêssemos instante por instante este seu modo de vir ao nosso encontro, onde nos leva? Aprende este “estar” de Deus no mundo, este modo de amar de Deus… significa aprender que a medida desta disponibilidade e de não resistência nos pode levar ali onde Ele passou, sobre o caminho de Jesus… até compreender – como escriva Maria Campatelli – que “Cristo, em virtude desta vida, que é vida de comunhão, consegue atravessar o mal, a traição a morte e as transfigura num sacrifício de amor e de comunhão”[15].

Este é o segredo da Cruz, do sacrifício de Jesus: atravessar o mal, a traição, a morte – exatamente aquilo da qual queremos fugir – e as transfigurar em sacramento de amor e de comunhão. É a cruz gloriosa, é a Vítima vitoriosa.

Então, para retomar as palavras de Von Balthasar: “Não se trata de atingir o vértice na participação voluntária à paixão expiadora, mas um grau sumo de disponibilidade e de não resistência a todas as decisões de Deus”. Até o fim, como o Faça-se de Maria.

Para não entender mal e cair num sutil vitimismo, tenhamos diante dos olhos Maria: Maria é o antídoto seguro a toda heresia sobre Deus…Tenhamos diante dos olhos o Faça-se de Maria. O Faça-se de Maria é esta suma disponibilidade vivida diretamente, “traduzida” na nossa frágil humanidade. Diz tudo, da Anunciação ao Calvário… até a Eucaristia, ao Cenáculo. O voto de vítima tem um sabor fortemente mariano[16].

Compreende-se quanto Jesus diz a respeito do fato que “Tu não terás sofrimentos visíveis extraordinários, – não é isso que te peço”[17]e ainda: …” mediante o voto de vítima, mas não para expiar com algumas provas extraordinárias os pecados dos outros, não, não é este o meu desejo[18]”.


3. Viver a sua vida eucarística

Há uma palavra síntese que exprime totalmente – como um “concentrado” – este ser de Jesus no mundo, este doar-se da Trindade, este “estado de doar-se” de Deus, do sacrificar-se de Deus, do ser Vítima. Esta palavra é EUCARISTIA:

“É preciso que estes saibam que o voto de vítima significa imitar a minha vida eucarística”[19].

Substancialmente todo o ser e o agir de Jesus Filho de Deus se pode chamar Eucaristia. No decidimos nós ou os teólogos ou os liturgistas: o próprio Jesus, antes da sua Paixão, desejou ardentemente comer esta Páscoa com os seus[20]. Disse e disse tudo aqui, nesta sala do plano superior. Eucaristia é a forma sacramental – sinal vivo e eficaz – de tudo aquilo que Jesus é, que Jesus fez, disse, sofreu, amou, doou:

“Este é o meu Corpo que é dado por vós.

Este é o meu Sangue derramado por vós. Fazei isto em memória de mim”.

A sua vida está toda concentrada aí. A nossa vida cristã, cristiforme, o nosso caminho de conformação a Ele, se espelha nisso. É viver Ele, “segundo o meu modo, imitando a minha vida eucarística[21]”.

Jesus insiste mais vezes que há uma maneira SUA; há uma “maneira” de Deus de viver, com “seus meios”[22], as “suas vias”[23]. É importante ter claro este “seu” porque “o sacrifício eucarístico” ou em geral – é somente aquele de Cristo. Por que? Porque nós não somos capazes do sacrifício. Nós estamos associados a este sacrifício na medida em que fazemos nossa a vida de Cristo, na medida em que nos abrimos e a sua vida entra dentro de nós, como que nós vivemos da sua vida[24].

