A mensageira Irmã Maria da Trindade

Clarissa de Jerusalém

Dom Sélim Sayegh

Bispo auxiliar emérito do Patriarcado Latino de Jerusalém


O conteúdo dos colóquios[1]

Capítulo 4. da Primeira parte

Os ensinamentos que Jesus nos dá com amor e força são dirigidos diretamente à cada alma consagrada, mas também à cada fiel, pois eles nos colocam diante do amor divino de Deus pelas almas, nos revelam o inestimável valor de todos pequenos atos de nossa vida. Eles nos esclarecem sobre o mistério e a grandeza das almas, sobre nossa responsabilidade apostólica e nossa vocação no mundo. Eles são um dom inestimável: é para que cada um de nós tire proveito e aprofunde nossa compreensão do mistério da redenção.

a – Jesus insiste já ao início sobre a santidade na vida quotidiana, sobre os atos que se repetem cada dia. Ele mostra claramente que o que mais lhe agrada, são os pequenos atos da vida quotidiana onde ele ensina a alma a renúncia: a alma que é fiel nas pequenas coisas será fiel nas grandes. Todos os cristãos, leigos, consagrados, padres que querem ser fiéis a sua vocação cristã encontram geralmente na sua vida quotidiana, as mesmas dificuldades quando Jesus lhes manda praticar as virtudes.

O “quotidiano da vida” é o campo de batalha da perfeição cristã. Desde a conversão de Luísa, Jesus, com bondade e clareza, insistia sobre os princípios de santidade para praticar na vida quotidiana, despertando o amor em todas as pequenas coisas, pessoais e comunitárias que se repetem cada dia. Ele encorajava e reprendia, ele não permitia a menor imperfeição: ele lhe advertia, ele a chamava a uma vida espiritual mais profunda, uma vida onde se esquece, onde se abandona e se aspira à uma vida de união mais íntima com Ele. Ele diz à irmã Maria da Trindade: “Todas as almas poderiam alcançar rapidamente à plenitude de sua santidade se elas me deixam agir, sem resistência” (608). Malgrado os pecados e as fraquezas das almas, Jesus continua a construir a santidade nelas com a condição que elas não cessem de “batalhar” contra seus defeitos e fraquezas, de fugir do pecado venial e de se abandonar a Ele.

b – Jesus conduz a alma ao despojamento, à liberdade dos filhos de Deus e à transparência nos embaraços, nas preocupações e nos mal entendidos que a vida quotidiana suscita. É porque, ele atrai incansavelmente a atenção sobre a importância dos mais pequenos atos da vida quotidiana, da relação com o próximo e do cumprimento dos deveres de cada dia: pessoais e comunitários. Diante de Deus, não há nada de pequeno e sem importância: tudo se torna grande pelo amor. Sem amor, as maiores realizações das almas não têm valor aos seus olhos. Jesus se ocupa de todos os detalhes de nossa vida. Ele se interessa por tudo. Ele não se abaixa fazendo isso, pois ele não é um grau de grandeza: ele é o Amor (168).

Ah! Se soubéssemos quantas almas podem ser salvas pelos nossos pequenos atos feitos por amor e em união com Ele! Ele nos coloca diante da nossa surdez espiritual, da nossa dureza de coração, do nosso pouco e da nossa tibieza que são como uma parede que o impede de construir a santidade em nós. É preciso ser muito fiel. Trata-se de permanecer bem humilde e abandonado a Ele. Nossa pequenez não o assusta. Ele é nosso Salvador, e nos ama até a morte sobre a cruz, não é preciso faltar de confiança Nele. Ele não cessa de repetir a seus santos e a todos os homens que ELe os ama porque eles são miseráveis e pequenos. Ele os reveste dos seus méritos e os cobre com seu sangue. A pequenez deles dá lugar à sua grandeza, e a miséria deles, e memo os pecados deles, dão lugar à sua misericórdia.

c – Jesus insiste sobre o amor de Deus e do próximo. Há mais de 120 parágrafos que se referem ao amor de Deus, ao amor do próximo, ao amor de Jesus pelas almas e ao amor de Jesus Eucaristia, ao amor e o sofrimento, a necessidade de amar e de ser amado: “… Sê bondosa para com todas as tuas irmãs e superioras. Não julgues ninguém. Sê bondosa… amável, amável, amável… Sou Eu, o teu Jesus, Aquele a quem amas no teu próximo. Eu, que escondido em cada alma, aí tenho de crescer, encontrar um coração que Me deseje e Me ame… O amor não olha para as ofensas. Ele perdoa sempre, sem se cansar. Ele ama sem tréguas e cresce sempre…” (17,22).

d – Ele insiste sobre a humildade e diz que: “…A humildade não são palavras, atitudes ou ações. É a coragem para olhar na face as vossas mais escondidas intenções, é a coragem de reconhecer se elas são egoístas e de Me pedir para vos purificar… Há várias formas de humildade: a que admite o vosso nada e a vossa indignidade fala segundo a sabedoria e a verdade; mas é também uma forma de humildade não falar de si, porque a pessoa não pensa em si mesma, só pensa em mim. Eu amo este silêncio sobre si mesmo…” (523, 650).

O demônio se perdeu pelo orgulho. Ele excita o orgulho nas almas e as deixa seguir o instinto do seu orgulho. É o orgulho que faz suas vitórias. A alma humilde que ama Jesus-Eucaristia pode reparar suas próprias ofensas, aquelas dos outros pecadores e aliviar seu Coração. É verdade que nós somos pecadores, bem miseráveis, mais é por causa desta miséria mesma que Jesus-Eucaristia tem piedade de nós e que nos coloca ao abrigo no fundo do seu Coração. Durante sua vida terrestre, os santos são tão humildes, e Jesus os ajuda a descobrir mais e mais que eles são miseráveis pecadores, que eles são nada, simplesmente um pouco de pó.

Jesus dirige irmã Maria da Trindade. Ele a ajuda a aprofundar sua humildade e a enraíza no sentimento da sua fraqueza e do seu nada. Ele lhe diz: “Não me deixes, Minha pobre criaturinha. Se soubesses como precisas de Mim!… Amo-te porque tu és tão, tão miserável. Não sentes o quanto te amo? Amo-te porque não podes passar sem Mim e desejo ver-te feliz; amo-te porque dei a Minha vida por ti… Compreendes que tu és nada? Sozinha, só és revolta, recusa, negação… Quero-te toda para Mim. És tão miserável! Precisas certamente de Mim. Guardar-te-ei no mais íntimo do meu Coração: és a minha filha! Juntos, faremos algo de bom… Deixa-te fazer…Tu és nada, mas este nada será eternamente feliz, porque Eu te guardarei sempre junto de Mim… Sim, tu és a mais indigna do mosteiro, quando vejo os teus pecados; é a menos capaz de todas, quando vejo aquilo que fazes. No entanto, falo-te mais do que às outras: a tua indignidade atraiu-Me, quis salvar-te de ti mesma. Sou Eu que faço imperceptivelmente, progressivamente; só tens de Me dar a tua alma, dá-la sem reservas e sem resistir aos Meus desejos. É assim que cada alma encontra a sua plenitude… Tu és um nada – uma nulidade…É porque tu és nada que Eu posso apoderar-Me de ti, substituir-Me por ti… Minha filha, tu és nada. Nem mesmo um grão de pó. Nada. Mas a tua alma é imortal, porque Eu vivo na tua alma…Permanece fixa em Mim, como a pequena agulha magnetizada da bússola…” (18, 25, 29, 54, 65, 72, 192, 231, 556).

Ela sabia que, diante de Deus, ela não é senão pecado e ingratidão: ela tem sempre necessidade do seu Jesus. Sem Ele, ela não tem nada e não pode fazer nada, ela não é senão um abismo de miséria. Jesus permite também que ela experimente sua fraqueza na luta quotidiana através da qual ela foi fiel e obediente até o fim. Ele lhe diz: “Se te atacam, deixa comigo: dá-me a alegria de te defender… Larga o que não te é necessário…Sê inteiramente pobre em palavras, em gestos, em objetos, em desejos… deixa-me fazer…não me recuse nada… Tu não podes fazer muito bem sobre a terra, és demasiada desastrada – inábil… Faz silêncio à tua volta e em ti…Não me escutas o suficiente…Quero que estejas desperta e à escuta” (6, 11, 12, 14, 53, 20, 245).