A Voz, no Colóquio, bem o exprime:

“Eu desejo que as almas saibam que através do voto de vítima entram numa vida de união comigo.”[25]

“Desejo que a tua alma se imole, na imitação da minha vida eucarística, (…) no dom de ti a mim.”[26]

“É como esconder-se no mais profundo do meu coração: a vida dela está toda em mim.”[27]

“As almas que se oferecem como vítimas estão muito mais estreitamente unidas a Mim: – quanto mais amo uma alma, tanto mais desejo associá-la ao Meu apostolado[28]

O convite repetido a estar e agir à “sua maneira”, “com os seus meios”, não é senão segui-lo no caminho de conformação a Ele, o único Mestre.

Sublinhamos algumas palavras que se encontram nos Apontamentos do Colóquio interior a respeito da “sua maneira”, da maneira eucarística de Deus;

– Mediante o silêncio, escutar mais que falar, ações mais que palavras: nn. 363, 366, 529, 634, 661;

– Fazendo um ato oposto ao mal que viu, vencendo o mal com o bem: nn. 19, 52, 68, 200, 243, 249, 265, 300, 352, 366, 529, 577, nota do 368;

– Não exigindo dos outros, mas tudo da si mesmos: nn. 366, 529;

– No esquecimento, imolação, servidor de todos, sem irritar-se: nn. 363, 634, 661;

– Intercedendo sem se cansar: 634;

– Num estado de obediência, paciência, dependência, pobreza: nn. 430, 661, 366;

– Difundindo o meu Espírito, doçura, amabilidade, algo do meu Reino, na alegria: nn. 363, 366, 634;

– Irradiação do triunfo da verdade: nn. 363, 529

– Acolhendo toda ocasião de reparação, expiação: nn. 529, 634.


4. “Vencendo o mal com o bem”

            Entrando numa escuta profunda, ao buscar recolher um foco, um centro de gravidade de quanto o Senhor entrega a Irmã Maria da Trindade neste mistério ressoa, quase redundante docemente, uma palavra: “Vencendo o mal com o bem”. Esta frase – tirada da Carta aos Romanos 12,21 – é com efeito, a citação bíblica explícita mais frequente no Colóquio[29]. O mistério do amor crucificado, além de ser espelho do amor intra-trinitário, é mistério de não resistência ao mal, de radical rejeição da violência e de toda forma de auto defesa[30]. O “faça-se” passivo que se entrega deixando o primado a Deus no agir, se traduz numa adesão “ativa” ao bem, próprio lá onde o mal se manifesta. Um “vencer” com as armas da oferta, do assumir, do reparar[31], “fazendo um ato oposto ao mal que viu”[32].

            Tomando emprestado ainda as reflexões de Maria Campatelli, se trata de “atravessar o mal, a traição, a morte (…) e lhe transfigurar num sacrifício de amor e de comunhão”[33]

            Diversas são as referências a esta “alquimia divina” capaz de transformar o mal em obra de salvação. Algumas:

            “É com o carvão que eu faço os diamantes. O que não faria de uma alma, por má que fosse, se se desse a mim!”[34]

            “Com as ruínas, sobre ruínas, posso edifica esplendidamente. É me agradável utilizar aquilo que se é aniquilado diante de mim, porque a minha ação é livre.”[35]

            “(…) Oh! Se vós me deixásseis fazer, transformaria esplendidamente cada uma das vossas vidas.”[36]

            “Tudo comigo se torna belo.”[37]


5.“Peço quatro coisas”

Num apontamento[38] escrito por Irmã Maria da Trindade no início de março de 1942 – poucos meses antes da morte – Jesus explica com clareza em que consiste o voto de vítima:

“Peço quatro coisas às almas que se ligam mais estreitamente a mim mediante o voto de vítima:

  1. De escutar-me ao invés de falar-me;
  2. De procurar de transmitir minhas ações – a minha maneira de agir ao invés das minhas palavras;
  3. De estar diante dos homens como diante de Deus num estado de pobreza que pede, – não num estado de riqueza espiritual que faz a esmola do supérfluo… às pobres almas, sem pretensões, são na verdade, e pelo fato que são verdadeiras não atropelam os seus irmãos, e a minha graça pode agir por meio deles. As almas vítimas pedirão mais que darão.
  4. De trabalhar unicamente para difundir o meu Espírito, a minha doçura, a minha amabilidade que não se detêm no mal, mas vence o mal com o bem. Exigindo tudo de si e nada dos outros ajudarão as almas, com o seu silêncio e o seu respeito em acolher as graças que a sua fidelidade e os seus sacrifícios obterão de Deus”.