e – Jesus insiste sobre: a obediência, o silêncio, o apostolado pelo silêncio e o exemplo, a fidelidade, a generosidade. De uma maneira particular, Ele insiste sobre a alegria interior, a alegria de dar, de se entregar à Ele. Ele diz: “Prefiro ver uma alma dar-me pouco, mas com grande alegria, do que vê-la dar-Me muito, consagrar-Me tudo o que a vida humana pode consagrar, mas com tristeza. A tristeza é como um arrependimento… Minha filha, serve-me com alegria, dá-me muita alegria – ela dá testemunho da minha presença. Eu dou-te e tu não poder oferecer-me nada de melhor do que os Meus dons. Se só me trazer sofrimento e esforço, dás aquilo que vem de ti, e que terás feito da alegria que te enviei? Eu estou sempre num coração alegre… Alegria de viver sob a autoridade… Alegria da obediência, porque ela exprime o vosso amor… Alegria da pureza e da castidade… Alegria da pobreza… Alegria do sofrimento corporal, que liberta a alma. Alegria da mortificação interior… Alegria, alegria, alegria interior! Minha filha, de ti, que tens uma tarefa tão fácil, desejo que convertas tudo em alegria interior. Assim glorificas-Me” (220, 383)

f – É preciso notar também que os colóquios escritos pela obediência ao seu diretor espiritual, refletem a caminhada de Irmã Maria da Trindade para a santidade. Eles refletem sua vida íntima com Jesus-Eucaristia, o caminho interior percorrido e o segredo da luta íntima contra ela mesma para corresponder sempre mais à vontade divina em todas as pequenas coisas da vida quotidiana. O Senhor a mantinha sempre no esforço constante exigido de toda alma que se entrega realmente à Ele. Jesus é o guia mais seguro, é o mestre mais competente. O colóquio é a palavra de Deus dirigida diretamente à sua alma. Sua caminhada pra a santidade se fez no silêncio completo do seu coração e na absoluta fidelidade às Constituições e à regra das Clarissas.

g -O colóquio interior é uma enciclopédia dos fatos de cada dia do convento onde cada religiosa é convidada a praticar as virtudes cristãs. Na vida de Irmã Maria da Trindade, Jesus se coloca diante dos muitos fatos humildes da vida quotidiana, e fazia compreender a sabedoria, o poder e a bondade de Deus. Ele fez alusão pelo menos trinta vezes aos diferentes fatos muito ordinários da vida do claustro onde ele pede para praticar as virtudes.

A alma que quer verdadeiramente caminhar no caminho da santidade, não há senão que seguir metodicamente esta direção espiritual de Jesus que prevê as dificuldades principais da vida monacal e orienta a alma para as virtudes fundamentais, e encoraja a fazer os esforços de uma maneira decisiva. Jesus não deixa passar nenhuma circunstância sem colocar em relevo as virtudes que se deve praticar aí.

h – O colóquio interior revela uma alma mística. Segundo a tradição cristã é mística a pessoa eleita por Deus para receber alguns dons místicos e algumas graças. Deus dá livre e gratuitamente, mas não a partir dos méritos da pessoa. Isto é porque uma pessoa não escolheu de ser mística ou de receber algumas graças místicas. É Deus que se serve de quem não é nada, para o bem da Igreja, para sua glória e a salvação das almas. Por sua vontade expressa, os místicos estão unidos a Jesus na cruz de suas vidas para a conversão dos pecadores. Eles se oferecem a si próprios à Ele totalmente, sem reserva, sem retorno. Há, pois, sempre em suas vidas, o mistério do extraordinário amor e do sofrimento. Eles são com frequência mergulhados pela dor e os sacrifícios, como queridos por Deus, mas ao mesmo tempo cheios de amor, de paz e de alegria.

Nós podemos aprender muito com a vida dos místicos. Eles nos ensinam que os sofrimentos de nossa vida são nosso tesouro, e que o amor e o sofrimento vão sempre juntos lá aonde há um santo, ele é sempre a obra prima do Espírito Santo, uma obra de arte realizada por Ele. No Colóquio nós podemos entrever a fidelidade corajosa de Irmã Maria da Trindade através dos sofrimentos. O fim onde o Senhor conduz sua serva, sobretudo nos últimos meses de sua vida, é uma união profunda, silenciosa, que ela não pode realizar senão pelo sofrimento e o abandono total dela mesma a Jesus: ela se deixa transformar pelo amor divino em amor divino.

i – Para Irmã Maria da Trindade a vida eucarística não era um setor da sua vida, mas preenchia toda sua vida:

Seus encontros com Jesus-Eucaristia eram os momentos os mais ricos da sua vida. Jesus estava para ela, o “Mestre”, o “Esposo”, e o “Guia” de sua fé nele, e de seu amor por Ele na Eucaristia.