6. Os frutos

A oferta, o sacrifício, a cruz – se “cristãos” – dão sempre fruto. Quem faz o voto de vítima pode ver alguns:

+ Se dá alegria a Deus: “causa-me uma grandíssima alegria”[39]

+ Obedece-se a Deus, ao seu desejo: “Sou eu que fiz isto, sono eu que desejei”[40]

+ Purifica a alma: “Purifica a alma” “O teu pequeno sentimento contrário ao amor arranca-o”[41]

+ Faz entrar numa vida de união com Ele: “estão unidas mais estreitamente”[42]; “entram numa vida de união comigo”[43].

+ As tuas orações obterão conversões, porque Maria as apresentará…”[44]

+ Muitas almas promoverão a vinda do meu reino…”[45]

+ “É assim que se reconstrói a sociedade”[46] (dois dias antes de morrer…)


7.”Do que temes? Do que tens medo?”

Como ocorreu antes do “faça-se” de Maria, o Senhor escuta também o temor que nasce no coração. Escuta-o e o coloca entre as mãos, para poder assegurar: “Eu estou sempre contigo”.

“Do que temes?… Não te abandonarei, estou compre contigo, – desejo reinar em ti.”[47]

“O futuro é meu, do que tens medo?”

Da noite, da noite da fé na qual eu estou só.

“Para iluminar o teu caminho te dei a minha Mãe, Estrela da Manhã, olha-a.”[48]

“Se provocada, deixa-me fazer; deixa-me a alegria de defender-te quando eu quiser e como me agradar.

Se te ataca, vem mais próxima de mim. Te espero sempre.

Te direi os meus segredos que consolam e fortificam”[49]


Coleção de testos sobre o voto de vítima do Colóquio Interior

“Aquilo que te peço, o que espero de ti é que atues, não te irritando ou falando, mas conforme a Minha maneira de agir, imitando a Minha Vida Eucarística. Está aí o voto de vítima que te pedi. Tem coragem. Abençoarei de tal modo os teus esforços que muitas almas depois de ti apressarão a vinda do meu Reino, empregando os mesmos meios que indiquei.” (Colóquio, n. 661).

“Sim, és Minha vítima – fui Eu que fiz isso –, fui Eu que o desejei. Tu não terás sofrimentos visíveis extraordinários, não é isso o que te peço. Desejo que o teu voto de vítima purifique a tua alma. Desejo que a tua alma se imole, à imitação da minha Vida Eucarística, no silêncio, no esquecimento, no dom de ti em Mim, intercedendo sem cessar, acolhendo cada ocasião de expiação com alegria.” (Colóquio, n. 634)

“Minha filha, quais são as almas mais (…) favorecidas? Oh, há muitas! São aquelas que chamo a juntarem-se ao Meu apostolado, na Minha Vida Eucarística. Elas são as mais ricas em graças, porque lhes dou a força que precisam para corresponderem ao que lhes peço. E é como se as escondesse nas profundidades mais fundas do Meu Coração: a sua vida está toda em Mim.” (Colóquio, n. 370)

“Escuta o Meu silêncio: é assim que convém adorar a Deus. Olha bem para a hóstia, como Ela é frágil! Assim é a Minha graça. Ali, Eu estou vivo, em presença invisível, mas real. É assim que a tua alma vive no teu corpo. Eu moro ali num estado de obediência, de paciência, de dependência: assim deviam viver todas as almas consagradas à religião e todas as almas vítimas.” (Colóquio, n.430)