  • Ela adora cada vez que ela está na igreja. Ela adora Jesus-Eucaristia “em espírito e em verdade” no seu trabalho fora da capela. Ela tenta permanecer em adoração todo o dia, lá onde o dever a chama. O que ela não pode ver com os olhos do corpo, ela o vê com aqueles da fé. A alma que, em estado de graça, faz a comunhão possui Deus, o Autor da vida. Nada não pode lhe ser comparado em beleza. Os anjos a admiram e se prostram e adoram Deus nela.
  • Ela escuta. Jesus-Eucaristia fala. No dialogo interior se observa sua paciência, seu zelo e seu amor pelas almas. Jesus não manda, mas ele pede. Ele fala de seu amor, de sua graça, de sua misericórdia e de sua generosidade. Junto Dele, há este equilíbrio que não está neste mundo. Nós observamos também quanto sua palavra é simples, alegre e profunda. Ela é palavra de vida, de amor. Trata-se de amar Jesus-Eucaristia: tudo está lá. O essencial é de amá-lo e imitar as virtudes de sua vida eucarística. Uma pequena alma que vive desconhecida em plena adoração pode conduzir um verdadeiro apostolado extraordinário, pela sua amplitude e sua fecundidade. Ele parece inativa, mas na realidade ela leva uma vida apostólica muito eficaz e alcança todos os cantos da terra, obtendo as graças de salvação para o mundo inteiro. Na vida de todos os santos, a adoração eucarística é centralizada sobre a finalidade apostólica e missionária: a glória de Deus e a salvação das almas.
  • Ela obedece: a partir da vida comunitária, Jesus não perde nenhuma ocasião de lhe dar uma lição de obediência e lhe fazer tocar com o dedo sua fraqueza. Há um crescendo de ensinamento maravilhoso a respeito da obediência, na vida comunitária de um convento. Eis aqui alguns exemplos. Jesus lhe diz:

“A obediência afasta as ilusões. Não precisa ser inteligente aquele que dá a sua vida à eterna Sabedoria. Pensa só em Mim, pensa só em agradar-Me. Eu transformar-te-ei.” (9)

“Peço-te só que obedeças rigorosamente à tua Santa Regra, ao teu diretor espiritual e às tuas superioras, que ames tudo o que Eu te enviar e que Me ouças.” (37)

“Ainda não és perfeitamente obediente: muitas vezes, ao primeiro toque do sino, não deixas tudo. Responde mais depressa à minha voz, a Mim que te espero, a Mim que te amo há tanto tempo.” (58)

“Compreendeste como obedeço? Eu dou-me, cedo aos desejos de todos. Faz o mesmo. A madre vigária quer que vás mais depressa para o jardim: agrada-lhe. A tua superiora quer que estejas o menos possível na tua cela, submete-te…que te importa estares aqui ou ali? Eu acompanho-te por todo o lado.” (119)

“Pregaram-Me no madeiro. A obediência também pregará as tuas mãos, os teus pés, o teu coração. Mas lembra-te que é ao Meu Coração que ela te crucifica, a fim de que nada te separe de mim.” (142)

“Sois vós próprios que teceis a vossa felicidade. Eu dou-vos os elementos e compete a vós tecer, hora a hora, o rosto da vossa felicidade… A obediência dará a medida da vossa destreza e é o amor que dará a este trabalho a sua cor, a sua vida e a sua beleza…” (201)

“Quando vejo que aqueles que Me amam obedecem com dificuldade, isso é para Mim uma humilhação…O meu jugo é suave quando te entregas, com toda a tua alma, sem reservas, ao impulso do amor.” (219)

“Sim, calei-me esta manhã, porque estavas descontente com a tua superiora. Isso não está bem. Não deves julgar ninguém… É-Me muito agradável que te submetas em tudo à autoridade da tua superiora, porque a autoridade vem de Deus…” (261)


Agradecemos sinceramente a um amigo do CLAUSTRUM pela contribuição generosa na tradução deste interessantíssimo texto sobre a espiritualidade da Irmã Maria da Trindade.


[1] Dom Sélim Sayegh, “Le voeu de Victime à Jesus-Eucharistie”, p. 25s