“Quero que as almas saibam que, pelo voto de vítima, elas entram numa vida de união comigo. É preciso que saibam que desejo ardentemente este voto de vítima. É assim que a sociedade se reconstruirá.  É preciso que saibam que o voto de vítima significa: imitar a Minha Vida Eucarística.” (Colóquio, n. 666)

“Sim, peço um exército de vítimas, espalhadas por todo o lado, porque, por todo o lado, o mal está misturado com o bem: na organização dos Estados como na das comunidades; nas famílias como em cada alma. Peço que aqueles que Me amam se ofereçam como vítimas para fazer reparação, vencendo o mal com o bem, no meio onde se encontra. Que elas se consagrem a esta reparação, imitando aquela que levo, na minha Vida Eucarística: pelo silêncio. Oferecendo-me em cada ocasião, um ato oposto ao mal que elas viram; não exigindo nada aos outros, mas a si; obtendo de Deus o triunfo da verdade.” (Colóquio, n. 529)

“Desejo um exército de almas apóstolas que se consagrem a Mim pelo voto de vítima, não para expiar os pecados dos outros com penitências extraordinárias; não, não é esse o Meu desejo. Desejo um grande exército de almas-vítimas que se juntem ao Meu apostolado, na Minha Vida Eucarística, que se comprometam, pelo voto de vítima, a escolher os métodos que Eu escolhi: silêncio, imolação, irradiação do triunfo da vida do Espírito, a fim de que o Meu Espírito se difunda e elas revelem algo do Meu Reino, para onde todas as almas são chamadas e onde são esperadas. Desejo um exército de almas vítimas que ponham todos os seus esforços em imitar o meu apostolado: Eu sou o Mestre: fui o servo de todos. O voto de vítima dar-lhe-á a força de uma maior fidelidade, para serem servos de todos, para que o Meu Espírito se difunda e o mundo acredite nas Minhas palavras. Desejo que estas almas vítimas estejam por todo o lado: no mundo e nos claustros; em todas as ocupações, em todos os estados de vida, nos campos e nas fábricas, nas escolas e nos estabelecimentos comerciais, nas famílias e nos conventos, no comércio e nas artes, por todo o lado…, para que a sua fidelidade dê testemunho das Minhas palavras. As almas que se oferecem como vítimas estão muito mais estreitamente unidas à Mim: quanto mais amo uma alma, tanto mais desejo associá-la ao Meu apostolado… olha para os Meus santos e olhara para a Minha Mãe…Então posso pedir-lhes – e posso dar-lhes…” (Colóquio 363).

Mosteiro Santa Clara – Jerusalém 2020.


[1] Irmã Maria da Trindade, “Colóquio Interior”, ETS Milão, 2015.

[2] Maria Campatelli, “Para a descoberta do significado do sacrifício”, Meditação ocorrida no congresso anual do Centro Aletti. “As inspirações da vida no Espírito. Uma existência eucarística”, Assis, 2-7 de julho de 2017.

[3] Idem, n.393.

[4] Idem, n. 127.

[5] Idem, n. 168. Cf. também n. 22: “Eu sou o Amor”; n. 153: “Tudo o que o Pai tem, ele me deu”.

[6] Idem 632.

[7] “Tu vês! Isto é o amor. (…) Mais tarde compreenderás que o sofrimento de amor é este desejo ardente de dar aos outros, de ser destruído para poder dar-lhes aquilo que poderia beneficiar-se a si próprio. Foi assim que Eu amei os homens, desejando com um desejo extremo, imolar-me para dar-lhes a Minha Vida” (Colóquio, n. 297)

[8] Campatelli, pg. 1

[9] Idem

[10] Idem, pag. 2

[11] “Que um mesmo amor nos assemelhe, Irmã Maria da Trindade, sua vida – sua mensagem. Luísa Jaques. Éscritos recolhidos por Fr. Alain Duboin ofm, 3ª edição Apostolado das Edições – Edições Paulinas Paris –  Montreal 1977. Prefacio H.U. Von Balthasar, pg. 7-11. Tal prefacio em realidade é mais amplo, compreendido uma parte biográfica de Luísa Jaques/Maria da Trindade, escrita pelo próprio Von Balthasar na parte introdutória do seu livro “Louisa Jacques, Glauben heist der Liebe lauschen” (= Crer significa escutar o amor). Pitratdruck. O Corpo do texto deste livro publicado por Von Balhasar em edição em alemão de diversos Apontamentos do Coloquio Interior.

[12] Os três temas são: a escuta, a liberdade, e o voto de vítima.

[13] Coloquio, n. 278

[14] “Porque não digo senão coisas simples e sempre adequadas à ocasião daquilo que vos acontece e daquilo que tu vês. (…) Quando eu falava aos Meus discípulos, aproveitava sempre a ocasião do que se passava à minha volta: olhar para os Evangelhos. Eu não mudei”. (Colóquio, n.274).

[15] “A kenosis é, portanto, o modo com que Deus ama. Por isso reencontramos a kenosis em toda a história da salvação” e pouco acima: “o movimento do sacrifício é precedente ao mal e a força do sacrifício está próprio no fato que consegue englobar o mal e transfigurá-lo. Justamente porque o sacrifício é a força da vida de Deus, o que fez Cristo? Ele no mundo foi crucificado: o mal é uma presença tão forte que a plenitude da vida não se pode alcançar sem sofrer. Mas o significado da paixão e da morte de Cristo não está no fato que o bilhete foi pago, que finalmente há um capaz de saldar o preço devido à majestade ofendida de Deus: está ao invés no fato que Cristo, em virtude desta vida, que é vida de comunhão, consegue atravessar o mal, a traição, a morte – todas consequências de uma existência se comunhão – e as transfigura num sacrifício de amor e de comunhão. Cristo se doa por amor do Pai. Então a morte, a última consequência de uma existência sem amor, enfrentado para não romper o amor, por amor do Pai e na comunhão com Ele, muda o sinal. Na morte, Cristo não está só. Não há mais morte na sua morte, mas a própria morte torna-se um corredor breve e luminoso através a qual Ele passa da outra parte, na comunhão com o Pai” (Maria Campatelli, pag. 3)

[16] Cf. também Colóquio n. 363: “…observa os Santos, observa minha Mãe…”

[17] Idem n. 634 continua:” Tu não terás sofrimentos visíveis extraordinários, – não é isso que te peço. Desejo que o teu voto de vítima purifique a tua alma. Desejo que a tua alma se imole, a imitação da Minha Vida Eucarística…”

[18] Cf. Colóquio n.363 continua: “Desejo um grande exército de almas vítimas que se unam ao meu apostolado da vida eucarística”.

[19] Idem, n.666. Também n. 363, 370, 259, 634, 661.

[20] Cf. Lc 22,15

[21] Idem, n. 666 e n. 363.

[22] Idem, n. 661.

[23] Idem, n. 363.

[24] Campatelli,  p.3

[25] Colóquio, n. 666.

[26] Colóquio, n. 634.

[27] Idem, n. 370.

[28] Idem, n. 363…

[29] Cf. Colóquio nn. 19, 52, 68, 200, 243, 249, 300, 352, 365, 366, 415, 529, 573, 577, 656, 661, 629..

[30] Idem, nn 2, 99.

[31] Idem, nn. 42,86, 109.

[32] Idem, n. 529.

[33] M. Campatelli, pag. 3.

[34] Colóquio, n. 559.

[35] Idem, n. 278.

[36] Idem, n. 99.

[37] Idem, n. 198.

[38] Idem, n. 366.

[39] Idem, n. 114.

[40] Idem, n. 21.

[41] Idem, n. 634.

[42] Idem, n. 363.

[43] Idem, n. 370.

[44] Idem, n. 151.

[45] Idem, n. 661.

[46] Idem, n. 666.

[47] Idem, n. 100.

[48] Idem, n.9..

[49] Idem, n. 6.